
Com obras monumentais, vibrantes e profundamente femininas, a artista portuguesa Joana Vasconcelos, 53 anos, tem se consolidado como um dos grandes nomes da arte contemporânea internacional. Nascida em Paris em 1971, mas radicada em Lisboa desde a infância, ela é conhecida por misturar técnicas artesanais a objetos industriais e por transformar materiais associados ao universo doméstico em esculturas de grande escala. Seu trabalho já passou por instituições de peso como o Guggenheim Bilbao, na Espanha, o Centre Pompidou, em Paris, e o próprio Palácio de Versalhes, onde foi a primeira mulher e a artista mais jovem a apresentar uma exposição solo.
Após o sucesso da mostra Extravagâncias exibida no Museu Oscar Niemeyer, de Curitiba, entre novembro de 2023 e setembro de 2024, ela volta ao Brasil com a exposição Around the World, na Casa Triângulo, em São Paulo. A mostra é um reencontro com o País e também uma celebração do olhar global sobre sua obra. “Estar na Casa Triângulo é um feliz reencontro com esta energia contagiante”, afirmou a artista em entrevista à coluna.
Sua linguagem estética se construiu a partir da mistura entre o que é considerado erudito e aquilo que vem do cotidiano. “Desde o início, sempre me interessei por cruzar linguagens. A minha formação foi em artes plásticas e o meu imaginário poético sempre foi habitado por elementos variados.” O trabalho de Joana convida o espectador a repensar a hierarquia dos materiais. “Percebi que havia um espaço muito interessante entre o que é considerado ‘nobre’ e tudo o resto.”
Desde o início, sempre me interessei por cruzar linguagens do que é considerado erudito e o que vem do cotidiano
Joana Vasconcelos
Não à toa, o crochê, a cerâmica, os têxteis e até os objetos industriais aparecem com força em seu repertório, sempre carregados de simbolismo. “Escolho-os pela carga histórica, cultural ou emocional que carregam.” Para ela, a combinação entre técnica e conceito é essencial: “É essa dicotomia entre material, forma e conceito que me interessa.” Ao cobrir um animal de cerâmica com crochê ou ao aplicar bordados em uma escultura monumental, Joana desafia códigos e subverte expectativas. “Os materiais são cuidadosamente selecionados porque são extremamente importantes na minha obra, eles existem para acrescentar camadas de significado.”

A dimensão colaborativa também é marca registrada em sua produção. “Tenho uma equipe composta por artesãos, arquitetos, e outros especialistas, e cada projeto é como um esforço e mérito conjunto.” A criação começa nos seus cadernos, que a acompanham por todos os lados. “Passo grande parte do meu tempo a esboçar ideias e a desenhar, é muito meditativo para mim.” O processo avança por várias etapas, até culminar na obra final. “Depois do desenho, continuamos para o projeto, protótipo, testes, desenvolvimento e concretização.”
Entre suas colaborações mais recentes está a escultura Valquíria Miss Dior, criada para o desfile da coleção outono-inverno 2023-2024 da marca francesa. “Criar uma escultura monumental, inteiramente feita à mão, com mais de 24 metros de comprimento, sete de altura e mais de uma tonelada, foi um verdadeiro tour de force.” O convite partiu da diretora criativa Maria Grazia Chiuri. “Admiro profundamente pela sua visão feminista e pelo compromisso com a tradição artesanal.” A inspiração veio da história de Catherine Dior, irmã de Christian Dior. “Uma mulher extraordinária, resistente, que era florista, que me inspirou para criar a peça.” Joana resume a experiência como “uma colaboração intensa, sensível e simbólica”.
É a dicotomia entre material, forma e conceito que me interessa
Joana Vasconcelos
As questões de gênero e identidade estão presentes em toda sua trajetória. “O feminismo está no meu trabalho como está na minha vida.” O uso de materiais e símbolos historicamente ligados ao feminino não é acaso: é gesto crítico e celebratório. “Uso elementos associados a uma ideia de feminilidade, tal como os têxteis, a casa, a cor, as manualidades, entre outras, para questionar normas e potenciar reflexões.” Para ela, arte também é posicionamento. “É uma forma de empoderamento, mas também funciona quase como uma reivindicação poética.”
A cultura portuguesa atravessa seu repertório — da azulejaria ao fado — mas sempre dialogando com outras geografias. “Portugal está em tudo o que faço e sou.” A artista vê na circulação internacional um modo de expandir sentidos.
Entre museus, espaços públicos e marcas de luxo, Joana transita por universos distintos sem abrir mão de sua essência. “São ecossistemas diferentes, mas todos exigem coerência e consciência do seu contexto específico.” Trabalhar com marcas exige escuta e equilíbrio. “Preciso encontrar um ponto de contato entre a minha linguagem e a identidade da marca.”
O contato com o público é parte fundamental de seu fazer artístico. “Gosto que ele se envolva,as reações mostram que a obra está viva.” Quanto à crítica, é acolhida com a mesma abertura. “Toda ela é bem-vinda, é mais uma forma de experimentar aquilo que eu crio.”
Na visão de Joana, a arte contemporânea pode — e deve — ser múltipla. “Pode ser bela e desconcertante, lúdica e crítica, acessível e complexa.” E não precisa ser decifrada para ser sentida.
O feminismo está nom meu trabalho como está na minha vida
Joana Vasconcelos
Com novos projetos em curso e vontade de voltar ao Brasil outras vezes, ela celebra sua conexão com o País. “É uma potência criativa. Sinto uma afinidade profunda com multiplicidade brasileira”.


