‘Não ligo de ‘reacinha’ ficar me xingando de cheirador. Eu não sou’, diz Nasi, do Ira!
Foto: Taba Benedicto/ EstadãoEra uma tarde vazia de outono em São Paulo, mas Nasi fez valer o dia com suas opiniões incisivas e histórias do passado, as boas e más recordações, em entrevista conduzida na casa do artista, na região do Butantã.
Rodeado por assentamentos de Exu, que lhe servem de “proteção”, e máscaras africanas, o cantor do Ira!, autodenominado “macumbeiro” e de “centro-esquerda”, abriu uma cerveja e acendeu o cigarro para um papo descontraído com a reportagem do Estadão.
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O roqueiro de 63 anos está lançando o 9º álbum fora do grupo que fundou ao lado de Edgar Scandurra. Solo Ma Non Troppo [“sozinho, mas não muito”], já disponível nas plataformas digitais, registra um show do ano passado com repertório baseado em Rocksoulblues (2024), seu disco anterior, no qual regravou temas das discografias de Tim Maia, Erasmo Carlos, Martinho da Vila, entre outros.
Em paralelo, a banda paulistana de sucessos como Envelheço na Cidade e Flores em Você deu início à turnê celebratória dos 20 anos do álbum Acústico MTV (2004), o mais bem-sucedido da carreira do conjunto, com datas agendadas em diversas cidades do Brasil.
Mas antes disso, no fim de março, Nasi voltou a se envolver em polêmicas na seara política. Durante uma apresentação do Ira!, em Contagem-MG, ele apoiou gritos de “sem anistia” da plateia, antes de ser vaiado por uma parcela menor do público. Indignado com as vaias, ele esbravejou no palco: “Tem gente que acompanha o Ira! mas que nunca entendeu o Ira!. Tem gente que nos acompanha e é reacionário, é bolsonarista. Por favor, vão embora da nossa vida! Vão embora e nunca mais voltem em show, não comprem nossos discos, não apareçam mais! É um pedido que eu faço”.
Após o ocorrido, quatro concertos do grupo no Sul do País foram cancelados pela empresa local responsável pelo giro.
A personalidade rebelde de Nasi, também determinante no contexto da briga que causou a separação do Ira! em 2007 (a banda voltou à ativa, reformulada, em 2014), foi alvo da biografia A Ira de Nasi (Ed. Belas Letras) e do documentário Você Não Sabe Quem Eu Sou (2018), adquirido pelo Canal Brasil para ser relançado ainda este ano.
Leia abaixo a entrevista com o músico.

Ano passado falamos sobre ‘Rocksoulblues’, álbum que agora ganha versões ao vivo em ‘Solo Ma Non Troppo’. Como foi a transição dessas músicas do estúdio pro palco?
Esse disco não estava exatamente nos meus planos. Quando eu fui fazer o show de lançamento do Rocksoulbues no Teatro Raul Cortez, aqui em São Paulo, tive a sorte de poder reunir todas as participações especiais do disco, como o Igor Prado, guitarrista, e a cantora Nanda Moura. Gravei esse show e o resultado foi tão bom que resolvi mixar. O melhor resultado para rock e blues é gravar ao vivo. Foi assim que eu fiz vários discos. Dos meus nove discos solo, cinco são ao vivo, com ou sem público. Esse álbum novo tem mais pegada - e as músicas, naturalmente, por serem de um show, ficam com um andamento mais rápido, mais nervoso. Também dou muito espaço para minha banda brilhar, diferentemente de outros cantores pop que deixam a banda lá no fundo, escondida.
Em paralelo, o Ira! está na estrada com turnê dos 20 anos do ‘Acústico’. Como foi se reconectar com aquele repertório?
Tem sido muito emocionante. Conseguimos montar uma banda muito orgânica. Sabemos como esse disco fez parte da vida das pessoas. Estamos felizes por reviver essa nostalgia e o público também, então cria-se uma simbiose muito grande. Pra mim, como cantor, é muito bom, porque não tem muito barulho, pratos de bateria, distorções de guitarra. É uma responsabilidade maior, mas ao mesmo tempo, é onde eu me sinto mais cantor do que roqueiro. No show regular do Ira!, eu sou um líder de quadrilha, vamos dizer assim, e no formato acústico eu me sinto mais cantor.

