Musical ‘Djavan - Vidas pra Contar’ ressalta religiosidade e criação artística do cantor

Espetáculo protagonizado por Raphael Elias tem grandes hits e atriz Walerie Gondim impressionando como Gal Costa

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Foto do autor Danilo Casaletti
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Musical 'Djavan - Vidas Pra Contar' destaca sucessos e a religiosidade do cantor

Os atores Raphael Elias e Walerie Gondim falam sobre como é interpretar Djavan e Gal Costa no espetáculo. Crédito: Danilo Casaletti/Estadão

Um dos respeitosos pitacos que Djavan deu no musical Djavan – O Musical: Vidas pra Contar, que estreia em São Paulo neste sábado, 9, no Teatro Sabesp - Frei Caneca, foi sobre o título. Ao ouvir uma das sugestões, Um Amor Puro, ele pensou que o mais adequado seria Vidas pra Contar, nome de outra canção sua, menos conhecida do que a primeira.

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As vidas que passam pelo musical idealizado por Gustavo Nunes, com direção artística de João Fonseca, que chegou aos palcos em temporada recente no Rio de Janeiro, são, obviamente, a de Djavan na música, mas também a de sua religiosidade e da força feminina em sua vida e canto.

Uma síntese de como o espetáculo amarra essas vidas está na cena que traz ao palco a canção Luanda. Ela marca a primeira visita que Djavan fez ao continente africano, no início dos anos 1980 - nessa altura, ele já havia alcançado o estrelato no Brasil -, que o ajudou a se conectar com sua ancestralidade. “Num grito da mãe Oxum dizendo: menino, onde é que tu anda?/Eu te batizo africamente/Com o fogo que Deus lavrou tua semente”, diz trecho da canção que está no álbum Seduzir.

Dramaturgicamente esse era o material mais valioso que os roteiristas Patrícia Andrade e Rodrigo França tinham em mãos - a vida privada de Djavan, que nunca foi colocada em primeiro plano por ele em seus mais de 50 anos de carreira, e também não é manancial para cenas do espetáculo. No cenário de André Cortez, portas se abrem para apresentar as vidas do cantor.

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Raphael Elias é Djavan no musical Foto: André Wanderley

Djavan é interpretado pelo ator mineiro Raphael Elias, de 30 anos. Ele foi escolhido entre mais de 250 candidatos ao papel. Mais do que interpretar, Elias precisou aproximar seu canto ao de Djavan. Buscou a semelhança na nasalidade presente no sotaque nordestino - Djavan é de Maceió. “O trabalho mesmo foi o de ouvir os discos dele. Mas, vou te dizer: sempre tive a facilidade de imitar vozes, buscar o timbre das pessoas”, conta.

O cuidado ficou em não pender para uma caricatura. “Chegou o momento que, principalmente na voz falada, eu anasalei demais. Depois, encontrei o lugar dela, entre a rítmica e o sotaque”, explica.

Para cantar, sobretudo os grandes hits, foram feitos ajustes de tonalidades, especialmente naqueles que Djavan canta em tons mais altos. Há o momento em que Elias se apresenta em voz e violão, na balada Oceano. “Pedi para baixar um tom para que meu registro vocal pudesse brilhar, mas aí ficou mais difícil tocar no violão. Então, uso um truque: no momento em que não atinjo, jogo para a plateia. E ela canta”, revela Elias.

O ator fez aula de violão com João Castilho, músico que acompanha Djavan há muitos anos. “Ele me mostrou como Djavan toca cada acorde, cada levada. E foi importante. O violão é a segunda voz do Djavan”.

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Quem também se destaca no musical é a atriz Walerie Gondim, de 34 anos. Um de seus personagens é a cantora Gal Costa. Um vídeo dela cantando Açaí viralizou nas redes sociais tão logo o musical fez sua estreia, no Rio. Walerie e Elias também se apresentaram no programa Altas Horas, o que potencializou o interesse pelo trabalho da atriz.

A semelhança com a cantora baiana impressionou. Os gestos, o microfone de lado, como Gal o usava nos anos 1970 e 1980, os cabelos, a presença em cena. “Encaro meus processos como atriz sempre de forma artesanal. A voz foi o maior desafio. Ela é emblemática em Gal. Sou soprano, assim como ela. Fui ajustando, com estudo de ressonância, de articulação, para entender como eu usaria meu material vocal para ser mais fiel à ela. E, claro, respeitando também meu lado, de quem sou eu como intérprete”, diz Walerie.

Nascida em Manaus, no Amazonas, Walerie passou a infância no interior do Rio de Janeiro, e há sete anos mora em Salvador, onde Gal nasceu. Com Elias, ela canta Açaí. Em momento solo, interpreta Faltando Um Pedaço. “Quis entender a energia de Gal no palco, mais do que sua forma”, afirma a atriz.

Ao menos na imaginação dos fãs que já conquistou, Walerie já está credenciada para um possível musical sobre a vida de Gal. “Vivemos um dia de cada vez. Fico feliz que meu nome esteja na boca das pessoas. Tudo no tempo certo”, diz.

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Os atores Raphael Elias e Walerie Gondin como Djavan e Gal Costa no musical Foto: Janderson Pires

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Em São Paulo, Djavan – O Musical: Vidas pra contar fará 32 apresentações, quatro a mais do que no Rio de Janeiro. Depois, Fortaleza, Maceió e Brasília. Há planos para outros países, como Portugal, que já recebe musicais brasileiros.

