A advogada e influenciadora Deolane Bezerra vendeu sua empresa de apostas Zeroum Bet por R$ 30 milhões a Daniel Trajano, ex-diretor da Esportes da Sorte, investigada por lavagem de dinheiro. A venda ocorreu sem autorização oficial para operar, e Deolane é investigada por suspeitas de crimes financeiros. A Justiça permitiu o funcionamento da Zeroum, mas a Advocacia-Geral da União tenta reverter a decisão. A empresa alega que o veto à operação fere a presunção de inocência.
BRASÍLIA – A advogada e influenciadora digital Deolane Bezerra vendeu por R$ 30 milhões uma empresa de apostas aberta por ela mesma no ano passado a um amigo da estrita confiança que era diretor-executivo da Esportes da Sorte, bet investigada em Pernambuco por suspeita de lavar dinheiro do jogo do bicho.
O empresário piauiense José Daniel Carvalho Saturnino, conhecido como Daniel Trajano, atuava no marketing da Esportes da Sorte e Deolane foi incluída na investigação por elos com movimentações financeiras suspeitas dessa bet pernambucana.
A Esportes da Sorte é de Darwin Henrique da Silva Filho, filho de Darwin da Silva, apontado como dono das bancas de jogo do bicho Caminhos da Sorte, no Recife (PE). Eles negam envolvimento com atos ilícitos.
Em nota, a Esportes da Sorte afirmou que Daniel Trajano não tem mais nenhuma vínculo com a empresa. A defesa criminal de Deolane Bezerra informou que não iria se manifestar. O advogado de Trajano disse que o contrato de compra prevê serviços de Deolane como influenciadora e que ela deixou o negócio por interesse em explorar outros ramos, como o de cosméticos (leia mais abaixo).
O Estadão apurou que autoridades pernambucanas monitoram o negócio fechado entre Deolane e Trajano e têm informações sobre negociação de carro de luxo entre ele e Darwin Filho. A compra, por Deolane, de um automóvel que pertencia a Darwin Filho foi um dos fatores que ligaram a influenciadora a suspeitas de crimes como lavagem de dinheiro e organização criminosa. Trajano não está oficialmente entre os investigados da Integration.

A Zeroum Bet foi criada em julho do ano passado por Deolane mirando a exploração de apostas. Os documentos da abertura têm a assinatura da advogada Adélia de Jesus Soares, investigada pela Polícia Federal e pela CPI das Bets por suspeitas de ajudar chineses a explorar apostas ilegais no Brasil. O esquema pode ter movimentado bilhões de reais nos últimos anos, segundo investigadores.
O advogado da Zeroum afirmou que Adélia “foi contratada pela gestão anterior e nunca prestou serviços para a plataforma após a aquisição” realizada por Daniel Trajano.
A reportagem não localizou representantes de Adélia Soares. Ela deve prestar um novo depoimento à CPI, no Senado, nesta quarta-feira, 14. O colegiado conseguiu na Justiça uma ordem para conduzi-la coercitivamente, após ela faltar a uma convocação anterior.

O ofício da Secretaria de Prêmios de Apostas (SPA), do Ministério da Fazenda, com as razões pelas quais a Zeroum teve a operação negada é do início de outubro. A empresa foi repassada a Trajano em novembro, segundo documentos obtidos pela reportagem.
Portanto, a venda foi sacramentada quatro meses após a fundação e sem que a bet tivesse qualquer autorização para funcionar regularmente.
Além do inquérito da Integration, a SPA citou na justificativa do indeferimento uma investigação de São Paulo na qual Deolane foi alvo de busca e apreensão por suspeita de participação em crime contra a economia popular e associação criminosa, em 2022.
Daniel Trajano e Deolane Bezerra aparecem juntos em publicações nas redes sociais e trocando declarações sobre a força da amizade de ambos. “Obrigada pela parceria, pela amizade e [por] nunca ter soltado a minha mão”, escreveu a influenciadora. “Se o ‘Esportes dá Sorte’, a vida deu à minha família Deolane”, registrou o empresário, em 2023.

