Como ‘Anora’ de repente se tornou favorito ao Oscar? Ou ele sempre foi?

Filme sobre stripper que se casa com filho de oligarca russo era visto como azarão à premiação, até que prêmios dos sindicatos de Hollywood viraram o jogo - lembre a trajetória do longa

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Por Jada Yuan (The Washington Post)

Ninguém podia acreditar no fim de semana que Sean Baker estava vivendo – muito menos o próprio Sean Baker.

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Em uma sexta-feira à noite, 7 de fevereiro, o diretor e seu grupo de colaboradores em Anora ficaram só assistindo a toda a cerimônia do Critics Choice Awards (CCA), em Los Angeles, onde perderam cinco prêmios seguidos. Até que Sacha Baron Cohen abriu o envelope e anunciou que eles tinham ganhado o prêmio de melhor filme.

“Oh, meu Deus!”, exclamou um Baker chocado, antes de fazer um discurso tocante, com a voz trêmula de emoção.

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No sábado à noite, ele se viu mais uma vez no palco do Directors Guild Awards (DGA), onde foi brindado por sua estrela, Mikey Madison, e pelo vencedor do prêmio de melhor diretor do ano passado, Christopher Nolan. Aí ele cruzou a cidade correndo até o Producers Guild Awards (PGA) - inexplicavelmente realizado na mesma noite - e chegou bem a tempo de ganhar o prêmio de melhor filme.

De repente, o universo dos especialistas em Oscar pegou fogo. O que parecia ser uma corrida aberta agora parecia quase definida.

Ganhar o PGA, o DGA e o CCA é um feito e tanto, especialmente para um filme que Baker diz ter custado US$ 6 milhões – o menor orçamento da história entre os concorrentes a melhor filme no Oscar. Apenas três longas conquistaram todos os três e perderam o prêmio principal (La La Land, Brokeback Mountain e O Resgate do Soldado Ryan).

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Mark Eydelshteyn e Mikey Madison em cena de 'Anora' Foto: Universal Pictures/Divulgação

O PGA, em particular, também é um dos principais prognósticos para o Oscar, pois ambos usam o método do voto preferencial: 12 dos últimos 15 vencedores do PGA também ganharam o prêmio de melhor filme. Desde 2000, apenas três vencedores do DGA que também foram indicados ao Oscar não conseguiram levar a estatueta de melhor diretor.

A votação final para o Oscar terminou na terça-feira, 18, com apenas os prêmios Writers Guild of America e BAFTA ocorrendo antes do encerramento da votação. Com seis indicações ao Oscar em categorias que se esperava que fossem competitivas, de repente Anora parece ser o candidato mais forte na disputa de 2 de março.

O filme também tem sido um sucesso no circuito alternativo: sua estreia em outubro teve a maior média por tela de um filme de lançamento limitado em 2024 e, até agora, faturou US$ 36 milhões no mundo todo – em boa medida, devido ao boca-a-boca de que a comédia vérité é instigante e divertida. Anora conta a história da Ani de Madison, uma jovem e desbocada stripper em Brighton Beach que de repente se casa com o filho de um oligarca russo (Mark Eydelshteyn) – mas vê seus sonhos desmoronarem quando os pais dele mandam um bando de capangas para separá-los.

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E, ainda assim, de algum jeito, mesmo depois de ganhar a Palma de Ouro em Cannes e receber críticas positivas, o filme não ganhou nada no Globo de Ouro, com Emilia Pérez e O Brutalista levando as honras principais. Os críticos ignoraram o filme e a atuação arrebatadora de Madison. Então, como esse filme pequeno e independente sobre uma jovem profissional do sexo teve um ressurgimento tão inesperado? Abaixo, algumas teorias.

Sempre foi um sério candidato

O segredinho da maioria dos prêmios que vêm antes do Oscar é que eles são decididos, em grande parte, por pessoas que não são membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Esses críticos tendem a destacar filmes e atuações que eles esperam que recebam mais atenção, como Marianne Jean-Baptiste, em Hard Truths, e Carol Kane, em Entre os Templos (ambas não foram indicadas ao Oscar). O Globo de Ouro é decidido por cerca de 300 jornalistas de entretenimento internacionais. A Academia, por outro lado, tem 9.905 membros votantes, todos da indústria cinematográfica.

