Gerando resumo
As patrulhas armadas, câmeras inteligentes e seguranças particulares que figuram em bairros nobres de São Paulo fazem brilhar os olhos dos corretores de imóveis. Empresas privadas de vigilância valorizam as casas e impulsionam a demanda em algumas regiões, mas os custos são altos e as iniciativas levantam debates sobre o papel do Estado.
O desejo de combater crimes como invasões a residências e assaltos a pedestres motivou a Associação de moradores da Cidade Jardim a contratar carros de segurança privada e espalhar câmeras pelo bairro. Solange Melendez, diretora executiva da associação, afirma que a contratação destes serviços contribuiu para o aumento da sensação de segurança e redução de ocorrências.
“O projeto de carros de segurança privada já existe há sete anos e o de câmeras há três”, afirma. A estratégia adotada pelos moradores dos Jardins se repete em outras regiões nobres, como Vila Madalena e o Morumbi.
Essas iniciativas criam verdadeiros bolsões de segurança dentro da cidade. “É o que a gente chama de condomínio virtual”, diz Fábio Silveira, sócio da imobiliária Tamara Stief. Ele destaca o City Boaçava, subdistrito do Alto de Pinheiros, como um símbolo deste movimento.

“Os moradores se associaram para formar esse ‘condomínio aberto’. Todo mundo paga uma taxa por mês, o que financia o contrato de uma empresa de segurança que disponibiliza viaturas, serviços de zeladoria, sistema de inteligência e até acompanha os moradores enquanto eles abrem a garagem e entram em casa”, ilustra.
A empresa se encarrega de monitorar comportamentos suspeitos e inibir crimes, além de criar um perímetro de segurança. “O morador paga cerca de R$ 1.500 por mês, um valor relativamente modesto para ter o privilégio de morar em uma casa com jardim numa rua que não tem moto passando toda hora, sem trânsito e sem torres subindo na vizinhança”, descreve Silveira.
Valorização imobiliária
Entre os especialistas é unânime a ideia de que a segurança é item fundamental na procura de um lugar para morar. “É um dos principais critérios, especialmente para quem busca casas. Muitos compradores só consideram visitar imóveis que estejam em ruas já organizadas em torno da segurança”, diz Alvaro Marco Coelho da Fonseca, diretor executivo da Coelho da Fonseca.
“Uma residência em uma rua bem monitorada, com controle de acesso e vigilância ativa, tende a se destacar e converter mais rápido. Há um impacto direto na percepção de valor e no desejo de compra”, afirma.
Os moradores mais preocupados podem incrementar a segurança do próprio imóvel contratando outros serviços, como segurança particular.
Marcello Romero, CEO da imobiliária de luxo Bossa Nova Sotheby’s International Realty, comenta que cerca elétrica, câmeras privadas e sensores de presença com infravermelho estão se tornando cada vez mais comuns em imóveis localizados nos bairros nobres. Existe, ainda, um maior nível de precaução e cuidados na rotina.
“As pessoas evitam ter grandes valores em casa e tomam cuidado com os funcionários que frequentam o imóvel”, comenta. “Um condomínio de alto padrão tradicional tem taxas que podem ultrapassar R$ 20 mil. Ter um segurança armado na porta de casa todos os dias pode custar de R$ 7 mil a R$ 10 mil”, compara. “Tem muita gente que está fazendo essa conta”.

De fato, dados da própria imobiliária indicam que o número de transações de casas avaliadas em mais de R$ 2 milhões subiu quase 90% de janeiro a maio deste ano, em comparação ao mesmo período do ano passado.
Em Pinheiros, a alta foi de 380%, no Morumbi o número de vendas subiu 355% e na Cidade Jardim, 154,4%. “Uma coisa é receber seu amigo na área gourmet do seu prédio, outra é recebê-lo na sua área gourmet”, brinca Romero.
Sistemas de segurança e tecnologia avançada
Fundada em 2004, a Aster é uma empresa de segurança especializada em famílias que residem nestas casas de rua, com mais de 90% dos clientes localizados nas áreas nobres de São Paulo — incluindo a City Boaçava.
Segundo a companhia, os 1.700 colaboradores passaram por testes psicológicos, de perfil comportamental e personalidade, além de ser obrigatório ter uma certificação da Polícia Federal e manter treinamentos periódicos em dia.
Entre os serviços oferecidos pela companhia estão uma viatura que acompanha moradores e funcionários na chegada e saída de casa e câmeras com leitura de placas. Além disso, os carros trafegam pelo bairro para inibir ações criminosas e alertar falhas de segurança, como portões abertos.
“As viaturas também verificam veículos com atitude suspeita, que possam estar envolvidos no planejamento ou apoio a invasões nas residências. Nesses casos, os vigilantes mantêm distância segura, checam a placa e, se constatada alguma irregularidade, a polícia é acionada imediatamente”, explica Ricardo Cianciaruso, sócio-diretor da empresa.

