PUBLICIDADE

Haddad não crava que fica na Fazenda e diz que já entregou ‘tudo que Lula encomendou’

Ministro afirma que gratuidade do transporte público está sendo estudada, mas não será para o ano que vem e ‘só será viável se for fiscalmente neutra’

PUBLICIDADE

Foto do autor Fernando Dantas
Foto do autor Alvaro Gribel
Foto do autor Célia Froufe
Atualização:
Foto: WILTON JUNIOR
Entrevista comFernando Haddadministro da Fazenda

BRASÍLIA - O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, diz estar satisfeito com sua atuação à frente da pasta e afirma que já entregou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva tudo o que lhe foi encomendado. Em entrevista exclusiva ao Estadão/Broadcast, ele deixou em aberto a sua continuidade no cargo caso Lula seja reeleito. “Não sei se tenho pretensão de continuar na Fazenda”, considerou.

Haddad também comentou o pedido do presidente de fazer um estudo sobre a gratuidade de transporte público, tema alavancado recentemente pelo deputado federal Jilmar Tatto (PT-SP). Para muitos, inclusive dentro do governo, esta pode ser a principal bandeira da campanha de 2026, junto à ampliação da isenção do Imposto de Renda para R$ 5 mil mensais, que deve ser sancionada na semana que vem.

O ministro afirmou, porém, que não vai ter pressa em terminar esse estudo e que a medida não é para o ano que vem. Haddad explicou que reuniu sua equipe para começar a tratar do tema e que há muitas possibilidades sobre a mesa. De qualquer forma, segundo ele, o projeto só irá adiante se tiver alguma fonte de compensação. “(A tarifa gratuita) só será viável se for fiscalmente neutra. Se não, não vamos fazer. Não tenho espaço fiscal para isso”, afirmou.

Haddad também relatou que não há novidades sobre um possível reajuste para o Bolsa Família no ano que vem. “Ninguém falou comigo sobre isso”, disse. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Publicidade

'A tarifa gratuita só será viável se for fiscalmente neutra. Se não, não vamos fazer', diz Haddad Foto: Diogo Zacarias/Ministério da Fazenda

Como foi a reunião do sr. e outros ministros no Palácio do Planalto nesta quinta-feira?

O tema foi segurança pública, à luz do que tramita no Congresso: PEC da segurança pública, lei do devedor contumaz, lei anti-facção, lei sobre receptação. Fomos discutir um pouco esses diplomas legais - um dos quais há oito anos está tramitando no Congresso Nacional, lei importantíssima que pega o crime organizado pela lavagem de dinheiro. Fizemos um balanço e há imperiosa necessidade de que a União atue na segurança pública, que não está prevista na Constituição Federal. A PEC da segurança abre uma possibilidade grande de troca de informações, trabalho de inteligência, coordenação interfederativa. (A participação da União) não pode depender só de boa vontade. Tem de ter comandos constitucionais que estabeleçam a regra, não a exceção.

Como se faz isso?

Tivemos o pacto federativo em torno da reforma tributária. Já houve pacto federativo para construir o SUS. O Brasil sabe fazer pactos federativos. E aí, ao invés da disputa política partidária, você tem a operação federativa como política de Estado - o que dá consistência para a atuação do Estado brasileiro. Na segurança, está faltando um pacto federativo.

O mercado financeiro parece feliz: a Bolsa está batendo recordes, o dólar se acomodou. O mercado está mais satisfeito com o governo do que o PT?

O PT melhorou comigo, embora sempre tenha sido legal comigo. O PT é um mosaico de pensamentos críticos e eu gosto desse partido por causa disso. Você pode ser ministro, presidente, governador - você é tratado igual. Então, todo mundo fala. E aí, obviamente, o que é notícia? A crítica de um petista ao ministro da Fazenda. Não tem problema com isso.

O sr. se preocupa com a possibilidade de o mercado ficar nervoso com o pacote eleitoral para o ano que vem?

Não estou com pacote nenhum de gastos na mesa.

Publicidade

Mas já há várias medidas em andamento, como o projeto da isenção das tarifas para os ônibus municipais...

O presidente me pediu para estudar o setor. Não tenho uma proposta, estamos fazendo uma radiografia. Quanto está entrando de tarifa, de subsídio, de vale-transporte que as empresas pagam? Quanto dos 6% do trabalhador? Estamos fazendo um diagnóstico. Não vou fazer nada com pressa. (Sobre a isenção até R$ 5 mil do) Imposto de Renda, todo mundo dizia o seguinte: ou não faz ou vai estourar as contas públicas. Eu falei: não vou fazer para estourar as contas públicas. Ou vai sair equilibrado ou não vai sair.

O que mais o sr. pode falar sobre o projeto de isenção da tarifa de ônibus?

