Alimentos que terão alíquota zerada respondem por menos de 5% do IPCA: veja a análise de economistas

Efeito das medidas do governo para tentar segurar a inflação de alimentos será de 0,2 ponto porcentual na alimentação do domicílio neste ano, calcula a consultoria LCA 4 Intelligence

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Foto do autor Márcia De Chiara
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Um dia depois de o governo anunciar medidas para tentar segurar a inflação de alimentos, focadas especialmente na zeragem da alíquota de importação de dez produtos, entre eles carne, café e açúcar, economistas começaram a avaliar os efeitos concretos do pacote na inflação da comida. E confirmaram com números a primeira impressão que tiveram: o reflexo será muito pequeno na inflação da alimentação no domicílio.

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Nas contas do economista da LCA 4 Intelligence, Fabio Romão, por exemplo, o impacto da zeragem das alíquotas desses itens na inflação do domicílio será de 0,2 ponto porcentual no ano. “Efetivamente pouco muda”, diz.

Para chegar a esse resultado, foram considerados alguns pontos. Um deles é o fato de o Brasil ser o maior produtor e exportador de carne, café e açúcar. Portanto, a redução do imposto de importação terá um impacto pequeno nos preços desses itens.

Além disso, entrou na conta o efeito da redução do imposto de importação sobre o milho e sobre os preços e os custos da ração na alimentação das aves. No caso do azeite, Romão observa que a queda de preço já era esperada por causa da melhora da produção de azeitonas na Europa, cuja safra havia sido castigada pelo clima.

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Antes das medidas, a consultoria projetava que a alimentação no domicílio encerrasse este ano com alta de 7,3%. Agora, espera um avanço de 7,1%. Para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) como um todo, no entanto, a projeção para o ano está mantida em 5,6%.

De toda forma, Romão ressalta que, apesar da perda de fôlego esperada para inflação no domicílio deste ano para 7,1%, ante um aumento de 8,2% em 2024, o resultado previsto ainda é “bastante importante, mesmo com essa parcial desaceleração”.

Já a economista-chefe da Life Time Gestora de Investimentos, Marcela Kawauti, não se arrisca a calcular o impacto das medidas no IPCA, mas ela acredita que o efeito será muito pequeno e que não irá resolver o problema da alta de preços.

“Não sabemos quanto teremos, de fato, de aumento de safra, qual será a composição de produtos importados versus os exportados”, argumenta, justificando a impossibilidade de se chegar a um dado de qual será o reflexo nos preços da comida e na inflação.

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Economistas avaliam que os consumidores irão perceber poucos efeitos, na prática, do primeiro pacote de medidas para tentar conter a inflação dos alimentos Foto: Alex Silva/Estadão

Levantamento feito por Marcela mostra a pequena participação no custo de vida dos itens cuja alíquota do imposto de importação será zerada. No IPCA-15 de fevereiro, a prévia da inflação, juntos, esses itens responderam por 4,98%. “O que mais pesa é a carne, com participação de 2,87%, e os demais não têm fatia relevante”, observa a economista.

Essa também é a análise de André Braz, coordenador dos Índices de Preços do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas. Ele observa que o azeite não é item da cesta básica, assim como o óleo de girassol. Também o efeito da redução do imposto de importação do milho é indireto no preço de frango e ovos.

“Não dá para reduzir a discussão (da inflação de alimentos) a meia dúzia de itens nem tão relevantes assim”, afirma o economista da FGV.

Pressão do câmbio

Marcela frisa que a alta de preços dos alimentos carrega um componente muito importante de pressão, a valorização do dólar em relação ao real, e que parte desse efeito ainda não foi repassado ao consumidor. “A inflação de alimentos deve continuar pressionada no IPCA, mesmo com essas reduções (de imposto de importação)”, prevê.

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O caminho escolhido pelo governo de zerar as alíquotas de imposto de importação, na prática, é uma renúncia fiscal, diz a economista. Ela ressalta que essas medidas colocam mais pressão sobre as finanças públicas, que levaram à alta do dólar. “Também não sabemos como será compensada a zeragem desses tributos.”

“O impacto (das medidas) vai ser marginal”, afirma Braz. Na sua avaliação, as medidas anunciadas são uma resposta ao um problema grave que o governo enfrenta — o aumento de preços dos alimentos ―, que afeta a sua popularidade. No entanto, argumenta que essas medidas estão muito longe de ser uma solução ideal para o problema.

Segundo Braz, não há uma fórmula de resolver essa questão no curto prazo. Mas ele acredita que a resposta mais rápida seria o governo demonstrar que está buscando o equilíbrio fiscal. “Não prometer aquilo que não vai cumprir, mas mostrar que está preocupado e alinhado com o ajuste fiscal.”

Essa sinalização, de acordo com o economista, poderia aumentar as chances de ocorrer uma valorização cambial, e isso traria um alívio para os preços dos alimentos e outros itens do IPCA.

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Ele observa que já existe uma desaceleração dos preços dos alimentos em curso. No café e na carne, por exemplo, as pressões inflacionárias estão perdendo fôlego. E os preços do arroz e do feijão estão caindo. “Existe um tensão inflacionária nos alimentos em desaceleração”, diz Braz.

O economista ressalta que não se trata de uma queda generalizada, mas que os preços continuam subindo, porém em ritmo menor.

Economista do CLP vê tentativa de criar narrativa

Para o Centro de Liderança Pública (CLP), em nota técnica assinada pelo economista Daniel Duque, a isenção de imposto de importação para alguns alimentos anunciada pelo governo pode ser encarada como uma tentativa de criar uma narrativa de que seu esforço ajudou a conter a inflação. Isso porque há uma expectativa de que a supersafra prevista para 2025 venha a reduzir o preço dos alimentos de forma natural, em função do aumento da oferta interna.

“Afinal, se os preços começarem a cair em 2025 por causa da safra abundante, a impressão que ficará para a população pode ser a de que a redução de impostos foi determinante para esse resultado, ainda que o fator decisivo seja a maior produção agrícola”, diz a nota da organização suprapartidária.

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Segundo ele, a alta de preços está mais relacionada a fatores estruturais, como o comportamento do câmbio e as dinâmicas do mercado agrícola global. Sem uma política cambial ou fiscal mais sólida e previsível, diz, a redução temporária de tributos não é capaz de garantir uma queda consistente no preço dos alimentos a médio e longo prazos.

O economista cita que a medida pode ter um efeito negativo sobre as contas públicas, já que reduz a arrecadação do governo. Esse efeito fiscal pode contribuir para o aumento do déficit público, o que também exerce pressão sobre o câmbio. “Em outras palavras, se os investidores percebem uma piora no equilíbrio fiscal, tendem a precificar mais risco, o que desvaloriza ainda mais a moeda nacional”, diz.

Outra consequência potencial da proposta diz respeito ao impacto sobre a balança comercial, segundo a nota técnica. Isso porque, ao reduzir impostos de importação, o governo incentiva a compra de produtos estrangeiros, elevando as importações no País.

Se as exportações não crescerem no mesmo ritmo, a balança comercial pode se deteriorar e elevar a demanda por dólares, contribuindo para pressionar o câmbio. “Assim, a iniciativa de baratear os alimentos via importação pode se tornar contraproducente se resultar em uma moeda ainda mais fraca”, afirma. /Com Giordanna Neves/Brasília

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