Viradas na Grande São Paulo e avanço no Rio ajudam a explicar vitória de Lula sobre Flávio
Presidente impõe derrota a Flávio Bolsonaro (PL) e conquista a reeleição no País. Crédito: Estadão
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A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para o comando do Brasil nos próximos quatro anos é vista como positiva e ao mesmo tempo desafiadora para a agenda de políticas ESG nas empresas, em virtude do diálogo com o mercado. Essa é a avaliação de líderes e especialistas da área ouvidos pelo Estadão. O desfecho da disputa presidencial ocorreu no domingo, 25, no segundo turno das eleições, quando o atual presidente derrotou o senador Flávio Bolsonaro (PL) por 51,79% por 48,21% dos votos.

Como, historicamente, os mandatos do presidente eleito são conhecidos por ter forte atuação dentro da agenda, as lideranças entrevistadas consideram que novo ciclo de governo renova expectativas para políticas ligadas aos temas, com o desafio de manter alinhadas as ações públicas com as demandas da sociedade civil e com as decisões do setor privado.
Por outro lado, o governo também terá de lidar com reações de rejeição do mercado, como foi visto nesta segunda-feira, 26, nas negociações na Bolsa, com o acionamento do circuit breaker, diante da queda nas ações.
Confira as análises dos entrevistados:
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Margareth Goldenberg - gestora executiva do Movimento Mulher 360

“Vejo a reeleição do presidente Lula como um sinal de continuidade das políticas públicas voltadas à sustentabilidade, aos direitos humanos e à redução das desigualdades, temas que estiveram presentes nas prioridades do governo nos últimos quatro anos. Acredito que essa continuidade pode favorecer o fortalecimento da agenda ESG nas empresas brasileiras. Nesse período, tivemos iniciativas importantes, como a Lei de Igualdade Salarial, a retomada de políticas de proteção ambiental e o fortalecimento de ações voltadas à promoção dos direitos humanos. São medidas que, de alguma forma, também influenciam as decisões e as práticas das empresas. Mas não acredito que a continuidade dessas políticas, por si só, garanta avanços. O cenário econômico, as pressões internacionais e as decisões das próprias lideranças empresariais também têm um peso importante. Na agenda de diversidade, equidade e inclusão, por exemplo, o que tenho observado no meu trabalho com as empresas é muito mais um movimento de reconfiguração do que de retrocesso. Muitas organizações estão revendo a forma de comunicar, estruturar e conectar essas iniciativas aos desafios do negócio, sem necessariamente abandonar seus compromissos. Temos uma oportunidade de aproximar ainda mais as políticas públicas da atuação das empresas. O governo tem um papel importante ao estabelecer diretrizes e criar condições para que essas agendas avancem, mas o setor privado também precisa fazer a sua parte. A continuidade das políticas públicas pode abrir caminhos, mas o avanço do ESG não pode depender apenas do governo. As empresas precisam assumir seu papel e mostrar, na prática, que esses compromissos fazem parte das suas decisões e da forma como conduzem seus negócios.”
Guibson Trindade - gerente executivo e cofundador da Associação Pacto de Promoção da Equidade Racial

“A reeleição do presidente Lula inaugura um novo ciclo de expectativas para a agenda ESG no Brasil. O resultado eleitoral influencia as prioridades do governo, o ambiente regulatório e as relações entre Estado, empresas e sociedade civil, mas há uma questão que precisa ser colocada desde o início: a continuidade da agenda de sustentabilidade e equidade racial não pode depender exclusivamente das escolhas de um governo. Ela também está condicionada à disposição das empresas de incorporar esses compromissos às suas estratégias, estruturas de governança e decisões de investimento. Um dos aspectos relevantes desse cenário é a relação entre o governo e a sociedade civil. A existência de canais institucionais de diálogo com movimentos sociais, organizações e representações populares amplia as possibilidades de participação na formulação e no aperfeiçoamento das políticas públicas. O Conselho de Participação Social da Presidência da República, criado em 2023, exemplifica esse esforço de interlocução. Para populações historicamente sub-representadas nos espaços de poder, esses mecanismos podem ampliar as oportunidades de reivindicação, colaboração e incidência política. Com a reeleição de Lula, será importante acompanhar como as prioridades do governo se traduzirão em políticas públicas, articulação com o setor privado e mecanismos de participação social.”
Lígia Maura Costa - coordenadora do Centro de Estudos em Ética, Transparência, Integridade e Compliance da Fundação Getúlio Vargas (FGVethics)

