
O número de transações de fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês) realizadas no mercado brasileiro no primeiro trimestre é o menor desde 2020, ano da pandemia de covid-19, que provocou isolamento social e um desarranjo operacional em várias empresas. A falta de previsibilidade quanto à direção da gestão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está trazendo muita incerteza em um cenário global complexo e colocando muitas transações de molho, diz o sócio fundador da Seneca Evercore, Daniel Wainstein. Segundo ele, as questões fiscais e de déficit orçamentário brasileiro estão em segundo plano neste momento, embora não menos alarmantes.
De janeiro a março deste ano, foram realizadas 148 transações, envolvendo US$ 8,7 bilhões, de acordo com levantamento da Seneca Evercore. No mesmo período de 2020, elas somaram 220 e US$ 5,3 bilhões. O maior volume financeiro se justifica por algumas transações que tiveram valores financeiros mais elevados. Até abril, o número de transações soma 206, ainda menor do que as 261 do mesmo intervalo de 2020.
“Ninguém acreditava que a retórica de Trump seria colocada em prática, até o anúncio das tarifas”, disse Wainstein. Segundo ele, na pandemia havia incerteza, mas a atual é de natureza diferente, com o presidente da maior economia mundial se mostrando errático e imprevisível. “São indicações perturbadoras para o mercado financeiro, um cenário de grande incerteza sobre o que vem pela frente”, acrescenta.
Há concentração em energia e recursos naturais
Outro indicador do impacto da incerteza na tomada de decisão para fechamento de negócios é a concentração das transações em setores de energia e recursos naturais, que agregam o maior número desde 2020. Em 2021, quando houve o volume mais alto de transações nos últimos cinco anos, o “mix” de setores era mais amplo, lembra Wainstein.
Ele diz ter esperança de que Trump retroceda em decisões mais radicais e cita que o presidente norte-americano já está dando alguns sinais. Por isso acredita que será possível ver o mercado de M&A retomando um pouco mais de ritmo e recuperando os volumes perdidos no primeiro trimestre. “Acho que chegamos ao fundo do poço”, diz.
Existem ‘ilhas’
Esse não é um cenário previsto para todas as empresas, mas “existem ilhas”, diz. Elas estão, em sua opinião, nos setores imobiliário e de gestão de recursos, onde a demanda por investimentos em crédito tem sido muito grande, além do setor de energia.
Os números mostram transações que se tornam públicas. Mas Wainstein diz haver muitas delas acontecendo fora dos holofotes, envolvendo empresas que precisam ajustar sua estrutura de capital ou aquelas que vendem posições minoritárias para levantar recursos e comprar outras empresas. Os fundos de private equity, com capital disponível, estão entre os investidores que começam a se interessar por muitas das transações de M&A nesse momento e estão adquirindo posições em empresas que buscam consolidação. São aquelas que estão fazendo negócios neste momento, de acordo com Wainstein. Os estrangeiros, por sua vez, seguem de fora das transações de M&A.
Esta notícia foi publicada no Broadcast+ no dia 02/05/2025, às 13:00.
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