Jorge Caldeira levou cinco anos para escrever ‘De olhos abertos e pés no chão’

Livro, que será lançado no dia 2 de outubro, teve pesquisa ampla que nasceu no ‘Estadão’ e foi até à Escócia para mostrar uma empresa que mudou a cada 15 anos para sobreviver

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Foto do autor Cristiane Barbieri
Atualização:

A saga centenária da CMNP

Empresa criada por lorde britânico para colonizar o Paraná faz 100 anos, com atuação em etanol, açúcar e energia.

Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

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“É uma história tão inusitada que ia parecer mentira se o livro fosse assinado só por mim ou só com o nome do Gastão (de Souza Mesquita)”, diz Jorge Caldeira, sobre De olhos abertos e pés no chão, publicação assinada por ambos que chega às livrarias em 2 de outubro. “Como é possível que uma multinacional de um lorde escocês tenha se tornado uma empresa familiar brasileira, com seu maior investimento virando estatal, sem que essa história tenha sido inventada?”

Imortal da Academia Brasileira de Letras e autor de 16 livros sobre o País, Caldeira foi contatado para escrever um livro corporativo sobre a Companhia Melhoramentos Norte do Paraná (CMNP). Desses que viram brindes a amigos, clientes e funcionários. Impactado pelo que viu (leia mais aqui), ofereceu a obra à Sextante, que resolveu publicá-la.

Caldeira: "É uma história tão inusitada que parece mentira" Foto: Luiza Sigulem/ Editora Sextante.

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Foram nada menos do que cinco anos, entre pesquisas, entrevistas e escrita, sendo que o primeiro, durante a pandemia, aconteceu dentro do Estadão. Mais especificamente, no acervo do jornal. De anúncios a reportagens sobre as visitas dos nobres britânicos ao Brasil, ainda na década de 20, passando por um caderno especial com uma expedição dos primeiros professores da USP à região, organizada pelo diretor Júlio Mesquita Filho, a história da companhia passou nada menos do que 705 vezes pelas páginas do jornal.

Com uma equipe composta por cerca de 15 pesquisadores, o levantamento também envolveu trabalho na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, em livros e teses acadêmicas sobre a CMNP e o Norte do Paraná e 220 jornais ingleses e escoceses. Também no National Archives do Reino Unido, no Bank of London, no Museu Histórico de Londrina, que tinha 35 horas de entrevistas realizadas entre 1972 e 2004 do projeto “História Falada, História Escrita”, entre outros.

No ano passado, o historiador-chefe do time, Alexandre Ricardi, fez uma incursão pelos ao Highland Archives Centre, em Inverness, cidade vinculada à história do clã Lovat. Lord Lovat foi o nobre que captou recursos para comprar as terras no Norte do Paraná que dariam origem à empresa.

Os arquivos de Lord Lovat, que ficaram fechados por 70 anos, tinham acabados de ser abertos e a equipe conseguiu ter acesso a um material totalmente inédito. “Descobri coisas que a família não sabia”, diz Caldeira.

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A segunda parte do livro, quando as famílias Mesquita e Vidigal assumem a empresa, foi mais trabalhosa, em outro sentido. Foi também o principal motivo para Gastão de Souza Mesquita ter assinado o livro com Caldeira. “Imagine um grupo que, durante 50 anos, foi tocado no fio do bigode”, afirma o autor. “Era uma SA (Sociedade Anônima) com muitos acionistas, mas não tinha um só registro que pudesse ser consultado. É algo brasileiríssimo."

Assim, foram os depoimentos de Souza Mesquita, com as lembranças do avô, do pai e dos sócios, que ajudaram a compor boa parte da história. Caldeira diz que todo o processo esteve longe de ser “singelo”. Longo e quase uma análise familiar, segundo Caldeira, só aconteceu porque a família disse: “Vamos!”.

Para ele, um dos méritos do livro é entender como as empresas no Brasil estão sujeitas “a chuvas e trovoadas”. “Muitos temas, polêmicos até hoje, mostram o motivo de uma empresa ter de trocar de atividade a cada 15 anos no País, para poder ir adiante”, afirma.

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Além do livro, as comemorações do centenário envolveram outras iniciativas. Haverá uma exposição itinerante com curadoria de Marcello Dantas, que foi diretor artístico do Museu da Língua Portuguesa. Dentro de um trem com três vagões, será mostrado passado, presente e futuro da empresa.

A CMNP também patrocinou o projeto Memória Paraná, que digitalizou cerca de 530 mil páginas (20 mil edições) do acervo do jornal A Gazeta do Povo (1919-2019). Incorporou ao banco as coleções dos periódicos Paraná Norte (1934-1950) e A Pioneira (1948-1954), também em cooperação com o Museu Histórico de Londrina, que recebeu as ementas criadas para subsidiar essa pesquisa.

No total, estão sendo investidos cerca de R$ 10 milhões nas comemorações do centenário.

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