O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, já sabe que a pressão por cortes de juros será crescente por parte do governo Lula. De um lado, os sinais de fraqueza da atividade econômica ficarão cada vez mais evidentes, e, de outro, o calendário eleitoral para as eleições de 2026 ficará cada vez mais apertado. Isso vai amplificar as demandas por reduções da Selic que virão por todos os lados: do Palácio do Planalto, passando pelo Ministério da Fazenda e lideranças do governo no Congresso.
A estratégia de Galípolo será usar a diplomacia para suportar a pressão. Ou seja, manterá os juros altos, mas baixará o tom das suas respostas. Isso ficou evidente durante a divulgação do relatório de Política Monetária nesta quinta-feira, 25. Questionado sobre as falas do ministro Fernando Haddad e do secretário do Tesouro, Rogério Ceron, sobre os juros, o presidente do Banco Central afirmou que as críticas são “um luxo” para o próprio BC, porque foram feitas com “delicadeza, gentileza e educação”.

De fato, o governo Lula até aqui tem sido muito mais parcimonioso com Galípolo, indicado pelo petista, do que foi com Roberto Campos Neto, indicado ao cargo pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. Lula e Haddad colocam o ciclo de alta dos juros na conta do antecessor, como se Galípolo tivesse herdado um cenário que não pudesse evitar.
A verdade é que tanto Galípolo quanto os demais diretores do Banco Central são responsáveis pela Selic em 15%, porque todos têm autonomia e mandato, e não tomam decisões por viés político. Ele sabem que levar a inflação para a meta é o melhor cenário para a economia, ainda que isso provoque uma desaceleração do PIB e algum aumento da taxa de desemprego.
Haddad tem razão quando diz que o ideal é a política monetária ser devidamente calibrada, para evitar erros para cima ou para baixo na taxa Selic. O problema é que a política de juros não é uma ciência exata e, se o erro for para baixo, o estrago reputacional e no controle das expectativas é muito maior do que o ganho passageiro para o nível de atividade. Portanto, cabe ao BC ser conservador e evitar experimentos, especialmente em um país com a economia altamente indexada, como é a brasileira.
O jeito mais fácil de reduzir juros é sabidamente conhecido: o governo implementar uma política fiscal contracionista e que entregue superávits primários sem exceções à regra. Não é necessário um choque de pobreza como o que é feito pelo argentino Javier Milei. Basta alterar regras de indexação com prazos de transição para que o mercado traga os ganhos a valor presente, com efeitos sobre o dólar e as projeções de inflação.
Galípolo já começa a colher pequenas vitórias contra a inflação, como a quarta queda seguida nos preços dos alimentos, o que ajudará na recuperação da popularidade do governo. Ele irá se apegar aos números e evitará embates para realizar seu trabalho.