“Minha expectativa é de que as políticas ESG enfrentem forte pressão financeira. O circuit breaker após a eleição presidencial evidencia a reação do mercado. A alta do dólar e dos juros futuros encarecerá o crédito e comprometerá investimentos ambientais e sociais. As decisões do governo eleito sobre responsabilidade fiscal, gastos públicos e segurança jurídica terão impacto direto sobre a capacidade das empresas de financiar esses projetos. Nesse cenário, entendo que o G, de governança, precisa assumir papel central. A efetividade da agenda ESG depende de que o próprio governo cumpra os padrões que cobra das empresas: integridade, transparência, combate à corrupção, prevenção de conflitos de interesses e responsabilidade nas decisões. O governo eleito deve, portanto, ser avaliado com o mesmo rigor exigido do setor privado. Se não houver integridade na atuação do governo, faltará à agenda ESG a credibilidade necessária para produzir resultados concretos, principalmente diante dos desafios econômicos.”
Jandaraci Araujo - cofundadora do Instituto Conselheira 101

“A reeleição do presidente Lula sinaliza uma perspectiva de continuidade e aprofundamento das políticas de sustentabilidade no Brasil. Mas é importante compreender que continuidade não significa, necessariamente, avanço. O verdadeiro desafio será transformar compromissos políticos em resultados concretos para a economia, a sociedade e o meio ambiente. O programa de governo reforça compromissos com a transição energética, o desmatamento zero até 2030, o financiamento climático, a bioeconomia e a redução das desigualdades. Temos também instrumentos importantes já estabelecidos, como o Plano de Transformação Ecológica, o Fundo Clima, o Eco Invest Brasil, a Taxonomia Sustentável Brasileira e o mercado regulado de carbono, cuja implementação deverá ganhar relevância no próximo mandato. Do ponto de vista internacional, a continuidade dessas políticas tende a reduzir incertezas para investidores interessados na economia de baixo carbono. Mas o mercado não avalia apenas discursos, observa a previsibilidade regulatória, segurança jurídica, responsabilidade fiscal e capacidade de execução. Também precisamos reconhecer as contradições, especialmente entre a ambição climática e a expansão da exploração de petróleo. Essa tensão precisará ser enfrentada com transparência e decisões consistentes. Para as empresas brasileiras, espero uma pressão crescente para que ESG deixe de ser uma agenda de compromissos públicos e se consolide como parte da estratégia, da gestão de riscos, da inovação e da alocação de capital.”
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Paulo Simonetti - gerente de Inovação e ESG do Instituto de Conservação e Desenvolvimento da Amazônia (Idesam)

“As políticas ESG partem da necessidade de mitigar riscos para a empresa nos contextos sociais, ambientais e de governança. O resultado das eleições presidenciais demonstram a preocupação da sociedade brasileira frente ao controle de riscos nesses temas. Portanto, empresas que possuem políticas maduras de ESG e divulgam isso podem se posicionar frente à sociedade, ampliando seu reconhecimento e capital social, o que pode refletir em retenção e atração de talentos, posicionamento de marca e até mesmo diferenciação da concorrência.”
Ricardo Sales - presidente e fundador do Instituto Mais Diversidade

“Espero que o governo fortaleça os mecanismos de regulação e fiscalização e, ao mesmo tempo, aperfeiçoe os incentivos para que as empresas desenvolvam ações complementares de inclusão que possam se somar às políticas públicas. Além de punir irregularidades, é importante encorajar boas práticas. Acredito também que precisamos ampliar a participação e fortalecer o controle social, dando mais voz à sociedade na formulação e no acompanhamento dessas políticas. Por fim, considero fundamental avançar com a Política Nacional de Empresas e Direitos Humanos e com as políticas de inclusão produtiva, gerando trabalho digno sobretudo para mulheres, pessoas LGBTQIA+, negras, mais velhas e com deficiência.”


