FR12 SAO PAULO - SP - 03/09/2025 - CADERNO 2- EXPOSIÇÃO BIENAL -No dia 6 de setembro, a 36ª Bienal de São Paulo – Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática será inaugurada, com visitação gratuita até dia 11 de janeiro de 2026.Com a abertura da mostra, a Bienal também lança seu programa público, intitulado Conjugações: uma série de debates, encontros, performances e ativações, algumas desenvolvidas em colaboração com instituições culturais de diferentes partes do mundo e apresentadas no Pavilhão da Bienal ao longo dos quatro meses de duração da exposição.
A iniciativa busca explorar como essas instituições, situadas em geografias diferentes, conjugam a noção de humanidade a partir de suas práticas cotidianas. Cada organização convidada realiza um encontro em São Paulo, envolvendo pensadores, artistas, performers e diversos públicos, ativando conexões globais no contexto local..  FOTO: Felipe Rau/Estadão. Foto: Felipe Rau/Estadão
Foto: Felipe Rau/Estadão

Inspirada por Conceição Evaristo, Bienal de São Paulo quer pensar a humanidade como exercício

36ª edição do evento ocupará a Bienal deste sábado, 6, até o dia 11 de janeiro; curadoria buscou artistas diversos, em movimento inspirado pelo das aves migratórias

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Por Amanda Queirós
Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

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De longe já se vê: em uma das faces do Pavilhão da Bienal, um gigantesco painel com fibras naturais toma o lugar do que, até então, era apenas uma parede branca. Extraído de cestas utilizadas no comércio de Gana, o material costumava transportar frutas e legumes. Até janeiro, no entanto, ele passa a embalar um dos principais ícones arquitetônicos da capital paulista.

A criação da artista Theresah Ankomah é o cartão de visita da 36ª Bienal de São Paulo, que abre ao público neste sábado, dia 6. Após receber autorização do Iphan para a intervenção no prédio tombado, a ganesa pôde ocupar a fachada com o entremeado de fibras. Tingidas com pigmentos naturais, elas formam um mosaico cuja perspectiva muda de acordo com o caminhar de quem passa. “Há muito movimento envolvido. Quando olhamos, dá uma sensação de que a obra está viva. É como se o prédio pudesse respirar”, explica a carioca Keyna Eleison, curadora at large desta edição.

Obra da artista ganesa Theresah Ankomah é a primeira que o público vai ver na edição 2025 da Bienal de São Paulo Foto: Felipe Rau/Estadão

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A vitalidade evocada pelo trabalho de Theresah sintetiza, de certa forma, o tema da vez. Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática foi o título escolhido pelo camaronês Bonaventure Ndikung, curador geral da Bienal, a partir de versos da escritora Conceição Evaristo. A inspiração poética se desdobrou em uma reflexão sobre a importância de retomar o conceito de humanidade não como algo já dado, mas como um exercício permanente.

“Não estamos buscando a ideia europeia e filosófica de humanidade. Nós a abordamos como um verbo a ser conjugado, ou seja, é preciso articulá-la com outras palavras para ela fazer sentido”, diz Keyna. “Por isso falamos também de humanidades no plural, para evidenciar que não existe apenas um tipo de verdade ou apenas um jeito de criar arte.”

Na perspectiva da cocuradora suíça Anna Roberta Goetz, essa pluralidade é o que torna esta Bienal profundamente política. “Não damos fatos ou apontamos dedos. Ela é política no sentido de afirmar que não existe uma única verdade. Todos os convidados têm jeitos diferentes de estabelecer sentidos com o que os rodeia”, afirma.

120 artistas têm suas obras expostas na 36ª Bienal de São Paulo; mais da metade deles é inédito no Brasil Foto: Felipe Rau/Estadão

A busca pelos artistas da Bienal de São Paulo

A busca por artistas capazes de responder a essa demanda envolveu duas estratégias. A primeira, mais prática, foi a realização de um ciclo de quatro encontros em Marrakesh, Guadalupe, Zanzibar e Tóquio, com um mergulho nas culturas e práticas artísticas desses locais. A segunda, mais poética, instigou cada curador a se inspirar em um pássaro migrante e pesquisar nomes baseados em locais pelos quais as aves passam durante sua rota de viagem.

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Essas trajetórias atravessam diferentes países, afastando recortes focados em nações específicas. É sintomático, portanto, ver a Bienal abrigar um número considerável de artistas nascidos em um lugar, mas baseados em outro. Um deles é Antonio Társis, baiano radicado em Londres, responsável por uma instalação de grandes proporções que ocupa o terceiro andar do pavilhão.

Nem todo viandante

anda estradas,

há mundos submersos,

que só o silêncio da poesia penetra.