Os especialistas em prêmios das revistas especializadas também tendem a ter gostos mais convencionais do que a Academia, que premiou Moonlight em vez de La La Land como melhor filme, em 2017, e O Menino e a Garça, de Hayao Miyazaki, em vez de Homem-Aranha: Através do Aranhaverso como longa-metragem de animação, no ano passado. Até recentemente, Scott Feinberg, do Hollywood Reporter, tinha no topo da lista para Oscar de roteiro original Setembro 5, thriller jornalístico sobre o ataque terrorista de 1972 nas Olimpíadas de Munique. Clayton Davis, da Variety, estava otimista com Um Completo Desconhecido e Wicked.

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O “ressurgimento” pode não ter sido bem um ressurgimento, mas sim uma afirmação. Talvez seja mais instrutivo olhar para cerimônias de premiação como PGA, DGA, SAG e BAFTA não como preditores, mas como indicadores de favoritismo, enquanto todos os analistas são apostadores fazendo apostas malucas e meio às escuras. “Na verdade, o que aconteceu com Anora provavelmente é menos uma reviravolta e mais uma simples questão de os observadores saberem mais sobre os interesses dos eleitores do Oscar”, escreveu Steve Pond, do The Wrap. Como disse David Canfield, da Vanity Fair, “do meu ponto de vista, ele sempre esteve na frente, escondido bem na vista de todo mundo.”

A Neon é simplesmente muito boa no que faz

Em 2019, a produtora e distribuidora Neon comprou o thriller social coreano Parasita, de Bong Joon-ho, em Cannes, e o levou até o Oscar de melhor diretor e melhor filme. Numa época em que Shogun está sempre arrebatando prêmios de TV, é difícil lembrar que Parasita foi o primeiro filme em língua não inglesa a ganhar o prêmio principal. Foi um tiro no escuro, dado o histórico eurocêntrico da Academia, sem falar que foi um sucesso absoluto de bilheteria. Este filme é a razão pela qual todos nós superamos “a barreira de um centímetro de altura das legendas”, como disse Bong.

Desde então, a Neon fez questão de se tornar a distribuidora americana dos vencedores da Palma de Ouro, entre eles Triângulo da Tristeza e Anatomia de Uma Queda, ambos indicados ao Oscar. Com isso, a empresa associou sua marca à qualidade internacional: se a Neon pegou o filme, você sabe que ele é bom. A empresa também se manteve verdadeiramente pequena e independente. Ela se concentra em um, talvez dois, concorrentes ao Oscar por ano e lhes dá longas janelas de exibição nos cinemas. Fez diferença tratar a experiência da sala de cinema como algo sagrado e ficar um bom tempo exibindo Anora para os membros da Academia. Além disso, entre os novos votantes internacionais da Academia, um selo de aprovação de Cannes – como Anora e Emilia Pérez têm este ano, e Anatomia de Uma Queda e Zona de Interesse tiveram no ano passado – é um grande negócio, e pode vir a ser o preditor que mais importa.

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Uma reação contra grandes estúdios e streamers

O grande fim de semana para Anora veio na esteira da implosão da campanha de Emilia Pérez, depois que vieram à tona tweets racistas e islamofóbicos da estrela do filme, Karla Sofía Gascón. Será que Emilia Pérez, o filme mais indicado do ano, com 13 indicações, caiu para que Anora pudesse subir? É fácil traçar paralelos, uma vez que ambos os filmes se fundamentam no trabalho de uma atriz relativamente desconhecida. Mas não, não é tão linear assim. A votação para o CCA e o PGA ocorreu antes do escândalo de Gascón, assim como três das quatro semanas de votação do DGA. Isso significa que os veteranos do setor votaram em Anora antes mesmo de saberem do desastre de Emilia Pérez – e depois de Anora perder no Globo de Ouro.

'Anora' está indicado a 6 categorias no Oscar. Foto: Neon/Divulgação via Mostra Internacional de Cinema de Sao Paulo

Ou talvez o setor só não queira recompensar a Netflix: Roma, Ataque dos Cães, Nada de Novo no Front e Maestro perderam o prêmio de melhor filme. Os especialistas em cinema tendem a rejeitar as práticas comerciais da Netflix, como jogar tanto dinheiro nos cineastas que os distribuidores independentes não conseguem competir, ou só exibir filmes nos cinemas pelo número mínimo de dias para se qualificar para o Oscar antes de disponibilizá-los para o algoritmo.