Apesar de, no papel, Deolane ter passado a empresa ao amigo, o site principal da Zeroum mantém referências a ela. Além disso, a equipe de advogados da influenciadora entrou na Justiça, em nome dela, para reverter o veto da SPA no mesmo dia da venda da empresa para Daniel Trajano.
“Deolane Bezerra só assinou a procuração no dia 13/11/2024 (para entrada do processo na Justiça) porque a alteração de contrato social – que já estava devidamente assinada – ainda não tinha sido registrada pela Junta Comercial de São Paulo”, justificou o atual advogado da Zeroum, Pedro Iokoi. Ele ganhou procuração em abril.

A reportagem perguntou aos advogados de Trajano o porquê da compra de uma empresa sem autorização para funcionar. A relevância do negócio, na versão dele, passaria pela força dos mais de 20 milhões de seguidores de Deolane, mantida no contrato de compra e venda como influenciadora imbuída de atrair apostadores.
“A referida aquisição se deu com uma série de condições previstas no contrato celebrado entre comprador e vendedora, por meio do qual ele se assegurou que a Sr. Deolane Bezerra Santos prestasse serviços de influenciadora digital mantendo a promoção e notoriedade da plataforma, sem que os seguidores dela fossem direcionados para outra plataforma”, destacou Iokoi.
Deolane Bezerra pediu aval para explorar apostas com a Zeroum em agosto, dentro do chamado “período de adequação”, que vigorou até 31 de dezembro. O pedido foi negado.
A avaliação dos técnicos do governo é a de que os possíveis desdobramentos do inquérito de Pernambuco comprometem a idoneidade exigida. No ofício de outubro, a SPA pontuou que o veto é necessário “até que haja a completa apuração dos fatos, para resguardar e proteger a moralidade e o interesse públicos, especialmente os relacionados aos direitos dos apostadores”.

Conforme a Lei 14.790/2023, a autorização é “ato administrativo discricionário” do governo, a quem cabe conceder outorgas para exploração de apostas e fiscalizar os operadores autorizados. O serviço não é uma atividade econômica livre que pode ser prestada por qualquer pessoa por livre iniciativa.

A Zeroum afirma que o veto é uma afronta à presunção de inocência, já que existe somente uma investigação em andamento. A empresa, que registrou três sites de apostas, só conseguiu uma autorização no mês passado, por meio de decisão judicial.
Uma decisão da Justiça Federal em São Paulo liberou o funcionamento da bet no mês passado. É uma decisão do primeiro grau que a Advocacia-Geral da União (AGU) tenta derrubar. A empresa alega que barrá-la por causa de uma investigação em andamento é uma afronta à presunção de inocência e não pode significar atestado de inidoneidade.
A decisão favorável à bet veio após seis meses de uma batalha judicial com idas e vindas e ações iguais movidas paralelamente em São Paulo e no Distrito Federal. A AGU chegou a classificar a estratégia como “abusivo exercício do direito de ação” para “burlar decisões desfavoráveis” e “encontrar juízos favoráveis ao seu pleito de liminar”.
“Tão patente a má-fé que estes autos foram maliciosamente distribuídos em segredo de justiça, na esperança que a liminar fosse deferida anteriormente ao conhecimento pela União do feito”, destacou a advocacia pública em um recurso.
Com a autorização pela via judicial, a Zeroum não pagou a outorga de R$ 30 milhões cobrada das demais empresas. O pedido de funcionamento apresentado por ela foi arquivado em 2024 por falta de respostas às notificações da SPA para solução de pendências.
Com isso, o governo nem sequer tem formalmente a informação da troca de dono da empresa. Uma autorização ao funcionamento dessa empresa pela via administrativa, no Ministério da Fazenda, só poderá ser obtida a partir de um novo pedido. O prazo para análise é de 150 dias.





