Inflação recua em agosto; o que esperar daqui em diante?
IPCA segue acima do teto da meta, mas projeções têm recuado ao longo deste ano. Crédito: Luiz Guilherme Gerbelli
Gerando resumo
RIO E SÃO PAULO - O Bônus de Itaipu (um repasse que ocorre quando há saldo positivo na Conta de Comercialização da Energia Elétrica da usina), creditado nas contas de luz emitidas em agosto, ajudou a arrefecer o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de uma alta de 0,26% em julho para uma queda de 0,11% em agosto, informou nesta quarta-feira, 10, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O resultado significou a primeira deflação no País em um ano. Embora tenha ficado um pouco aquém das projeções de analistas do mercado financeiro ouvidos pelo Projeções Broadcast, que estimavam um recuo mediano de 0,16%, a queda no IPCA de agosto foi a mais acentuada desde setembro de 2022.
A taxa acumulada em 12 meses desacelerou pelo segundo mês consecutivo, descendo a
5,13% em agosto, ainda acima da meta de 3% perseguida pelo Banco Central, cujo teto de tolerância é de 4,50%.
O qualitativo do IPCA de agosto veio melhor do que o indicado pela prévia apurada pelo IPCA-15 no mês, especialmente no comportamento da inflação de serviços, mas ainda há medidas que demandam cautela, indicando que o processo de desinflação esteja perdendo força, avaliou André Valério, economista sênior do Banco Inter.
“Com isso, ainda devemos observar um Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) cauteloso na reunião da próxima semana, recebendo como boas notícias os dados recentes da economia brasileira, mas ainda julgando insuficiente para iniciar a discussão de flexibilização da política monetária”, previu Valério, em comentário.
O resultado de agosto dificilmente mudará o tom do comunicado do Banco Central na semana que vem, quando o Copom anunciar a decisão sobre a taxa básica de juros, a Selic, corroborou Liam Peach, economista sênior de mercados emergentes da Capital Economics.
“Os juros serão mantidos em 15%”, disse a consultoria em relatório, acrescentando, porém, que a inflação deve desacelerar um pouco mais nos próximos meses e abrir espaço para a redução da Selic na virada do ano. “Achamos que os juros vão cair mais do que a maioria espera até o final do ano que vem, para 11,25%, ante consenso de 12,50%”, afirmou Peach.

Em agosto, cinco dos nove grupos de produtos e serviços que integram o IPCA registraram quedas de preços, incluindo os três de maior peso no orçamento das famílias: Habitação (-0,90%), Alimentação e Bebidas (-0,46%) e Transportes (-0,27%).
A energia elétrica residencial recuou 4,21% em agosto, subitem de maior alívio individual no IPCA do mês, uma contribuição de -0,17 ponto porcentual. A redução foi decorrente da incorporação do Bônus de Itaipu, “creditado nas faturas emitidas no mês de agosto”. O IBGE lembra que esteve em vigor no mês passado a bandeira tarifária vermelha patamar 2, que adiciona R$ 7,87 à conta e luz a cada 100 Kwh consumidos. Houve ainda reajustes nas tarifas em São Luís, Vitória, Belém e São Paulo.
Os preços dos alimentos recuaram em agosto pelo terceiro mês consecutivo, após uma sequência de nove meses de aumentos. A melhora recente tem relação com uma maior oferta de produtos no mercado doméstico, em meio à ocorrência de safras melhores, mas possivelmente também com alguma influência do tarifaço anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra alguns produtos exportados pelo Brasil para o mercado norte-americano. A avaliação é de Fernando Gonçalves, gerente do IPCA no IBGE.
Segundo ele, os itens com reduções de preços, como café moído e frutas, apresentam maior oferta no mercado doméstico. Os recuos nos custos no varejo podem embutir já uma expectativa de queda do preço por conta de uma menor exportação futura em função do tarifaço, assim como uma possível redução em si na demanda pelas exportações brasileiras de determinados produtos. Porém, ainda não é possível precisar a ocorrência do fenômeno.
“Eu não tenho como precisar se tem impacto do tarifaço”, ponderou Gonçalves.
O custo da alimentação no domicílio caiu 0,83% em agosto. Ficaram mais baratos o tomate (-13,39%), batata-inglesa (-8,59%), cebola (-8,69%), arroz (-2,61%) e café moído (-2,17%). Já a alimentação fora de casa subiu 0,50%: o subitem lanche avançou 0,83%, e a refeição fora de casa aumentou 0,35%.
Quanto aos transportes, houve recuo de 2,44% no preço da passagem aérea, uma redução considerada sazonal, terminada a alta na demanda nas férias de julho, justificou Fernando Gonçalves, do IBGE.
Os combustíveis ficaram 0,89% mais baratos em agosto. A gasolina recuou 0,94%, segundo maior impacto negativo no IPCA do mês, -0,05 ponto porcentual, atrás apenas da contribuição da energia elétrica. Houve redução também nos preços do gás veicular (-1,27%) e do etanol (-0,82%), enquanto o óleo diesel subiu 0,16%.
Fernando Gonçalves pondera que a deflação registrada em agosto foi mais puxada por fatores pontuais. O IPCA teria ficado positivo em 0,22% sem as contribuições somadas de energia elétrica e alimentos, calculou o pesquisador.
Houve uma maior disseminação de subitens com aumentos de preços, puxada pelos não alimentícios, na passagem de julho para agosto, ou seja, os avanços foram mais espalhados entre os 377 produtos e serviços investigados.
“São 209 subitens não alimentícios: 135 vieram com variação positiva em agosto, 74 tiveram variação menor ou igual a zero”, mencionou Gonçalves.
Os consumidores gastaram mais com Vestuário (0,72%), Despesas pessoais (0,40%), Saúde e cuidados pessoais (0,54%) e Educação (0,75%). O índice de difusão do IPCA, que mostra o porcentual de itens com aumentos de preços, passou de 50% em julho para 57% em agosto. A difusão de itens alimentícios saiu de 50% em julho para 47% em agosto, e a de itens não alimentícios passou de 49% para 65%.
Para Leonardo Costa, economista da Asa, o resultado do IPCA de agosto, uma deflação ligeiramente menor que a esperada pelo mercado, reflete efeitos temporários, “ainda sem sinal de melhora estrutural na inflação” e com leitura “modestamente pior que a do IPCA-15”.
Segundo ele, um dos efeitos temporários que colaboraram para o resultado de agosto foi a queda nos preços da energia elétrica, decorrente da incorporação do Bônus de Itaipu, creditado nas faturas. “O núcleo também veio poluído: descontos passageiros em recreação (semana do cinema) reduziram artificialmente o índice e devem pressionar o IPCA de setembro”, afirmou.
Ele pondera, porém, que mesmo expurgando os descontos, o núcleo de serviços mostraria desaceleração (0,43% em vez de 0,34%), levando a média móvel de 3 meses para 5,96% (de 6,08%). “Esse alívio, no entanto, tende a ser temporário, já que os serviços permanecem pressionados pela demanda doméstica”, acrescentou.