Para o idealizador do projeto, Gustavo Nunes, da Turbilhão de Ideias, é importante que os musicais circulem além do eixo Rio-São Paulo. “Não só o teatro musical, mas o teatro como um todo. Um grande nome como Djavan ajuda muito para que isso ocorra”, diz o produtor.

Recentemente, Nunes colocou a trajetória dos Paralamas do Sucesso nos palcos em Vital - O Musical dos Paralamas. O produtor planeja para breve uma nova montagem de Cássia Eller - O Musical, que ficou dez anos em cartaz. “O Brasil já criou seu próprio teatro musical, independente da linguagem da Broadway. Vamos passar de importador para exportador”, diz.

Um olhar de filho para pai

Raphael Elias em cena de 'Djavan - O Musical: Vidas Pra Contar'  Foto: Janderson Pires/Divulgação

Além da questão dramatúrgica, outra difícil missão para o espetáculo Djavan – O Musical: Vidas pra Contar era colocar em cena o som feito por Djavan, com arranjos naturalmente complexos, próprios da criação tão diversa quanto única do artista. Para a tarefa, foi recrutado, o baterista e produtor João Viana, um dos cinco filhos do cantor. Ele assina a direção musical do projeto em parceria com Fernando Nunes.

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“O material fonográfico do Djavan vai do samba ao baião, passa pela influência dos Beatles, tem muito Luiz Gonzaga, tem canções, baladas arrebatadoras de amor, bolero, algo mais brejeiro também. Essa diversidade é a marca dele, o que comunica com o público. Foi preciso sintetizar tudo isso em duas horas e meia de musical”, explica Viana.

Djavan costuma se apresentar sempre com grande banda, o que não seria possível no musical. O multi-instrumentista Thiago Medeiros toca teclados, percussão, gaita, flauta e trompete, além de conduzir os demais músicos. “O importante foi soar como a banda do Djavan, com metais presentes e bastante percussão. Tentamos ser fiéis aos arranjos originais, mas é um espetáculo teatral, com liberdade para criar, sobretudo para conectar as cenas”, diz Viana.

O caminho para chegar a esse resultado foi uma playlist compartilhada entre Vianna, a direção, autores e Djavan. Um ajuste aqui, outro ali, e “o suprassumo” da obra do homenageado foi contemplado.

“É um espetáculo muito generoso, inclusive com homenagens a outros artistas”, diz Viana, referindo-se às representações de Gal, Maria Bethânia, Chico Buarque, Caetano Veloso e Alcione. Nana Caymmi é uma ausência sentida, considerando-se que a cantora foi uma das primeiras grandes artistas a gravar uma canção de Djavan, Dupla Traição, em 1976.

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Djavan e Caetano Veloso, um dos homenageados no musical, em foto de 1991 Foto: Jonas Cunha/AE

Djavan, assim como fez com o roteiro, deu palpites pontuais na escolha do repertório. Pediu, por exemplo, Romeiros, canção que ele lançou em 1977, em um compacto, e que não chegou a fazer parte de nenhum de seus discos - e pouco cantada por ele ao vivo ao longo de sua carreira. A composição fala da fé em meio à aridez do sertão nordestino, e casa com um dos propósito do musical, que é destacar a religiosidade do cantor.

Outros lados B: Quantas Voltas Dá Meu Mundo, do primeiro álbum do artista, de 1976, e Soweto, de 1987, que aborda a questão do preconceito racial. Viana destaca a primeira estrofe da canção: “Kinshasa, Beirute, Maranhão/O negro que lute/Pra poder sonhar/Em mudar isso aqui”. Ele chama atenção: “Repare que ele não diz ‘para sonhar’ e sim ‘para poder sonhar’. Essa música está em uma cena muito forte, muito reflexiva, que causa um impacto grande no público”.

Os amores de Djavan também estão no musical da forma como o cantor os encara, de forma privada. A questão maior é mostrar como as mulheres o influenciaram. A mãe do cantor, Virgínia, é uma delas. Ela morreu quando o cantor tinha 24 anos. Foi com ela que Djavan aprendeu o canto das lavadeiras, em Maceió, onde nasceu. Esse canto ainda está preservado em sua voz.

Rafaella, atual mulher de Djavan, mãe dos dois filhos mais novos do cantor, Sofia e Inácio, é interpretada por Walerie Gondim, a mesma atriz que faz Gal Costa. Nesse momento, ela canta músicas como Eu te Devoro.

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A mãe de Viana e primeira mulher de Djavan, Maria Aparecida Viana, é parte importante do musical. Aparecida morreu em setembro de 2024, aos 74 anos. No palco, ela é representada pela atriz Eline Porto, que canta, entre outras canções, Correnteza, de Tom Jobim e Luiz Bonfá, sucesso na voz de Djavan. Além de Viana, o casal também teve Flávia e Max.

De alguma maneira, a vida de Viana passa pelo musical. Ele enxerga além de qualquer vaidade exacerbada. “Entendo que o musical é uma grande homenagem para minha mãe. Ela acompanhou absolutamente tudo, desde o dia 1 da carreira do meu pai. Conheceram o mundo todo, e sempre se preservaram”, conta.

A história tão incrível quanto inverídica relacionada ao samba Flor de Lis, a de que Djavan conta que Maria teria morrido no parto da suposta filha Margarida, é citada e desmentida no musical. Um amor tão puro quanto o Djavan não combina com fake news.

  • Djavan – O Musical: Vidas pra contar
  • Quando: De 9/8 a 28/9. Sábados, 16h e 20h; domingos, 15h e 19h. 
  • Onde: Teatro Sabesp Frei Caneca - R. Frei Caneca, 569, Consolação. 
  • Quanto:R$ 42/R$ 250.

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