Gerando resumo
“Mas o que tanto ela sonhava enquanto contemplava a vitrine da Hatchards?”, questiona Virginia Woolf sobre sua protagonista no clássico Mrs. Dalloway, de 1925. Clarissa Dalloway certamente se encontrava na Piccadilly, uma das ruas mais icônicas de Londres, e observava a livraria que, já na época da publicação do livro, era uma instituição centenária.
Cem anos depois, a loja continua lá: um prédio de arquitetura neoclássica, com uma charmosa fachada em tons de verde escuro, exibindo os lançamentos do momento e placas com os eventos da semana. Mas talvez o que mais chame a atenção sejam as duas bandeiras do Reino Unido e o brasão da família real britânica, orgulhosamente expostos acima do letreiro da livraria.

A Hatchards foi fundada em 1797, fica localizada em Piccadilly desde 1801 e é considerada a livraria mais antiga da Inglaterra ainda em funcionamento. A longevidade não é o único motivo de orgulho: há mais de dois séculos, ela é a livraria oficial da realeza inglesa. Até os dias de hoje, entrega livros diretamente para membros da família real.
O Estadão visitou o estabelecimento em uma quarta-feira ensolarada no final de abril, em um dia em que a livraria parecia receber mais locais do que turistas. A primeira surpresa ocorre logo na entrada: a impressão vendo de fora é que a loja ocupa apenas o espaço térreo do prédio, mas na realidade são cinco andares repletos de livros.
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A história da Hatchards
Nem sempre foi assim. A Hatchards começou como uma loja simples após sua fundação pelo livreiro e editor John Hatchard (1769–1849), que trabalhou com outros livreiros por anos antes de abrir seu próprio estabelecimento aos 29 anos. Naquela época, era comum que as livrarias também funcionassem como editoras, e Hatchard ganhou sucesso ao publicar Reform or Ruin! [Reforma ou Ruína], um panfleto político que pedia mudanças no Reino Unido com forte influência dos ideais da Revolução Francesa.
O êxito comercial da livraria logo atraiu clientes de alto perfil, de políticos a filósofos e cientistas. Em seu site, a Hatchards destaca que William Wilberforce, líder do movimento abolicionista no Reino Unido, era cliente assíduo da loja e publicou muitos manifestos por meio do selo que a livraria mantinha.
A partir daí, não demorou muito para que a Rainha Charlotte (1744–1818) - ou Carlota, como também é conhecida no Brasil - também se tornasse cliente, iniciando a longa relação da Hatchards com a realeza. Ela foi rainha de 1761, quando se casou com o rei Jorge III, até sua morte.

O relacionamento da loja com a Coroa é ostentado em diversos locais da livraria. No andar térreo, há uma mesa dedicada a apenas livros sobre a família real. Pelas paredes da loja, há diversos documentos que registram a livraria como vendedora oficial da realeza e até mesmo os souvenirs - ecobags, marcadores de página, etc. - denominam a Hatchards como “livreiros de suas majestades, o Rei e a Rainha”.
O local também virou ponto de encontro de escritores e intelectuais. A Hatchards cita “Walter Scott a Lord Byron e, possivelmente, até mesmo Jane Austen”, mas destaca mesmo o escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900), autor de O Retrato de Dorian Gray, que aparece em ao menos dois retratos dentro da livraria.
“Oscar Wilde era um visitante frequente da Hatchards. Nosso ‘leitor’ na época, Mr. Monkshood, é uma das únicas pessoas a ter lido um dos trabalhos perdidos de Wilde, A Mulher Coberta de Joias”, diz um quadro ao lado da janela do segundo andar. A citação de Virginia Woolf também está enquadrada, exibida próxima a uma frase do próprio John Hatchard, no andar térreo.

Após a morte do fundador em 1849, aos 80 anos, a Hatchards passou por diversas gerências. Um dos mais notáveis foi o autor e editor Arthur L. Humphrey (1865–1946), que ajudou a popularizar a livraria entre escritores proeminentes. A loja permaneceu aberta durante as duas guerras mundiais - até hoje, o único período em que ela fechou as portas foi durante a pandemia de covid-19; mesmo assim, a loja seguiu funcionando online, entregando livros aos clientes.
Em 1990, a Hatchards foi adquirida pela rede de livrarias Pentos. No final da década, a Waterstones, maior rede de livrarias do Reino Unido atualmente, adquiriu a empresa. Hoje, a Hatchards também tem outras duas unidades em Londres, na estação de trem St. Pancras e no bairro de Cheltenham, abertas em 2014 e 2022, respectivamente.
Por dentro da livraria
Tendo em vista que hoje a Hatchards pertence ao grupo Waterstones - que inclusive mantém uma loja enorme a uma quadra de distância -, era de se imaginar que a livraria seria mais modesta. Mas o tamanho realmente impressiona. Há um andar subterrâneo, o porão, dedicado a biografias, teoria literária, negócios, esportes, filosofia, entre outros temas.

O andar principal acomoda as novidades do momento, separadas entre ficção e não ficção. Há uma grande quantidade de livros autografados pelos autores, distribuídos por mesas e prateleiras. A arquitetura no interior da loja é uma mistura de moderno e clássico, com estantes pretas imponentes que remetem ao período da fundação.
O térreo também abriga uma infinidade de livros de história. Em uma prateleira dedicada à história latino-americana, a reportagem do Estadão encontrou traduções de alguns livros brasileiros: Brasil: Uma Biografia, de Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling, e Baviera Tropical, de Betina Anton, por exemplo.
A escada em direção ao primeiro andar exibe um retrato de John Hatchard e alguns documentos históricos. Ali, encontramos ficção, clássicos, romance policial, drama, poesia, ficção científica e fantasia e literatura jovem. Todas as prateleiras são organizadas em ordem alfabética pelo sobrenome do autor - hoje, em algumas livrarias menores, é comum ver livros agrupados mais por afinidades temáticas.
Entre as prateleiras, mesas acumulam livros e exibem citações de escritores renomados. “As pessoas estão presas na história e a história está presa nelas”, diz frase atribuída a James Baldwin. “A fantasia é escapista e isso é a sua glória”, diz outra, atribuída a J. R. R. Tolkien, próxima à seção dedicada à literatura fantástica.

O segundo andar é majoritariamente dedicado a livros infantis e também tem uma coleção de obras sobre arte, jardinagem, saúde, gastronomia e parentalidade. Já o terceiro e último andar tem livros de design, moda, fotografia, arquitetura e fotografia, além de antiguidade e itens colecionáveis.
É também ali onde fica a seção de livros raros. A Hatchards preserva e vende uma coleção de edições antigas ou especiais, mantidas em móveis trancados e sob a observação de um funcionário. A título de exemplo, uma edição especial ilustrada de 1894 de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, custa £5,250, cerca de R$ 35 mil.
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