Votar em Anora é, em essência, votar em filmes que são feitos por seres humanos, com propriedade intelectual original e exibidos com reverência nas salas de cinema. Os grandes estúdios também são culpados pela erosão da experiência de ir ao cinema. Wicked foi a cartaz apenas 40 dias antes de ser disponibilizado para streaming. Conclave esperou dois meses. A A24 vem segurando a linha, mas O Brutalista, que a empresa comprou em Veneza, já chegou ao streaming nos Estados Unidos, menos de dois meses depois de seu lançamento limitado nos cinemas americanos. A A24 ainda é referência para filmes ousados e de qualidade, mas também está começando a virar uma gigante, principalmente depois das muitas vitórias de Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo dois anos atrás. Quando há uma reviravolta no Oscar, o Davi indie quase sempre vence o Golias de estúdio (Moonlight vs. La La Land, ou Spotlight vs. O Regresso e Mad Max: Estrada da Fúria).

Sean Baker, Sean Baker, Sean Baker

Há muito o que se dizer sobre lealdade e ser fiel a quem você é nesse setor de mercenários. Baker é e sempre foi um cineasta ferozmente independente. Ele tinha passado quinze anos fazendo longas-metragens quando estourou com Tangerina (2015), história sobre duas profissionais do sexo trans em West Hollywood, filmado inteiramente com câmeras de iPhone 5S. Seus dois títulos seguintes – Projeto Flórida, sobre uma mãe solo e trabalhadora do sexo que tenta fazer a vida à sombra da Disney World, e Red Rocket, estrelado por Simon Rex como um astro pornô em decadência – foram aclamados pela crítica, mas ignorados pela Academia. Mesmo assim, Baker continuou fazendo o que faz, com uma pequena família de colaboradores que conta com sua mulher, Samantha Quan, e o ex-assistente Alex Coco como produtores, e o ator armênio Karren Karagulian como um elemento fixo em todos os seus filmes – hilário em Anora como um padre que também trabalha como executor de oligarcas russos.

Sean Baker (ao centro) com Alex Coco, Karren Karagulian, Vache Tovmasyan, Mikey Madison e Samantha Quan no Film Independent Spirit Awards em 22 de fevereiro. Foto: Chris Pizzello/Invision/AP

Baker também faz um trabalho artesanal em todos os aspectos de seus filmes e filma em 35 mm. Na noite do Oscar, ele pode se juntar a uma elite de cineastas que ganharam a estatueta em quatro categorias na mesma noite: filme, diretor, roteiro original e edição. Entre seus colegas indicados ao prêmio de melhor diretor, ele é menos escandaloso do que Jacques Audiard, de Emilia Pérez, menos comercial do que James Mangold, de Um Completo Desconhecido, e mais experiente do que Brady Corbet, de O Brutalista, e Coralie Fargeat, de A Substância. É difícil acreditar que o cara tenha 53 anos, mas ele passou mais de duas décadas trabalhando em filmes pequenos e conquistando amigos e respeito ao longo do caminho.

Todo mundo adora um azarão

O Oscar é famoso por sua presunção, mas é importante lembrar que, no final das contas, os votantes da Academia são apenas cinéfilos. Eles votam no que os emocionou, no que os fez rir e no que os fez chorar. “O filme é, na superfície, uma comédia e, em última análise, uma história de amor, mas não do jeito que você está pensando”, escreve Ty Burr em sua crítica de Anora para o Washington Post, “mas tem muito esforço e tristeza sob camadas de brilho e fuligem”.

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Os distribuidores tendem a guardar seus filmes de prestígio para os festivais de cinema de outono e a estreá-los no final do ano, mas essa sabedoria convencional pode estar caindo por terra. Um filme pequeno como o de Baker, que estreou em Cannes em maio e nos cinemas em setembro, se beneficiou com os espectadores tendo tempo para assisti-lo várias vezes, trazer os amigos e tê-lo na cabeça enquanto assistiam aos outros grandes filmes do ano.

Pond, do The Wrap, escreveu que até mesmo os diretores que perderam no Critics Choice Award pareciam “encantados” com a vitória de Baker. “Se eles tinham de perder, que fosse para Anora”, acrescentou Pond. Mesmo quem não gosta do filme, pelo menos o respeita. Embora não seja político, o longa aborda temas pungentes sobre a exploração de profissionais do sexo e de pessoas que estão na base da desigualdade econômica. Como Katey Rich escreveu no Ankler, “Anora não é o maior sucesso de bilheteria da temporada, mas como uma história de sucesso independente numa época que precisa desesperadamente delas, pode ter exatamente a mensagem certa para o momento”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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