Primeiro, não é para o ano que vem. Nem poderia fazer no ano que vem, porque tem legislação eleitoral. Mas o presidente pode (incluir) na sua plataforma política, se tiver uma coisa bem desenhada. O trabalho que eu estou fazendo, se terminar a tempo, vai ser publicizado e cada candidato que se vire para assimilar ou não assimilar. No IR, eu não mandei a proposta antes de ter certeza de que era neutra (em termos fiscais). (A tarifa gratuita) só será viável se for fiscalmente neutra. Se não, não vamos fazer. Não tenho espaço fiscal para isso. Não vou criar espaço fiscal para isso. E tem de ser uma coisa inteligente - como, na minha opinião, foi o Imposto de Renda.

A tarifa gratuita só será viável se for fiscalmente neutra. Se não, não vamos fazer. Não tenho espaço fiscal para isso.

Fernando Haddad

O Bolsa Família pode ser reajustado no ano que vem?

Ninguém falou comigo sobre isso. Nós temos de olhar também os efeitos dos programas sociais sobre o mercado de trabalho. Porque, às vezes, você está achando que está ajudando e está atrapalhando. As pessoas querem trabalhar, se desenvolver. Então, tem de calibrar a distância entre o salário mínimo e o Bolsa Família. O último Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) deu 213 mil postos de trabalho (de saldo) e foram mais de 2 milhões de pessoas que saíram do Bolsa Família. Então, você vai construindo com inteligência os parâmetros corretos para que a pessoa não se sinta desassistida. Ela está em um País que não quer que ela passe fome, mas sabe que ela quer uma oportunidade.

O sr. conseguiu convencer o presidente Lula de que não quer disputar um cargo eletivo em 2026?

Não estou conversando ainda sobre isso, mas ele sabe da minha inclinação. Já há muito tempo, não é de agora. Foi no ano passado que falei para ele que eu não tinha intenção de ser candidato em 2026.

Publicidade

O sr. vai estar na Fazenda em maio do ano que vem?

Eu não sei, não conversei com ele (Lula) ainda. Eu já falei que entreguei tudo aquilo que ele encomendou. O que ele encomendou, eu entreguei.

Por essa fala, está parecendo que o sr. já cumpriu a missão. O sr. pretende continuar ministro da Fazenda num eventual quarto mandato do Lula?

Não sei se eu tenho essa pretensão, vamos ver.

O sr. tem uma interlocução razoável com o mercado financeiro. Não teme que uma eventual saída possa provocar nervosismo?

Eu não acredito nisso, penso que o desafio da incorporação dessa agenda (econômica) foi superado. No último encontro do PT, há pouco tempo, lá pelas tantas alguém resolveu submeter ao plenário a aprovação ou não da política econômica do governo. E eu, sinceramente, gostei da iniciativa. Vamos ver como está a essa altura do campeonato. E assim, no visual, 80% a 20% (se manifestaram) a favor da política econômica.

O sr. acha que o PT evoluiu nesse sentido?

O que você quer é a cura do paciente. Se surgir um medicamento novo, que é melhor do que o antigo, vamos fazer. Se curar igual, por que você vai ficar chateado comigo? O Brasil pode inovar, tem que inovar. A disputa entre os Estados nacionais está mais acirrada do que nunca. Novos players entrando, China, Argentina, Indonésia. Novas tecnologias. Se o Estado ficar parado e não começar a pensar…

Publicidade

As estatais viraram um risco? O empréstimo de R$ 20 bilhões com aval do Tesouro, pedido pelos Correios, não é muito arriscado?

É, e é por isso que o Tesouro está sendo muito criterioso em aceitar. Ou há um plano de reestruturação da empresa, e isso é possível, ou não há. A proposta da nova diretoria é de reestruturação, não é um band-aid. Estão, inclusive, em um processo de negociação lento, mas são reuniões a cada dois, três dias, tem uma equipe só olhando para isso. Se a equipe do Tesouro validar o plano de reestruturação, pode ter o aval do Tesouro. Mas ele precisa validar.

Como o sr. vê a deterioração das estatais?

Tem uma parte disso (déficit) que é investimento, mas você sabe como é a contabilidade das estatais. Na questão dos Correios, não é isso.

Há alguma outra que preocupe?

Tem uma decisão para se tomar sobre a Eletronuclear. É um investimento feito nos anos 70, e muito problemático, que se agravou com a venda da Eletrobras.

Publicidade

Qual é a visão da Fazenda? Termina Angra 3?

Não vou antecipar, mas estamos firmando um posicionamento para levar para o presidente Lula, meio que definitivo. A decisão que ele vai tomar eu não sei, porque vai haver outras (opiniões), mas eu acredito que a gente tenha chegado, depois de uma década de incerteza sobre isso, a um posicionamento firme. E eu penso que pode ter uma convergência de vários atores do governo.

Veja a íntegra da entrevista:

Entrevista exclusiva | Fernando Haddad

Ministro da Fazenda conversa com jornalistas do Estadão e Broadcast; assista à íntegra. Crédito: Isabella Almada/Estadão