DEPARDIEU GANHA ATÉ CASA NA RÚSSIA

Ator francês, que foge dos impostos de Hollande, pode ainda ser convidado a ocupar ministério

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Por PARIS

As ameaças do ator Gérard Depardieu se concretizaram. Desde a noite de sábado, o "enfant terrible" do cinema francês é cidadão russo. Três semanas depois de tornar pública sua intenção de abandonar a França, renegar sua nacionalidade e mudar seu domicílio fiscal para o exterior, Depardieu recebeu das mãos do presidente da Rússia, Vladimir Putin, o seu novo passaporte. Cortejado pelas autoridades do país, até um cargo de ministro da Cultura lhe foi oferecido.Depardieu anunciara em dezembro a intenção de abandonar Paris, inconformado com o imposto provisório sobre fortunas criado pelo presidente François Hollande. Pela legislação, que deverá vigorar em 2014 e 2015, todo salário anual acima de € 1 milhão será taxado em 75% pelo fisco nacional. O imposto agregaria aos cofres públicos pouco mais de € 500 milhões, segundo cálculos do Ministério da Economia. Mas a intenção do governo socialista é enviar um recado à opinião pública - o de que as classes mais abastadas também têm de participar do reequilíbrio das contas do Estado.A iniciativa, entretanto, não agradou os milionários franceses. Em setembro, o magnata da indústria do luxo Bernard Arnault, proprietário da LVMH e de marcas como Louis Vuitton, deu início à polêmica ao anunciar sua intenção de solicitar a nacionalidade belga. Em dezembro, Depardieu chegou a fazer pedido a Bruxelas, mas quem lhe ofereceu abrigo fiscal foi Putin. O governo russo pretende fazer do ator, indicado ao Oscar pelo filme Cyrano de Bergerac (1990), o garoto-propaganda da nova faixa de imposto de renda, de 13%, criada para atrair grandes fortunas.No sábado, Depardieu foi recebido por Putin na cidade de Sotchi. As imagens de TV feitas por uma emissora russa mostraram os dois trocando um caloroso abraço. O ator saudou o presidente: "É bom te rever". Outras imagens mostraram os dois conversando sobre cinema em torno de uma mesa, com o auxílio de intérpretes. O ator recebeu o passaporte nessa ocasião, segundo um porta-voz do Kremlin. Ontem, já de posse do novo documento, Depardieu foi recebido na cidade de Saransk, capital da Mordóvia. Ao chegar, mostrou seu passaporte ao grupo de jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas que o esperavam. "Estou muito contente", disse Depardieu. "É muito bonito aqui."Segundo as agências Interfax e Ria Novosti, o presidente da Mordóvia, Vladimir Volkov, ofereceu ao ator a escolha de um apartamento ou de uma casa na cidade. Além disso, Volkov estaria pronto para convidar Depardieu a assumir o posto de ministro da Cultura local. "Se Depardieu o desejar, podemos oferecer esse posto."Trabalho forçado. Os desdobramentos do caso provocaram nova onda de ironias na França. Nas redes sociais, uma campanha foi lançada pedindo que Hollande conceda a nacionalidade francesa às integrantes do grupo Pussy Riot, condenadas a dois anos de trabalho forçado por protestarem contra Putin em fevereiro de 2012. A Mordóvia, famosa por seus campos de trabalho forçado, é onde uma das integrantes do grupo cumpre pena.Se retornar à França para buscar seus pertences, Depardieu terá de comparecer à Justiça. Isso porque o ator, de 64 anos, será julgado na terça-feira por um caso de embriaguez no trânsito. O flagrante aconteceu em 29 de novembro, em Paris, quando Depardieu sofreu um acidente de scooter. Como os exames indicaram a taxa de 1,8g de álcool por litro de sangue - contra 0,5g autorizado -, o ator corre o risco de ser condenado a uma pena que varia de multa de € 4,5 mil a dois anos de prisão, com apreensão de sua carteira. / A.N.