O executivo afirma que a atuação dos vigilantes é preventiva, sem abordagens ou revistas. O custo do serviço de segurança varia de acordo com o número de clientes aderentes na região, a quantidade de viaturas e a abrangência do sistema de câmeras de segurança e central de monitoramento.
Cianciaruso conta que em alguns locais a taxa mensal é de menos de R$ 1 mil por mês, enquanto outros demandam pouco mais de R$ 1,5 mil por residência. “Não se trata de um serviço barato, mas é importante destacar que ele é prestado por vigilantes certificados pela Polícia Federal e contratados em regime CLT”, justifica.
A adesão ao serviço é voluntária, garante. “Quanto mais moradores participantes, melhor será a estrutura e menor o valor da mensalidade para todos. Os não aderentes são clientes em potencial”.
Câmeras e reconhecimento de placas
Também atento a essa oportunidade de negócio, a empresa de segurança Gabriel desenvolveu totens com câmeras para prevenir crimes. Ao todo, são mais de 13 mil câmeras instaladas em São Paulo e no Rio de Janeiro que filmam os bairros 24 horas por dia e armazenam as imagens por 14 dias.
“Além dos clientes que contratam o serviço, as gravações podem ser solicitadas pelos órgãos públicos por meio de ofício”, explica Lucas Schwartz, Head de Vendas da empresa.

Schwartz diz que as câmeras, batizadas de Camaleões, são instaladas em locais privados, mas voltadas para o espaço público. A companhia também garante que segue as diretrizes contidas na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Desta forma, não realiza reconhecimento facial dos transeuntes e não utiliza modelos preditivos para antecipar crimes.
Os preços para contratar o serviço variam de acordo com o tipo de tecnologia requerida, a largura do terreno e os pontos de vulnerabilidade. “Tenho clientes que pagam R$ 1 mil por mês e outros R$ 20 mil”, ilustra. Além de aumentar a sensação de segurança dos moradores, ele afirma que as câmeras inibem os criminosos.
“Já auxiliamos em mais de 680 prisões. Mas o que mais me orgulho é saber que nove pessoas foram inocentadas e 11 desaparecidos foram encontrados por causa da nossa tecnologia”, diz.
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Outra empresa que realiza um serviço de segurança privada é a sueca Verisure, que desembarcou no Brasil em 2011 e hoje tem 3 mil funcionários no País. Entre as soluções se destacam sensores de movimento para detecção de intrusos, central de monitoramento, câmeras de segurança e até um escudo de fumaça para espantar potenciais invasores.
“Os principais registros envolvem tentativa de invasão a residências, furtos em horários de ausência dos moradores e arrombamentos. Casos mais graves, como sequestro relâmpago, acontecem em menor escala, mas também estão no radar”, comenta Rodrigo Pedro Monteiro, diretor de Marketing da empresa.
Papel do estado
A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo comenta que nas áreas das 1ª, 2ª e 3ª Delegacias Seccionais — que abrangem os bairros citados pela reportagem —, os roubos em geral apresentaram queda de 12,69% no semestre, e o número de prisões aumentou 6,2%, com 9.065 infratores detidos. No mesmo período, 469 armas de fogo foram apreendidas nessas regiões.
A instituição explica que as polícias Civil e Militar conecta dados de diferentes plataformas públicas e privadas por meio do programa Muralha Paulista.
Em nota, a SSP diz que a integração permitiu fechar o primeiro semestre de 2025 com o menor número de roubos dos últimos 25 anos, tanto na capital quanto em todo o Estado, enquanto o número de prisões subiu 9% no território paulista.
Segundo o Estatuto da Segurança Privada, sancionado em 2024 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, essas empresas precisam da autorização da Polícia Federal para a atividade. A lei proíbe vigilantes autônomos e determina que as companhias privadas mantenham armas e munição em local seguro e controlado.
Essas companhias também precisam comprovar capital mínimo de R$ 100 mil (empresas de monitoramento eletrônico) a R$ 2 milhões (empresas que operam no transporte de valores).
A PF foi procurada pelo Estadão para explicar quais são os critérios e como funciona a fiscalização, mas não retornou o contato. Fato é que as forças policiais integram os equipamentos e a tecnologia dessas companhias ao aparato de segurança pública.
O decreto nº 68.828, de 2024, permite que “pessoas jurídicas concessionárias ou consorciadas” possam fornecer dados e usar os produtos do Muralha Paulista se houver interesse de segurança pública.
O Parque Jardim das Perdizes, por exemplo, instalou 60 totens com câmeras de segurança que monitoram a região 24 horas por dia e em tempo real. Liderada pela associação dos moradores do bairro, o projeto está conectado ao banco de dados da SSP-SP.
As informações são repassadas às polícias Militar, Civil e Científica, além da Guarda Civil Metropolitana. A tecnologia permite a identificação de veículos roubados, atividades suspeitas ou pessoas desaparecidas em um raio de até 4 km, acionando automaticamente as forças de segurança.





