Exposição na Pinacoteca desafia olhar para Ismael Nery além das ‘armadilhas’

Mostra que ocupa sete salas da Pina Luz reúne 230 obras e propõe leituras sobre o artista, do essencialismo à relação com o modernismo brasileiro

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Foto do autor Thaís Ferraz

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Ele é cofundador da School of Life e coautor do livro 'A Arte como Terapia'. Crédito: TV Estadão

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Consagrado como um “pintor maldito”, Ismael Nery (1900-1934) foi frequentemente retratado às margens do modernismo brasileiro. Suas obras, produzidas ao longo de menos de duas décadas, não traziam elementos comuns à arte de contemporâneos como Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade: Nery era majoritariamente movido por temas universais, interpretados a partir de uma mística única, intrigante, que moldou sua vida e arte, construindo um conjunto que desafia quem o vê.

É esse desafio que guia a exposição Ismael Nery: armadilha moderna, inaugurada no sábado, 5, na Pinacoteca de São Paulo. Com curadoria de Yuri Quevedo, a mostra ocupa sete salas do edifício Pina Luz. O título se inspira em uma percepção de André Breton sobre a primeira exposição de Salvador Dalí em Paris, em 1929: a pintura de Dalí seria uma armadilha que seduz o olhar para depois desestruturar a percepção da realidade; a de Nery, segundo Quevedo, inverte o mecanismo, projetando uma realidade nova, baseada no essencialismo, doutrina que criou, mas não escreveu.

'Autorretrato com gola russa' (1925), de Ismael Nery Foto: Jaime Acioli/ Divulgação

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Nascido em Belém, em família fincada na fé católica, Nery teve uma vida marcada por perdas. O pai, médico e também chamado Ismael, morreu em 1910, quando o artista tinha nove anos; o irmão, João, morreu nove anos depois, vítima de gripe espanhola. A mãe, Marietta, passou a vestir-se como freira, autoproclamada “Irmã Verônica”, misturando fervor católico a práticas espíritas, num comportamento por vezes descrito como loucura. “Ela me criou e ela me destruiu”, teria dito Nery.

O misticismo permeou sua vida. Nery morreu de tuberculose aos 33 anos, a idade de Cristo, e anos antes, previu a própria morte – como Cristo. Segundo biógrafos, tentou, sem sucesso, coincidir a despedida com a Sexta-feira da Paixão, e pediu para ser enterrado com hábito franciscano. Antes de morrer, pediu ao poeta Murilo Mendes que destruísse sua obra. No velório, Mendes viveu um êxtase religioso que resultou em conversão quase imediata.

A mística que permeou sua vida também se refletiu em sua obra. “O essencialismo de Nery era uma mistura de catolicismo místico, ‘encarnado’, com um debate intelectual acerca de Nietzsche”, explica Quevedo. “Ele via, nesse pessimismo e nesse catolicismo, uma forma de chegar ao essencial: à verdadeira essência, ser à imagem e semelhança de Deus.”

Busca pela forma essencial

O essencialismo de Nery era um sistema filosófico baseado na abstração do tempo e do espaço: uma busca pela unidade primordial, com entendimento de que todo ser humano continha o divino em potência. “O tempo e o espaço corrompem os corpos, os tornam destrutíveis. É a partir da abstração dos dois que Nery procura essa forma essencial”, explica Quevedo.

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Nery não escreveu o essencialismo; preferiu pintá-lo. Ele aparecia nos corpos dilacerados, nas vísceras expostas, na desarticulação do corpo. “A demonstração de como é possível abstrair tempo e espaço aparece de forma figurativa, narrativa, a partir do corpo corrompido; ao mesmo tempo, aparecem essas formas de corpo abstratas, ameboides, de onde brotam plantas, e vemos esse corpo se transformando, das vísceras a uma forma total, que não tem gênero, não tem espaço, não tem tempo”, diz Quevedo.

Ismael Nery pintou o essencialismo por meio dos corpos dilacerados, nas vísceras expostas, na desarticulação do corpo Foto: Pinacoteca/ Divulgação

O essencialismo está também na técnica, conta Quevedo. Em algumas obras, Nery recorre ao claro-escuro do Renascimento para tornar o corpo humano, real, pulsante; depois, esvazia a figura, espelhada, e a reduz a um puro contorno: um pictograma, uma silhueta. “Essa passagem é sofisticada. O essencial é um homem simbólico, no sentido filosófico e no técnico. Um homem que é apenas um desenho”, diz Quevedo.

