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Ministra quer replicar projeto que dá bolsas a programadores e tem cotas para negros

Área tem déficit de profissionais: inclusão racial em carreiras científicas e tecnológicas é desafio

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Foto: FELIPE RAU
Entrevista comLuciana Santosministra da Ciência e Tecnologia

Se aumentar a presença de negros no ensino superior já tem sido um longo processo por meio das cotas, a diversidade racial em carreiras científicas e tecnológicas é um desafio ainda maior. A ministra da Ciência e Tecnologia, Luciana Santos (PCdoB), quer replicar um exemplo bem-sucedido em Pernambuco, onde foi vice-governadora, para ampliar o número de pretos e pardos nessas áreas.

Em entrevista ao Estadão, ela conta que planeja, em escala nacional, uma versão do Embarque Digital. O programa dá bolsas de graduação tecnólogo na área de tecnologia da informação (TI) a ex-alunos da rede pública, uma parceria da prefeitura do Recife e o Porto Digital, polo de inovação na capital pernambucana. “Há um déficit gigante no Brasil (de profissionais nesse setor). Calcula-se que 100 mil vagas”, afirmou ela.

Já foram beneficiados 1,4 mil alunos - metade das vagas é para pretos e pardos. Para ingressar, considera-se o desempenho na avaliação seriada local ou no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Em caso de notas iguais, ser mulher é critério de desempate. Reduzir a desigualdade de gênero em áreas dominadas masculinas é outra preocupação, segundo a ministra, engenheira eletricista de formação que se autodeclara parda.

A ministra Luciana Santos (PCdoB) é engenheira eletricista de formação e se autodeclara parda. Foto: Felipe Rau/Estadão

Os dados do CNPq, órgão de fomento à pesquisa do ministério, revelam as disparidades de gênero e raça. Entre as bolsas de produtividade (PQ), dadas a cientistas mais reconhecidos em suas áreas, 35% são mulheres. E, do total, só 11% são negros.

A ministra não defende um modelo único de ação afirmativa na pesquisa, mas aprimorar o diálogo com os pesquisadores negros. E destaca a necessidade de trazer a perspectiva da inclusão racial para as áreas do conhecimento que recebem incentivo, até como forma de conhecermos mais o próprio País.

Leia a entrevista:

O que o ministério vai fazer, do ponto de vista de editais e de bolsas, para ter ações afirmativas pensando na população negra?

Quando fui vice-governadora de Pernambuco, estimulei que a nossa fundação (de amparo à pesquisa) fizesse editais específicos. E vou estimular nas FAPs (fundações estaduais de amparo à pesquisa, como a Fapesp) do Brasil fazer estudo da educação da população negra brasileira, para maior conhecimento da história e de como se formatou todo esse processo de resistência do quilombola, para um autoconhecimento do que nós somos, o tamanho que a população negra tem e indicadores para ajudar na tomada de posição e de planejamento.

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Outra experiência que queremos dar escala nacional é na área de capacitação no desenvolvimento de software. Por quê? Há um déficit gigante no Brasil: calcula-se que de 100 mil vagas e não tem gente. Queremos fazer uma réplica de uma experiência desenvolvida no Recife a partir do Porto Digital, que se chama Embarque Digital. Metade das vagas é para pardos ou pretos. Nós vamos replicar também experiências dessa natureza. O critério (no Embarque Digital) são as notas do Enem e o corte racial. São os alunos que terminaram o ensino médio. Vão ser bolsas para (estudar) desenvolvimento de software, programadores. Ou seja, a política afirmativa perpassa vários dos nossos programas e iniciativas, para ajudar no enfrentamento dessa desigualdade.

E estamos lançando um edital de R$ 100 milhões, para estimular meninas, mulheres, nas áreas de ciência da computação, ciências exatas e engenharia. Seja porque há déficit muito grande nessa área, de maneira geral, para meninos e meninas, mas nós vamos estimular e fazer um edital só para meninas. Inspirado no Futuro Cientista, que a gente já tem. Neste caso, só com o recorte de gênero (e não racial).

Há previsão de um modelo de ação afirmativa que valha para todos os editais?

Não especificamente. Há uma articulação nacional dos pesquisadores negros, com quem a gente estabelece diálogo permanente.

Como as pautas de pesquisa dos editais e dos programas incentivados via CNPq e outras áreas do ministério podem ajudar a combater essa desigualdade racial?

Sem dúvida, na área ambiental e na área de política pública das moradias, isso se apresenta com muita ênfase, por exemplo. Porque é onde mora a população negra do nosso País. A região amazônica tem mais quilombolas do que indígenas.

Em relação à diversidade, houve a saída e discussões sobre saídas de ministras, com possível perda de representação negra e de mulheres. Quanto isso perdeu força no governo federal hoje?

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Não, é ao contrário. O governo, o presidente Lula, tomou essa decisão: a maior quantidade de ministros mulheres da história do País. E ele tem uma preocupação evidente sobre isso. Agora, toda construção política e de governabilidade reúne muitas variáveis, esse exercício não é simples. Mas o caminho que o presidente percorreu foi esse, de valorizar e criar o primeiro Ministério da Igualdade Racial da história, que não existia. Criar o primeiro Ministério de Povos Indígenas. Foi ele quem criou o primeiro Ministério das Mulheres, lá atrás. É uma demonstração cabal da disposição e da vontade política de fazer valer um caminho do enfrentamento da desigualdade. / COLABOROU GONÇALO JUNIOR

Sobre programas de Ações Afirmativas de diversidade racial:

  • Foi lançado, em julho, o Programa Beatriz Nascimento de Mulheres na Ciência. Uma parceria do CNPq e MCTI com o Ministério da Igualdade Racial, Ministério dos Povos Indígenas, Ministério das Mulheres, CAPES vai destinar bolsas no exterior para mulheres negras, ciganas, quilombolas e indígenas.

Além disso, estão previstos auxílios para a obtenção de passaporte e vistos, por exemplo. A Chamada de Seleção deve ser lançada em breve.

  • PIBIC - Af - O Programa Institucional de Iniciação Científica - PIBIC nas Ações Afirmativas - PIBIC - Af é dirigido às universidades públicas que são beneficiárias de cotas PIBIC e que têm programa de ações afirmativas.

Trata-se de um programa piloto que prevê a distribuição de bolsas de Iniciação Científica - IC às instituições que preencham esses requisitos e se interessem em participar do programa.

Atualmente, possui 2.304 bolsas vigentes.

BOLSA-PRÊMIO DE VOCAÇÃO PARA A DIPLOMACIA: Iniciativa promove caminhos para novos avanços que introduz negros, pretos e pardos na carreira de diplomata

*Este conteúdo feito em parceria com as entidades Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdades Raciais, Educafro e Liga de de Ciência Preta Brasileira

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