Foi algo natural a ideia de fazer o ‘Acústico’, ou foi porque todo mundo estava fazendo, com a intenção de suavizar o som pesado e atingir um novo público?
Tivemos uma certa resistência à ideia no começo. Naquela época, o Ira! foi o único artista que fez os dois grandes projetos da MTV, que eram o Ao Vivo MTV e o Acústico MTV. Quando veio a ideia do Acústico, já estávamos mais maduros para fazer, porque a qualidade das músicas do Ira!, pensando na riqueza das harmonias, melodias, era muito propícia. Outras bandas não. Eu não vou citar nomes, mas vi várias bandas fazerem o Acústico porque tinham que fazer. Gosto do Acústico dos Titãs, também o da Cássia Eller, do Capital Inicial, são muito bons. Quando nós fizemos, já tínhamos uns dez álbuns lançados. Pudemos dar vida novamente a músicas que tinham passado desapercebidas, como O Girassol e Eu Quero Sempre Mais, os dois maiores sucessos desse disco. Elas tinham sido lançadas em 1995 no álbum 7 e, na época, a gravadora não escolheu nenhuma delas como single pra rádio.
A separação do Ira! foi muito ruidosa. Como é a relação de vocês hoje?
É óbvio que não temos a amizade que tínhamos nos anos 80. Mas essa separação tormentosa não precisava ter sido daquela maneira. Todo mundo meteu os pés pelas mãos, inclusive eu. Meu erro foi não ter procurado um advogado pra fazer valer a seguinte questão: estava acordado que daríamos um tempo logo depois do Acústico, pelo estresse do sucesso, muita convivência, cansaço das viagens. Nossa relação não estava legal. Mas eles me convenceram a fazer mais um disco, que foi o Invisível DJ (2007) - disco interessante, mas um pouco sem alma. Depois disso iríamos fazer a turnê e parar, mas começaram a empurrar com a barriga. Não gostei. Eu deveria ter contratado um advogado e deixado ele brigar. Mas aí eles tentaram me expulsar da empresa, tentativa de interdição, como se eu fosse um lelé, como se eu tivesse recaído. Fiquei com raiva disso, porque eu não uso cocaína desde o dia 26 de abril de 1997. E eu não ligo de ‘reacinha’ ficar me xingando de cheirador. Se alguém acha que eu sou, faz parte do meu pacote de rock, mas eu não sou (...) Depois de seis anos nós nos reconciliamos e a formação atual do Ira! é paulada!

Todo mundo te conhece como esse cara super sincero, de sangue quente. Como avalia o seu temperamento?
Há um estereótipo sobre mim que eu acho que não condiz com a verdade. Não sou um cara briguento por natureza, só que eu sou um cara firme em minhas convicções e não aceito injustiça. Tive momentos de apaziguador que ninguém fala. Não sei se você está querendo falar, por exemplo, sobre o fatídico show de Contagem. Acho que ali eu dei uma escorregada no final. Não me arrependo do que eu falei, até a página dois. Não puxei o coro ‘sem anistia’. Eu só aplaudi, endossei o público e falei ‘sem anistia’ com eles. Depois o grupinho lá do fundo, que nem estava prestando atenção no show, começou a vaiar. E aí falei tudo aquilo, chamei eles de reacionários, que não entenderam a história e a música do Ira!. Eu não expulsei ninguém de lá, ninguém saiu. O show continuou normal. Eu poderia ter imitado o Caetano Veloso. Nos anos 60, o Caetano, num desses festivais da música brasileira, quando ele usou uma banda de rock, ele foi vaiado por um público de esquerda, que era contra a guitarra elétrica. E ele parou e disse: ‘é essa a juventude que quer mudar o Brasil?’. Eu deveria ter feito isso no final, ter falado: ‘é essa direita que quer mudar o Brasil? Que apoia o que aconteceu no 8 de janeiro? Que apoia Golpe de Estado?’
Um fã do Ira! que cresceu ouvindo a banda, que adora as músicas, compra os discos, mas que é bolsonarista e apoia o 8 de janeiro, ele é bem-vindo nos shows?
Não é nem bem-vindo, nem mal-vindo. Ele só comprou o ingresso (risos). Mas eu, sinceramente, não entendo porque essa pessoa vai gostar do Ira!, tendo eu, um cara de centro-esquerda, assim como o Edgar. Uma amiga me mandou um vídeo de uma festa onde todo mundo era ‘bozo’ e estava curtindo o DVD do Acústico no telão. Então, eu sei que, no fundo, pra esses caras, não interessa o que eu penso. Se querem curtir minha música, curtam. Querem ir no meu show? Vão. Eu só não gostei, naquele dia, da manifestação de repúdio. Boa parte da população é contra a anistia. Estão falando que o [próximo] candidato da direita vai ter que endossar um indulto [para Bolsonaro]. Quer dizer que isso vai virar plataforma de governo, com tantos problemas no Brasil? Ah, pelo amor de Deus...