Não raro, Nery mistura traços femininos e masculinos, inclusive em seus autorretratos, tornando a androginia, de certa forma uma representação da unidade primordial e do corpo essencial, um elemento marcante da sua obra. É tentador ler essa androginia sob a ótica de gênero atual, mas Quevedo pondera que há limites. “O interessante é que Nery faz do corpo um laboratório. Tudo o que propõe para o surrealismo e o essencialismo, testemunha em si mesmo. Em Nery, o próprio corpo é o experimento”, diz.

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Ismael Nery mistura traços femininos e masculinos, inclusive em seus autorretratos, tornando a androginia, de certa forma uma representação da unidade primordial e do corpo essencial, um elemento marcante da sua obra. Foto: Pinaoteca/ Divulgação

A mostra reúne autorretratos, núcleo importante de sua obra, em que Nery se desdobra em personas diferentes. Há o Autorretrato de 1927 (ou Rio/Paris), uma de suas obras mais emblemáticas, em que aparece sentado numa cadeira flutuante entre a Torre Eiffel e o Pão de Açúcar, com perfis refletidos nas duas paisagens. Há também Dois Irmãos (1927), em que seu rosto aparece ao lado do de sua mulher, Adalgisa, com os mesmos traços, e Autorretrato Satânico (1925​).

Armadilhas de compreensão

Com 230 obras, a exposição evita dividir a produção de Nery em fases rígidas. A organização é temática e perpassa os primeiros desenhos, feitos para uma revista infantojuvenil, projetos de arquitetura, autorretratos, cenas de ateliê e da vida urbana carioca dos anos 1920. As últimas salas são dedicadas ao essencialismo e aos últimos desenhos de Nery.

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Quevedo explica que a exposição reúne três armadilhas comuns quando se fala de Nery: enquadrá-lo como artista que reproduz referências do surrealismo e do cubismo; achar que essas referências bastam para explicar sua obra; e esquecer que, por trás do surrealista, há também um pintor modernista atento à vida cotidiana do Rio de Janeiro.

Aluno livre da Escola Nacional de Belas Artes, com passagens pela Académie Julian, em Paris, Nery teve influências que iam de renascentistas como Tiziano e da Vinci a cubistas como Picasso. Alguns críticos identificam três fases em sua obra: Expressionista (1922-1923), Cubista (1924-1927) e Surrealista (1927-1934). “Mas Nery não produz à maneira dos cubistas nem dos surrealistas: dava um significado muito próprio a essas referências”, diz Quevedo.

'Autorretrato de 1927' (ou Rio/Paris), uma das obras mais emblemáticas de Ismael Nery, em que aparece sentado numa cadeira flutuante entre a Torre Eiffel e o Pão de Açúcar, com perfis refletidos nas duas paisagens. Foto: pinacoteca/ Divulgação

A segunda sala, voltada ao contato de Nery com o cubismo, na França, é um bom exemplo disso. “Ele adere a essa geometrização, mas transforma o corpo das pessoas em peças que se encaixam. É o início da ideia de que corpos e identidades podem se fundir. Enquanto o cubismo francês quebra a perspectiva de forma objetiva, o de Nery é subjetivo: ele funde identidades”, diz Quevedo.

Nery também não produzia à maneira dos modernistas. Enquanto seus contemporâneos construíam a modernidade nacional a partir do Brasil típico ou da natureza autóctone, ele preferia retratar o País com olhar moderno, atento aos costumes do Rio de Janeiro dos anos 1920, à praia, aos trajes, ao jeito de morar e de viver, uma cidade vista não como “típica”, mas como moderna, explica Quevedo.

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Parte da imagem do artista marginal, diz o curador, vem de crônicas que Murilo Mendes publicou em 1948, sob o título Recordações de Ismael Nery, no suplemento Letras e Artes, de A Manhã, e n’O Estado de S. Paulo. Os textos consolidaram o amigo como pintor elegante e de ares de gênio maldito, a ponto de Oswald de Andrade responder, ao ser perguntado se gostava de Nery: “Não conheço e não gosto.”

Com a morte precoce de Nery, em 1934, sua produção ficou restrita a coleções privadas e a amigos por décadas, ausente de museus e revisões críticas. O reconhecimento do público só veio em 1965, com a inclusão de suas obras na Sala Especial de Surrealismo e Arte Fantástica da 8ª Bienal de São Paulo.

Ismael Nery: Armadilha Moderna

  • Quando: 5/9 a 31/1. De quarta a segunda-feira, das 10h às 18h
  • Onde: Praça da Luz, 2 – Bom Retiro/Luz
  • Quanto: R$ 15/R$ 30

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