
A empresa de telefonia Sercomtel, detida pelo fundo de investimento Bordeaux Participações, ligado ao empresário Nelson Tanure, assinou a venda das licenças de exploração da internet 5G na faixa de 3,5 Ghz na Região Norte e no Estado de São Paulo. Conforme apurou a Coluna, o comprador foi o consórcio Amazônia 5G, que reúne dezenas de provedores de internet. Procuradas, as partes confirmaram a transação, que agora depende de aval da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).
Se concluída, será a primeira vez que uma licença de exploração de internet móvel é vendida no mercado secundário. O que as empresas faziam até aqui quando o negócio não prosperava conforme esperado era devolver a licença para a Anatel, com multa.
As licenças foram arrematadas pela Sercomtel por R$ 82 milhões em 2021, no último leilão promovido pela Anatel. Na época, o lance representou um ágio de 719% sobre o valor mínimo do edital, indicando o apetite grande de Tanure pelo setor de telecomunicações. O próprio fundo Bordeaux Participações foi estruturado para explorar diferentes modalidades do mercado de telefonia e internet, com sinergias entre cada operação.
Companhias do grupo são do Paraná
A Sercomtel foi comprada em 2020, durante privatização feita pela Prefeitura de Londrina (PR). O fundo também é dono da Ligga (antiga Copel Telecom), de banda larga fixa; e da Horizons, de conectividade e TI para empresas. Todas ficam no Paraná.
Agora, porém, o grupo de Tanure e parceiros decidiram enxugar as atividades, passando a se concentrar no Paraná, o que motivou a venda das licenças 5G em outros territórios. Vale lembrar que, além dos R$ 82 milhões desembolsados no leilão, a Sercomtel teria que investir cerca de R$ 700 milhões para cumprir todas as obrigações de cobertura previstas no edital. Essa equação ficou mais difícil com a disparada dos juros no País.
O conjunto de obrigações inclui ativar o 5G em 758 municípios pequenos, com menos de 30 mil habitantes, na Região Norte e em São Paulo, e implantar um backhaul (rede central de fibra ótica) de 554 quilômetros em 19 municípios. Essas metas devem ser entregues de forma gradual, atingindo 30% em 2026 e 100% em 2029, segundo o edital.
‘Como água no deserto’
Com a venda das licenças, a conta será passada para o comprador, o consórcio Amazônia 5G. “Não é um desafio pequeno, mas a conta não vai ficar tão grande quanto se divide entre todos os provedores”, disse o presidente do consórcio, Luiz Claudio Soares Pereira, em entrevista. “A receita prevista também é grande. Vai ser ‘como vender água no deserto’, porque há regiões sem internet móvel alguma.”
O consórcio Amazônia 5G é composto por oito operadoras principais, encabeçando os negócios em cada Estado - Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e São Paulo. Cada uma fornece a infraestrutura de rede para dezenas de outros provedores locais. Ao adquirir as licenças, o consórcio poderá habilitar o sinal nessas áreas.
“Vamos viabilizar o espectro de 3,5 Ghz para esses provedores levarem o 5G para as pequenas comunidades onde as grandes operadoras não têm interesse de atuar”, explicou Pereira. Nas cidades do interior, há alguma oferta de banda larga fixa, mas pouco ou nenhum sinal móvel. “São em torno de 1 milhão de pessoas desconectadas. O clamor pela internet móvel é enorme”, ressaltou.
Partes já tinham acordo
Na metade do ano passado, a Sercomtel chegou a firmar uma parceria com a Amazônia 5G para ceder o uso da faixa de 3,5 Ghz em troca da implementação da cobertura pelas empresas locais, mas o acordo não evoluiu no ritmo esperado. O backhaul já está pronto, mas as antenas para a cobertura móvel ainda não foram colocadas. Com o prazo do edital se esgotando, o consórcio decidiu propor a aquisição das licenças para garantir a continuidade do negócio.
Por sua vez, a Sercomtel afirmou que vem trabalhando na construção de parcerias para a exploração de suas autorizações de 5G e que está aberta a diferentes modalidades de operação, sempre com o objetivo de assegurar “o melhor retorno e a maior valorização dos ativos”. A Sercomtel acrescentou que “essas parcerias podem evoluir para diferentes modelos, entre eles, eventualmente, a venda dos direitos de uso das faixas”. Nos bastidores, fontes têm comentado que Tanure também busca um comprador para a própria Sercomtel, algo que foi negado pelo grupo. “Não há processo de venda, desmembramento ou alteração de estrutura societária envolvendo a Sercomtel”, informou.
O grupo reforçou ainda que os movimentos da Sercomtel não impactam a Ligga, que também arrematou no leilão a licença para exploração do 5G no Paraná, e, neste momento, trabalha para a ativação do sinal. “A Ligga está avançando na estruturação de seu modelo de operação para o 5G no Paraná. O projeto encontra-se em estágio avançado de planejamento e desenvolvimento, com expectativa de lançamento em breve”.
Esta notícia foi publicada no Broadcast+ no dia 28/04/2025, às 13:41.
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