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Lula não deve dar guinada para melhor no seu quarto mandato, diz Alexandre Schwartsman

Ex-presidente do BC diz que País precisa de um ‘baita ajuste fiscal’ e que presidente reeleito não tem convicção de que seja necessário ajustar as contas públicas.

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Foto do autor Luiz Guilherme  Gerbelli
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Lula precisará dar forte guinada na economia para evitar que disparada do dólar vire uma recessão

Risco é de que piora financeira force o Banco Central a subir a taxa básica de juros.

Entrevista comAlexandre SchwartsmanEconomista e consultor da Pinnotti & Schwartsman Associados. Foi diretor do BC

Ex-diretor do Banco Central, Alexandre Schwartsman avalia que não deve ocorrer uma “guinada para melhor” no quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo ele, o Brasil precisa de “um baita ajuste fiscal”, o que “requer uma mudança profunda de política econômica”, mas Lula não tem convicção de que seja necessário ajustar as contas públicas.

“Você pode colocar o maior economista do mundo ali, com as credenciais mais impecáveis, mas não resolve o problema, porque o problema não é o ministro da Fazenda. O problema são as condições políticas para fazer o ajuste”, diz Schwartsman, economista e consultor da Pinnotti & Schwartsman Associados.

Ele também afirma que o País deve conviver com um cenário de câmbio e juros mais pressionados e avalia que o Banco Central deve interromper o ciclo de queda da taxa básica de juros já na próxima semana. O Comitê de Política Monetária (Copom) divulga sua decisão sobre a Selic, atualmente em 13,75% ao ano, na quarta-feira, 4 de novembro.

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A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Estadão.

O mercado reagiu muito mal ao resultado da eleição presidencial. Qual leitura você faz do que deve ser o governo Lula 4 na economia? Você acha que haverá uma guinada ou será o mesmo modelo de economia?

Eu acho muito difícil acontecer uma guinada para melhor, por uma série de motivos. O mais simples deles são as convicções do Lula. Olha o que ele fez nos últimos quatro anos. Ele tem essa convicção de que esse é o caminho a ser seguido. Ele tem a ideia de que joga mais dinheiro e a economia cresce. O que tem uma série de problemas, entre eles o fato de que basicamente não tem mais capacidade ociosa. Isso tem um problema de inflação, o Banco Central tem de vir com juro mais alto, mas você tem um problema ainda mais fundamental, que é basicamente ter uma dinâmica fiscal complicadíssima. A gente tem uma trajetória de dívida que, a seguir o que a gente viu nos últimos quatro anos, é insustentável. Precisaria fazer um baita ajuste fiscal. Não é qualquer ajuste fiscal. E um baita ajuste fiscal no Brasil requer uma mudança profunda de política econômica.

Ex-diretor do BC Alexandre Schwartsman diz que Brasil precisa de 'baita ajuste fiscal' Foto: Gabriela Biló/Estadão Conteúdo

Quais medidas são necessárias?

Requer mudar a política de salário mínimo, requer uma nova rodada de reforma da Previdência, requer mudar as regras de acesso ao BPC (Benefício de Prestação Continuada), requer mudar o desenho de programa social, requer acabar com a indexação dos pisos constitucionais de saúde e educação, requer reforma administrativa. São as principais. Requer também acabar com emenda parlamentar, mas isso num contexto de um governo que vai ser mais dependente do Centrão do que já é hoje, por conta do fortalecimento de uma oposição supostamente mais aguerrida. Então, olha para isso: o Lula tem convicção disso? Eu acho que não tem. Parte da história é essa. A outra parte da história é a seguinte: como é que se imagina que a população reage a um programa como esse no ano que vem? O grau de estelionato eleitoral.

Nada foi dito na campanha…

Nada. É basicamente um repeteco do que foi de 2015 a 2016, do Dilma 1 para o Dilma 2. Não vai ter uma guinada. Mas dizem que vai colocar o Rafael Fonteles (governador do Piauí, cotado para ser ministro da Fazenda). Sei lá, você pode colocar o maior economista do mundo ali, com as credenciais mais impecáveis, mas não resolve o problema, porque o problema não é o ministro da Fazenda. O problema são as condições políticas para fazer o ajuste. Pergunta para o Joaquim Levy o que ele achou da experiência dele no governo Dilma. Faltavam formação e entendimento da natureza do problema fiscal para o Joaquim? Não faltava. O que faltou foi apoio. Não pode chegar e fazer uma política de salário mínimo que você estava acusando que seria feita pelo Flávio Bolsonaro.

E quais serão as consequências? Vamos viver com inflação e juros mais altos?

A primeira resposta é no juro longo e no câmbio. Então, tudo bem, o câmbio teve um certo overshooting na segunda-feira, 26. Foi para R$ 5,60 e voltou, mas é um câmbio que vai ficar mais pressionado. A mesma coisa com o juro. Então, isso coloca o Banco Central numa situação muito complicada, porque a desvalorização do câmbio tira um vetor de redução da inflação. Não era uma coisa com que o Banco Central vinha contando. A gente já está falando em uma desvalorização que, na verdade, vai levar a inflação para o outro lado. Vai ser muito difícil o Banco Central continuar cortando o juro. Nada o impede, mas, se ele cortar juro num cenário em que o dólar está fraquejando e a expectativa de inflação vai subindo, ele vai chamar para si um baita de um problema. Eu acho que eles não vão fazer esse tipo de bobagem. Eles provavelmente vão interromper o ciclo.

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Mas isso é juro de curto prazo. Se for olhar o que está acontecendo com o juro de longo prazo, vai ser um Deus nos acuda. A capacidade do governo de tomar dívida a um custo razoável está desaparecendo. Antes disso tudo, você ia ter de colocar papel longo a inflação mais, sei lá, 7%. Mas você vai ter de colocar a inflação mais 8%, 8,5%. A dinâmica de dívida fica muito mais complicada. O tamanho do estrago é muito grande.

O Banco Central já deve interromper o ciclo de corte da Selic na semana que vem?

Pelo andar da carruagem, interrompe.

Trata-se de um cenário que dá para empurrar com a barriga ou essa piora que o sr. descreve pode forçar o governo a tomar alguma medida para não deixar a coisa degringolar tanto?

Eu acho que você pode ser pressionado, mas que medida ele vai tomar? Eu listei as medidas. Você pode tomar essas medidas. É isso que resolve o seu problema. Não é vir com mais um Orçamento fajuto, dizer que agora vai ter superávit primário. Não é assim que funciona. Você tem de ter carne. E ter carne envolve tomar medidas que vão basicamente erodir a base de apoio popular do governo a zero, com um Congresso notoriamente hostil.

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Podemos chegar num cenário parecido com a crise que vivemos no governo Dilma?

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Eu acho que é o principal risco que a gente corre hoje. Na Dilma, foi a pior crise em 40 anos. Não foi um negócio trivial. Em 2015 e 2016, o PIB contraiu 3% em cada ano. Tudo bem, no quarto trimestre de 2016, a economia não estava mais em recessão.

Mas houve uma troca de governo que estancou aquela sangria...

Sim. Eu acho que deu uma segurada na onda. Vieram com o teto de gastos. O próprio Ilan Goldfajn (ex-presidente do BC), em cima disso, encontrou condições para uma redução relativamente rápida de juros. Mas isso é difícil. Quer dizer, às vezes o raio cai duas vezes no mesmo lugar, mas cair quatro vezes...

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