O Banco Central afirmou na ata do Copom que precisaria dar um choque brutal na Selic para levar a inflação à meta de 3% no final de 2027. Mas, logo em seguida, teria de fazer cortes agressivos na taxa, sob risco de a inflação rodar abaixo de 3% no primeiro trimestre de 2028. Uma espécie de montanha-russa nos juros, que, na visão do BC, só iria trazer “volatilidade excessiva” e que dificultaria o seu trabalho de controlar os preços.
Por isso, resolveu ignorar esse cenário, que foi, na visão do BC, fortemente influenciado por um choque de oferta, e esticar o que os economistas chamam de “horizonte relevante”, ou o prazo para se levar a inflação à meta, do quarto trimestre de 2027 para o primeiro de 2028. Essa foi a explicação da ata sobre o corte da Selic em 0,25 ponto, para 14,25%, na reunião da última semana, que desagradou grande parte do mercado.

“O Comitê debateu trajetórias alternativas, não presentes em quaisquer das expectativas e respostas da Focus ou QPC (Questionário Pré-Copom), tampouco refletidas na precificação da política monetária pelos agentes de mercado, com convergência da inflação à meta no atual horizonte relevante, exigindo variações abruptas de direção e de grande magnitude na Selic, seguida de diversos trimestres com inflação abaixo da meta”, disse o Banco Central.
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A dúvida é se as explicações serão suficientes para acalmar os ânimos dos investidores. Ao esticar o prazo de convergência, o Banco Central corre o risco de enfraquecer a própria meta, porque abre um precedente que poderá ser usado no futuro. O mesmo risco que irá correr ao ignorar as projeções das pesquisas Focus e QPC.
O BC, por outro lado, endureceu o discurso sobre o cenário de inflação e admitiu pela primeira vez que há uma “assimetria altista” para o balanço de riscos, ou seja, com uma chance maior de a inflação subir do que de voltar a cair. Dessa forma, deixou em aberto a decisão para a próxima reunião, de agosto, que dependerá, em grande parte, da manutenção do fim da guerra, a partir das negociações entre os Estados Unidos e o Irã. Se esse cenário se confirmar, o mais provável é que a Selic caia novamente.
O ano tem sido extremamente desafiador com o conflito no Oriente Médio e agora com a expectativa do El Niño, um evento climático que pode novamente bagunçar os preços. Para completar, o Brasil vive um ano de eleições, com enorme incerteza sobre a política fiscal que será implementada pelo próximo presidente eleito.
Subir rapidamente a Selic para depois cortar a taxa não faria sentido. Mas o ruído de comunicação também desgastou a reputação do BC, ainda que de forma exagerada pelo mercado. A conjuntura deixou o BC em uma situação de “perde-perde” na condução da política monetária.





