Vamos rir um pouco da vida
Antropólogo diz nesta terça-feira, na Coluna de Alice Ferraz, se vai continuar pesquisa sobre ricos ou se chegou o momento de mudar o foco. Crédito: Imagens captadas por Nanny Cox
Quando pensamos em inteligência artificial, frequentemente imaginamos tecnologia, trabalho, produtividade e até substituição da atividade humana. Mas, e se a IA fosse além?
Se debatêssemos desde os recursos naturais utilizados para o desenvolvimento dessa ferramenta até a forma como ela pode, sozinha, reprogramar até mesmo as nossas memórias? Isso é o que propõe o Sesc 24 de Maio com a exposição O Mundo Através da IA.
Com oito seções e cerca de 70 obras, a visita conta com peças de 29 artistas de 15 países diferentes.

Mais do que um simples passeio pelas formas como a IA se impregnou na experiência humana, a exposição trata sobre arte, memórias, desigualdades sociais, lixo eletrônico e preconceitos que, assim como os saberes humanos, também acabam sendo absorvidos pelas plataformas.
A exposição foi idealizada pelo centro de arte parisiense Jeu de Paume, com curadoria de Antonio Somaini. Antes de chegar ao Brasil, passou também por Frankfurt e, assim como a cidade alemã, que apresentou peças exclusivas que conversavam com a realidade do local, os paulistas poderão contar com obras próprias para São Paulo, como as cápsulas que tratam sobre eugenia. Em cartaz no Sesc 24 de Maio, a exposição gratuita ficará aberta até o dia 29 de novembro.
Passeio pelas obras
Um dos pontos mais interessantes da exposição é a obra “Calculando Impérios: uma Genealogia da Tecnologia e do Poder desde 1500”, de Kate Crawford e Vladan Joler.
O quadro propõe uma linha do tempo mostrando o caminho de evolução das tecnologias e de como elas se relacionam com as diferentes formas de dominação humana e extração de recursos minerais.
Ele evidencia como as formas de dominação se atualizam com o desenvolvimento científico e material.

No quadro, tudo pode ser enxergado como tecnologia. Desde o celular, por onde você deve estar lendo essa matéria, até mesmo as armações dos óculos.
Outro destaque é a seção em que fala da relação do meio ambiente com a tecnologia e de como a inteligência artificial tem conseguido corromper essa natureza.
Já na primeira sala, Culturas Degenerativas: Impacto Ambiental da Inteligência Artificial, de Cesar & Lois, microorganismos se alimentam de um livro de Kant que fala sobre o limite dos conhecimentos humanos.
A obra é uma metáfora à forma como a inteligência artificial age: enquanto os humanos desejam controlar a natureza por meio da tecnologia, os algoritmos incorporam seus comportamentos, gerando um processo contínuo de corrosão e transformação.
Já na sala seguinte, Giselle Beiguelman apresenta Botannica Tirannica, obra em que a artista leva à exposição diversas espécies de plantas que, em seus nomes, carregam preconceitos, por vezes, milenares. A peça ilustra como a própria ciência também ajudou a legitimar e replicar a lógica da dominação humana, que atualmente tem sido absorvida pela inteligência artificial.

A visita expõe ainda a precarização do trabalho dos profissionais que atuam alimentando esses bancos de dados; o lixo eletrônico produzido ao redor do mundo e quem são os principais afetados por ele; e discute como, apesar de treinada, a máquina ainda não é capaz de substituir a percepção humana.
Porém, a exposição também mostra o lado belo da inteligência.
Expõe como é possível fazer arte através de um prompt; como nomes que nunca tiveram rostos durante toda a história podem ganhar forma, mas não cara; como o olhar humano ainda é indispensável; como a tecnologia é capaz de gerar conexões; e como, através de alguns comandos, é possível dar visibilidade a um afeto que por anos foi apagado das fotos, do imaginário, da possibilidade de existir, como propõe a brasileira Mayara Ferrão em seu Álbum de Desesquecimentos ao levar à mostra imagens de relações sáficas no cangaço.




