Haddad prevê recuo de Trump na taxação ao Brasil: ‘Vai encarecer o café da manhã americano?’

Ministro da Fazenda questiona investigação americana em várias frentes sobre economia brasileira: ‘EUA deveriam estar copiando o Pix’. Veja vídeo

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Haddad afirma que não trabalha com hipótese de não superar ameaça de Trump

Ministro afirma que ação de presidente dos EUA vai encarecer café e suco de laranja de americanos.

Foto: Wilton Junior/Estadão
Entrevista comFernando HaddadMinistro da Fazenda

BRASÍLIA – O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse não trabalhar com a hipótese de o Brasil não superar as ameaças feitas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de taxar os produtos vendidos pelo País em 50% a partir de agosto. “Isso atrapalha a economia deles”, afirmou, em entrevista exclusiva ao Estadão/Broadcast.

Haddad evitou estimar impactos para a economia brasileira da medida e das novas investigações abertas pelo governo dos EUA que citam temas como desmatamento, pirataria e até o Pix. “Os Estados Unidos deviam estar copiando o Pix. Você não se incomoda com criptomoeda e vai se incomodar com o Pix? Qual é o sentido disso?”, questionou. Veja abaixo os principais pontos da entrevista:

Os Estados Unidos anunciaram uma investigação comercial de várias frentes na economia brasileira, inclusive o Pix. Chegaram a mencionar a Rua 25 de Março…

Deve ter sido por minha causa, trabalhei 18 anos lá…

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De que forma o governo vai reagir a essa investigação agora que há novos elementos além da promessa de taxar 50%?

Nós estamos procurando qual é a racionalidade, o que está, de fato, por trás dessa iniciativa. Porque, por exemplo: nós, em maio, apresentamos uma proposta de negociação (à taxação então de 10%). Sem que houvesse sequer uma resposta à proposta que o Brasil fez, veio a taxação de 50%. Foram dez reuniões. Acho que não conta com a minha que tive com o (secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott) Bessent na Califórnia. E ele próprio, na reunião que teve comigo, disse que negociaria a tarifa de 10%, diante da minha provocação de que não fazia sentido tarifar um país deficitário em relação ao comércio de bens e serviços com os Estados Unidos. Ele falou que há espaço para um entendimento, para uma negociação. Se com 10% havia espaço para uma negociação, do que nós estamos falando? O que o Pix pode incomodar?

As empresas de cartão de crédito?

Mas vamos supor que seja isso. Você vai abrir mão de um instrumento que foi desenvolvido com tecnologia brasileira, que vai baratear as transações financeiras? Os Estados Unidos deveriam estar copiando o Pix. O Pix pode ser exportado como uma tecnologia que vai facilitar muito a vida das pessoas. Você não se incomoda com criptomoeda e vai se incomodar com o Pix? Qual é o sentido disso? É difícil compreender. É só lobby das empresas de cartão de crédito? É disso que nós estamos falando? Isso não está claro para nós. A questão do desmatamento? O presidente Trump manifesta apoio e admiração ao ex-presidente Bolsonaro, que foi o maior responsável pelo aumento do desmatamento. Nós estamos revertendo o desmatamento. Este País vai ser penalizado? Qual é o sentido disso? Fica difícil entender.

Mas se o sr. diz que não há racionalidade econômica, o que há por trás da decisão?

Eles estão percebendo uma vulnerabilidade do Brasil em virtude do fato de ter uma força política, que é a extrema direita bolsonarista, concorrendo para os interesses americanos; eles estão aproveitando essa oportunidade. (Eles devem estar pensando:) “Quando é que nós vamos nos deparar com essa mesma situação no futuro? De uma força política, que tem capital político, estar defendendo os nossos interesses americanos. É uma oportunidade de ouro para nós, colocarmos o Brasil numa situação difícil.”

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Fernando Haddad, ministro da Fazenda, evita estimar impactos para a economia brasileira da taxação anunciada por Trump Foto: Wilton Junior/Estadão

Na implementação da Lei da Reciprocidade, foi criado um grupo e coube à Fazenda analisar os impactos das medidas do governo Trump. O sr. já tem os impactos das tarifas de 50% sobre a importação dos produtos brasileiros?

Nós temos esse prazo (até 1º de agosto), que tem que ser usado com muita sabedoria. O presidente Lula não quer um arroubo, não é o estilo do presidente. Ele quer tratar com a seriedade devida. Do mesmo jeito que ele quer ser respeitado enquanto chefe de Estado, ele também respeita a soberania de outro país. Mas nós temos que usar esse tempo para encontrar o caminho da superação de uma coisa traumática.

Mas qual o potencial de estrago que a taxação pode ter sobre economia brasileira?

Neste momento, eu nem trabalho com a hipótese de a gente não superar esse negócio, porque vai atrapalhar a economia deles. Você tem uma forma de produzir hoje completamente diferente, as cadeias hoje são muito mais fragmentadas. Pensa na produção de um avião da Embraer: 45% dos componentes vêm dos Estados Unidos. E uma boa parte dos aviões são vendidos nos Estados Unidos. O suco de laranja é envasado lá nos Estados Unidos. Então, vai ter uma fábrica parada lá por falta do suco daqui. E qual é o sentido de taxar suco, café, carne? São coisas que vão encarecer o café da manhã do americano. Então, vai vendo como isso não faz muito sentido, do ponto de vista econômico.

O prazo até agosto é suficiente ou pode ser prorrogado?

A maioria dos empresários com quem nós conversamos diz que o prazo é bom, mas ele não resolve, porque os contratos vão sendo fechados. Se você prolonga isso também demais, vai perder muitos negócios enquanto as coisas não estão decididas. Como é que alguém vai comprar alguma coisa do Brasil sem saber a tarifa que vai incidir sobre o bem adquirido? Vai ficando difícil fazer negócio. O ideal é que haja uma força-tarefa rápida, coloque os pontos, olhe o que está pegando, o que nós podemos fazer para que possamos sair dessa situação o mais rapidamente possível. A determinação do presidente Lula é que nós tenhamos um mapa de tudo rapidamente e que esse diálogo aconteça em bases nacionais para que o Brasil não sofra.

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Veja a íntegra da entrevista:

Haddad detalha reforma do IR, reação a Trump e critica Bolsonaro em entrevista ao Estadão; assista

O ministro da Fazenda falou sobre os desafios do governo com o Congresso, fez críticas à família Bolsonaro e ironizou do deputado Nikolas Ferreira. Crédito: Wilton Junior/Estadão

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