Desde junho/25, a inflação no Brasil vem apresentando tendência cadente, que teve continuidade no IPCA-15 (0,18%), divulgado na última sexta-feira, 24. Isso vem ocorrendo também nos núcleos, que excluem os subitens mais voláteis e analisam a variação recorrente dos preços.
Cabe destacar o grupo Serviços Subjacentes. Esse indicador exclui do grupo Serviços os itens que sofrem influência de fatores temporários, sazonais ou que são administrados pelas autoridades reguladoras, tais como contas de serviços de utilidade pública, passagens aéreas e alimentação fora do domicílio. O conjunto restante, ou seja, os serviços livres e menos voláteis, possui maior correlação com o ciclo econômico, e, principalmente, com o grau de aperto no mercado de trabalho.
Uma das justificativas para o Banco Central (BC) manter o juro real em aproximadamente 10% ao ano, por período bastante prolongado, é a queda contínua da taxa de desocupação, que chegou a 5,6%, ou 5,8%, com dados dessazonalizados, no trimestre encerrado em agosto/25. Esse é o menor nível da série iniciada em março de 2012, e estaria muito abaixo da taxa neutra, ou seja, aquela compatível com a convergência da inflação para a meta, também conhecida como Nairu, Non-Accelerating Inflation Rate of Unemployment, em inglês.

Pela última estimativa do BC, divulgada em blogue de março/25, a Nairu teria caído do nível médio ao redor de 10%, observado até 2016, para 8,25%, atualmente. Contudo, é provável que a queda tenha sido maior do que a apresentada no estudo do BC. Em uma simulação recente que fizemos, utilizando filtro de Kalman, encontramos uma Nairu próxima a 7,0%, no segundo trimestre de 2025. Os pesquisadores do Ibre/FGV, Gabriel Hartung e Mario Carvalho, em uma publicação recente, estimaram em 6,8%.
Vários fatores concorreram para a queda da Nairu. Os mais prováveis são a reforma trabalhista, que reduziu o passivo contingente do empregador, o aumento do nível de educação da força de trabalho, a queda do número de pessoas que se declaram desempregadas em função do aumento dos programas sociais de transferência de renda, a regulamentação do Microempreendedor Individual (MEI), os trabalhos remotos e por aplicativos, entre outros. Ou seja, o mercado de trabalho ficou mais flexível e isso reduz a taxa neutra de desocupação.
Como o mercado de trabalho geralmente reage com defasagem à atividade econômica, a taxa de juro real da magnitude atual aumenta o risco de elevar o desemprego para além do necessário para conter a inflação.
Além disso, o custo fiscal é gigantesco. Em nossas simulações, no período 2023-2026, os juros reais acrescentarão R$ 1,7 trilhão à dívida pública, que deve chegar a 83,4% do PIB em 2026. Isso poderá levar a economia para próximo da zona de dominância fiscal, situação em que a política monetária perde a capacidade de controlar a inflação.