Você acha que a prisão do Bolsonaro é importante para a democracia?
Eu acho que para a democracia é bom que a justiça se faça. Se ele for condenado, for preso na casa dele, no quinto dos infernos, não me interessa. Ao que tudo indica, vai ser provado que ele e mais uns outros tentaram um Golpe de Estado com requintes de assassinatos. É isso que o Ministério Público e a Polícia Federal apresentaram. ‘Ah, tentaram, mas não deram o Golpe’... Mas é lógico, se não nem eu iria estar aqui. Teria sido preso, provavelmente!
Depois do episódio em Contagem, houve alguns cancelamentos no Sul. Você se sentiu apunhalado com isso?
Não, isso não representa o público, nem o povo do Sul. Por mais que eles tenham, estatisticamente, uma orientação mais conservadora, isso não foi empurrado pelos fãs. Isso foi milícia digital. Nosso show de novembro em Porto Alegre já está praticamente esgotado. Fizeram um terrorismo com os contratantes, literalmente. E tinha um contratante que era responsável por cinco shows desses. Eu sei de robôs, gente que está do outro lado do País, em Manaus, falando que não iria ao show (risos). Agora, o cara [produtor] foi cagão. Vários outros contratantes receberam essas ameaças, bancaram e tiveram sucesso. Porque nossos shows, desde o primeiro, estão lotados. Aqui em São Paulo, tivemos que abrir uma noite extra no Vibra. Quase 6 mil pessoas cabem lá. Então, quem for conservador, da direita democrática, eu não quebro relações por causa disso. A não ser que a pessoa seja uma besta fera, ofendendo com homofobia, racismo, pedindo volta da ditadura. Isso não é coisa de conservador, isso é coisa de reacionário. Mas eu não tenho como impedir também.
Você falou sobre essa direita que quer mudar o Brasil. E a esquerda que quer mudar o Brasil?
Estamos com um problema de renovação da esquerda, principalmente de lideranças. Vão ficar bravos comigo, mas a esquerda tradicional está muito bunda-mole. Até pessoas que eu conheço, dizendo que são veganas, que andam de bicicleta, que são filiadas a partidos, mas na hora do ‘vamos ver’, não querem confusão. E aí temos que falar das bestas feras... Ele [Bolsonaro] só foi um fantoche de um armário cheio de ossos e cadáveres. Você vê esses caras aí de camisa verde e amarela, que rezam pro quartel, ficam esperando o ET descer, ficam marchando feito idiotas. É uma direita que passa vergonha, mas que dá a cara tapa. Eles entram na dividida. Hoje está crescendo uma juventude de direita. Isso é terrível.
No seu trabalho solo vemos as influências das religiões de matriz africana. Você já sofreu ou sofre preconceito por se associar a esses credos?
Não, porque eu sou branco. Vivo orixá, umbanda e candomblé desde a infância, porque minha mãe era médium. Não é modinha. Quando eu posto alguma coisa assim, vejo alguns comentários do tipo: ‘tá amarrado em nome de Jesus!’ ou que é ‘coisa do demônio’. Mas é pouca gente. O problema não é comigo. O problema é nas favelas, onde existe o conluio entre traficantes e pastores evangélicos, que estão expulsando, agredindo e matando sacerdotes e simpatizantes. Isso é muito cruel, é quase uma jihad. Eu posso falar que sou macumbeiro. Se a pessoa quiser não gostar de mim por isso, a porta é serventia da casa. Não preciso dela como meu fã.

Você costuma fazer retiros na Nigéria, o que eles te proporcionam?
Temos o nosso templo aqui, que fica em Mongaguá. E uma vez por ano vem o que chamamos de ‘tropa de elite da macumba’ (risos). 13 sacerdotes vêm da Nigéria para implementar algumas iniciações aos brasileiros. E quando eu vou à Nigéria, temos contato não apenas com plantas que só existem lá, mas também com sacerdotes que não conseguem vir ao Brasil, porque alguns são muito velhinhos. Nós que somos de orixá, quando pisamos na África, sentimos outra coisa. Eu fico até arrepiado. É uma energia vital.
Muitos artistas estão fazendo propagandas de bets. É uma epidemia no Brasil. O que pensa disso?
Sou totalmente contra. Isso é um absurdo. Eu, como ex-viciado em cocaína, sei o inferno que o vício foi na minha vida. O vício de jogo é que nem o vício de droga. Ele libera endorfina, dopamina, adrenalina. Pessoas que são viciadas em jogo, elas vendem a casa, vendem a mãe, como qualquer viciado da Cracolândia. O que está acontecendo com esses influencers e artistas? Eles estão enriquecendo, chupando o pouco de dinheiro que a maior parte da população tem. Acho que as bets têm que ser super taxadas. Alguém tem que fazer alguma coisa. O nosso congresso não faz nada. É uma coisa pornográfica no Brasil.
Próximo show do Ira! em São Paulo
- 18 de julho, no Clube Atlético Juventus; com o Biquini Cavadão; a partir de R$ 72 (ingressos via Ticket 360)