Da Calma e do Silêncio, de Conceição Evaristo

Ao olhar para a lista dos 120 escolhidos, representados em sua grande maioria por mais de um trabalho, é possível identificar também um forte intercâmbio geracional, com destaque para a presença de grupos nascidos nos anos 1970 e 1990. Mais da metade deles é inédito no Brasil, a exemplo do pintor britânico Frank Bowling e do fotógrafo argelino Hamid Zénati. “Muitos amigos questionaram a existência de nomes dos quais nunca tinham ouvido falar. Mas eles são artistas muito conhecidos nos lugares em que atuam. Podemos questionar justamente o que se entende por conhecido”, afirma Keyna.

Cerca de 50% das obras a serem apresentadas foram comissionadas e produzidas em diálogo com os curadores. Mas nem só de novidade é feita esta Bienal. O carioca Heitor dos Prazeres (1898-1966), premiado na primeira edição e presente em muitas outras depois, é um dos que volta a ter as obras expostas. “Nos questionamos se fazia sentido tê-lo novamente, mas sua prática como músico, poeta e pintor, abraçando o amor e a vida a sua arte, é muito representativa do que nós queríamos mostrar”, pondera Anna.

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O pavilhão como estuário

A intensa diversidade dos nomes escolhidos levou Bonaventure Ndikung a sugerir outra metáfora baseada na natureza. No caso, o Pavilhão foi idealizado como um estuário onde as águas dos rios desembocam. “Não penso nele como algo fluido, mas como um caos, muito forte, cheio de possibilidades de gerar vida”, explica Keyna.

Na edição deste ano da Bienal, destacam-se as obras que atravessam o pavilhão, uma opção da curadoria para valorizar a arquitetura de Oscar Niemeyer Foto: Felipe Rau/Estadão

O estuário foi materializado pelo projeto expositivo de Gisele de Paula e Tiago Guimarães na forma de cortinas instaladas de forma sinuosa pelo espaço. Elas sugerem não apenas percursos a serem traçados pelos visitantes, mas uma ordenação capaz de evitar a intervenção visual provocada pela instalação de paredes. Tudo isso responde a um desejo da curadoria de organizar os projetos como se fossem capítulos – sendo que cada artista não necessariamente está encerrado em apenas um deles.

“Não queríamos brigar com a arquitetura, mas sim ter uma perspectiva de permeabilidade pelo espaço”, pontua Anna. Para valorizar a arquitetura de Oscar Niemeyer, o time explorou o pé-direito ao máximo. Algumas obras atravessam andares, como uma instalação da brasileira Ana Raylander, uma pintura do camaronês Tanka Fonta na coluna central da rampa e três telas da nigeriana Otobong Nkanga, dispostas na mesma parede em pisos diferentes do pavilhão. “O prédio nos pedia isso e amamos pensar em uma exposição para ser vista verticalmente”, diz Keyna.

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Obras em realidade aumentada e além do Parque do Ibirapuera

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Para além da disposição das obras na Bienal, é possível falar ainda do que será visto fora dela. Por meio de um projeto de realidade aumentada batizado como Aparições, os visitantes poderão conferir pelo celular algumas obras espalhadas virtualmente pelo parque Ibirapuera. Como sugere Anna, a tecnologia espelha a do game Pokémon Go, ou seja, é preciso se deslocar apontando a câmera do celular pelo espaço para que as obras surjam na tela. Um diferencial é o fato do app apresentar obras em outras partes do mundo, como cidades na África e na Ásia.

“Andrew Roberts é um artista mexicano, de Tijuana, e o trabalho dele fala muito sobre os conflitos na fronteira México e Estados Unidos. Então ele posicionou sua obra nesse lugar. Se você caminhar por lá com o celular e o app, vai vê-la”, diz Anna.

A iniciativa vai ao encontro do principal objetivo de Andrea Pinheiro, presidente da Fundação Bienal. Primeira mulher a entregar uma edição do evento, ela tem como foco ampliar o acesso e a democratização da arte. Para além das ações digitais, sua principal iniciativa nesse sentido é a expansão do período expositivo, que passou de três para quatro meses, avançando pelas férias escolares. Com isso, espera-se que o programa educativo tenha um crescimento de 30% nos atendimentos, alcançando em torno de cem mil pessoas.

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Todo o esforço de levantar mais uma Bienal tem a ver com a crença na arte como ferramenta para refletir sobre o mundo ao redor. “Acho incrível quando as pessoas visitam uma exposição e se questionam se o que veem é arte. Se aquilo incomoda de algum jeito, o incômodo, por si só, já é arte”, afirma Keyna.

Bienal de São Paulo 2025 em números

  • 120 artistas participantes
  • 504 colaboradores na equipe
  • 100 mil pessoas é a meta a ser alcançada no programa educativo
  • R$ 90 milhões é o orçamento estimado para o biênio

Serviço - 36ª Bienal de São Paulo

  • Parque Ibirapuera, portão 3
  • De 6 de setembro a 11 de janeiro de 2026
  • Grátis

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