“Não diga isso ao seu marido, Alice: você corre o risco de que ele te ache velha” — foi a frase que ouvi de uma conhecida há 4 anos, quando os primeiros sintomas da menopausa apareceram por aqui. Ela me disse com sinceridade, até com carinho; estava preocupada que, além de eu me sentir mal, ainda perdesse o homem. O pior foi descobrir que ela só disse o que a maioria pensava.
Quatro anos depois, temos falado mais sobre o assunto. Parece até que falamos demais, mas não é nem de perto o suficiente para mudar um ciclo de anos e anos de silêncio e desinformação. E, por termos começado a falar mais — e mais alto —, esta semana muitos devem ter visto que a FDA, a Anvisa americana, veio a público dizer que errou! Errou em um estudo que fez estragos durante 20 anos na vida de milhões de mulheres. “Tragicamente, dezenas de milhões de mulheres tiveram uma mudança de vida e benefícios para a sua saúde negados por um dogma enraizado e uma distorção de risco”, disse, em um longo comunicado, o porta-voz da FDA.
Parece até que falamos demais, mas não é nem de perto para mudar um ciclo de anos de silêncio e desinformação
Alice Ferraz
É quase inacreditável, se eu mesma não tivesse vivido essa sensação de falta de controle sobre uma condição que me disseram para calar, para me acostumar e para aceitar como um momento de desacelerar.
Como se estivéssemos todas fadadas ao fim da vida, em plena vida!
Aos 50, além de liderar uma nova fase da minha empresa, comecei a escrever no Estadão, descobri que a minha curiosidade se chama “alma de repórter” e uma nova carreira me relembrou a jovem cheia de propósito que queria ser jornalista. Eu estava decolando para novos voos!
Descobri o meu melhor momento da vida: com maturidade, alguma sabedoria, vitalidade e, com meu filho adulto, tempo para me dedicar a uma nova carreira. Mas nada disso seria possível sem me rebelar contra diagnósticos baseados no tal “dogma”; fui atrás dos hormônios e me reagrupei com partes de mim que pareciam se desintegrar.
Fiz questão de que meu parceiro de vida fosse exposto ao que eu passei. Não fingi, como fui aconselhada a fazer, e senti o desafio para a relação. Mas eu tive acesso! À informação, ao tratamento — e é isso que desejo para cada uma das 30 milhões de mulheres que vão entrar na menopausa no Brasil nos próximos 10 anos.



