Coluna quinzenal do jornalista e crítico Sérgio Martins com histórias da música

Coluna quinzenal do jornalista e crítico Sérgio Martins com histórias da música

Como Sade Adu, avessa a aparições públicas, tornou-se tendência entre os jovens

Cantora de ‘Smooth Operator’ e ‘Paradise’ agora é hit no TikTok

PUBLICIDADE

Foto do autor Sérgio Martins

Eu tenho muito a aprender com o TikTok. Mas, para a minha sorte, meu enteado de quinze anos mexe na ferramenta com o virtuosismo de um deus da guitarra. Foi por conta do empenho dele (que, em contrapartida, me fez assistir aos shows das três últimas turnês de Beyoncé) que consegui fazer a pesquisa sobre a personagem da coluna de hoje: a cantora Sade Adu.

Uma das popstars absolutas dos anos 1980 e avessa a entrevistas e aparições públicas, Sade virou tendência para jovens que nem sequer eram nascidos em seus tempos de glória. Uma delas é River Brown, influencer inglesa de 22 anos, que criou a conta @sadeaduwife. A página tem mais de 370.000 seguidores e sete milhões de likes de pessoas que assistem a vídeos, trechos de shows e – raras – falas da sua musa. Outras contas trazem um tutorial de como reproduzir o seu visual mais marcante – os cabelos puxados para trás, a maquiagem discreta, a boca decorada por um batom vermelho sangue, brincos de argola e blusas e vestidos de gola alta.

O séquito de Sade Adu vai além do exército de influencers. O rapper Drake, por exemplo, tem uma tatuagem com o rosto da cantora e uma escultura de quase três metros que reproduz a pose de um de seus discos – Love Deluxe, de 1992. Ele é um dos muitos astros do hip hop que usam trechos das canções da nigeriana em suas criações. No universo do jazz moderno, o pianista Robert Glasper recriou o sucesso Cherish the Day, em Black Radio, seu disco de 2012. E mesmo no pop atual, onde muitas vezes as batidas se sobressaem às melodias, existem intérpretes que trazem o DNA de Sade em suas interpretações. Olivia Dean, a popstar do momento, Cleo Sol (do coletivo SAULT) e Naomi Sharon são influenciadas pela popstar.

Sade Adu também possui admiradores no hip hop e pop brasileiros. O quarteto Racionais MC’s utilizou um trecho da canção Pearls (o momento icônico que ela grita “Aleluia”) em Capítulo 4, Versículo 3, presente em Sobrevivendo no Inferno, de 1997; a vocalista Thalma de Freitas fez uma versão dance de Paradise, canção do disco Stronger than Pride, de 1988 e outra musicista, Luedji Luna, criou um show tributo à sua musa pop.

Quem é Sade Adu?

PUBLICIDADE

Helen Folasade Adu, 67 anos completados em janeiro, nasceu na cidade nigeriana de Ibadã. Filha de um professor universitário africano e de uma enfermeira inglesa, ela passou boa parte da infância e adolescência na zona rural da Inglaterra, para onde se mudou com a mãe depois do divórcio dos pais. Estudou moda na Saint Martin’s School of Art, de Londres. Ali desenvolveu muito de sua estética visual.

Publicidade

Sade trabalhou uns tempos como modelo. Os primeiros passos mais sérios na arte do canto foram dados como vocalista de apoio numa banda chamada Pride. Foi quando conheceu os futuros integrantes do grupo que levaria o seu nome – o saxofonista e guitarrista Stuart Matthewman, o tecladista Andrew Hale e o baixista Paul S. Denham. A formação, que a acompanha até os dias de hoje, gravou Diamond Life, de 1984, disco que a apresentou para o mundo. O trabalho traz muito da influência do soul americano suave dos anos 1970, ao lado de jazz e bossa nova – a ponto dela ter sido rotulada como artista de new bossa, gênero que despontou na Inglaterra e tinha como pontas-de-lança os grupos Matt Bianco, Everything but the Girl e Style Council. Aliás, o saxofone e a percussão de Smooth Operator, seu primeiro sucesso, trazem uma certa brasilidade.

O “estilo Sade”, por assim dizer, tem em sua maioria canções lentas em contemplativas, boa parte em tom menor (o que as torna mais melancólicas) e letras que refletem sobre amores perdidos e jornadas incertas, cantadas com sua rouca voz de contralto. Esta vertente, no entanto, nem sempre é a regra. It is a Crime, canção de seu segundo trabalho, Promise, de 1985 (e uma das minhas prediletas em seu repertório), traz uma interpretação rasgada, como se a letra, que fala de um amor não correspondido, estivesse impressa em sua própria carne. Outras composições são mais solares e apaixonadas, como Paradise e Nothing Can Come Between Us, ambas de Stronger than Pride, de 1988.

Sade Adu nunca foi dada a aparições. Surgida num período em que a indústria do factoide era utilizada para divulgar um novo single e álbum, ela preferiu viver de modo tranquilo. Sua única traquinagem se deu em 1997, em Montego Bay (Jamaica), quando se recusou a parar para a polícia e fez com que os oficiais a perseguissem pelas ruas da cidade. Depois de Love Deluxe, seus lançamentos foram ficando cada vez mais escassos. Lovers Rock chegou às lojas oito anos depois de Love Deluxe, e Soldier of Love demorou uma década para estar pronto: saiu em fevereiro de 2010. Perguntada por um repórter por onde andou durante todo esse tempo, ela respondeu com ironia. “Me tranquei numa caverna e só agora tive forças para retirar a pedra da entrada.”

Os hiatos em sua carreira normalmente são interrompidos quando ela sente que tem algo a dizer – em geral, sobre causas humanitárias. A canção Mum, de 2005, foi escrita para um projeto em socorro às vítimas do genocídio causado por diferenças étnicas em Darfur, no Sudão. Já Young Lion, de 2024, faz referência ao processo de transição de seu filho, Izaak Theo Adu, que nasceu com o nome de Mickailia “Ila” Adu. “Meu jovem/ Tem sido tão pesado/ Me perdoe, filho/ Eu deveria ter percebido”, diz a letra da balada, que entrou em TRAИƧA, de 2024, projeto da Red Hot Organization.

No dia 16 de novembro, Sade Adu e mais os integrantes da sua banda deverão estar presentes no Teatro Peacock, em Los Angeles, para celebrar sua entrada no Rock & Roll Hall of Fame (isso é, caso ela consiga tirar a pedra da caverna). Será uma honraria digna para aquela que é uma das popstars mais emblemáticas das últimas quatro décadas. Agora, se me dão licença, aparentemente tem uma outra performance de Beyoncé que eu terei de assistir.

Publicidade

Opinião por Sérgio Martins

Jornalista e crítico musical

Tudo Sobre