Juros, endividamento e câmbio devem turbinar o efeito dos descontos da Black Friday na inflação

Em outubro, preços dos artigos de residência, móveis e eletrodomésticos recuaram, contrariando o comportamento normal de anos anteriores

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Foto do autor Márcia De Chiara

A Black Friday deste ano deve intensificar o movimento de queda de preços no varejo, antecipado já em outubro. O movimento tem sido impulsionado pelo recuo do câmbio, pelos juros elevados e pelo forte endividamento das famílias, que têm limitado os reajustes e pressionado setores como artigos de residência, móveis e eletrodomésticos.

Normalmente, os preços desses segmentos, alvo da megapromoção, registram alta em outubro e recuam em novembro. Neste ano, no entanto, esses três grupos de produtos já tiveram queda de preços no mês passado, antes da megapromoção.

Ao contrário de outros anos, preços começaram a cair em outubro, um mês antes da Black Friday Foto: Hélvio Romero/Estadão

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Levantamento feito pela consultoria 4intelligence, com base no Índice Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a medida oficial de inflação, mostra que, em outubro deste ano, os preços médios dos grupos artigos de residência, móveis e eletrodomésticos tinham caído 0,34%, 0,18% e 0,59%, respectivamente.

No caso do grupo artigos de residência e do grupo eletrodomésticos, a deflação que houve em outubro deste ano superou as quedas registradas em novembro do ano passado, o mês da Black Friday, que tinham sido -0,31% e -0,54%, respectivamente.

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“O que chama atenção neste ano é que há grupos de preços em queda já em outubro”, observa Fabio Romão, economista sênior da consultoria, responsável pelo levantamento. Ele acompanha sistematicamente os efeitos da Black Friday no IPCA desde 2016.

Segundo ele, esse recuo de preço um mês antes da megapromoção pode ser um efeito defasado da alta de juros sobre a atividade econômica. Hoje os juros básicos da economia estão em 15% ao ano, o maior nível em duas décadas.

Além dos juros, o recuo do câmbio pode estar ajudando a arrefecer os preços, diz o economista. Neste ano, o câmbio acumula queda de 12,69%. “Acho que são as duas coisas.”

Também o elevado endividamento das famílias atrapalha os reajustes de preços. Estatísticas do Banco Central indicavam que em agosto, o último disponível, 26,3% da renda das famílias estavam empenhados com algum tipo de dívida, excluindo a prestação da compra de imóveis e descontadas as influências sazonais. Esse resultado se equipara ao de maio de 2023 (26,3%) e é o maior da série.

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Efeito na inflação de novembro

O levantamento da consultoria mostra que a Black Friday tem ajudado a mitigar a evolução do IPCA em meses de novembro. Exceto em 2019 e 2023, nos demais anos desde 2016, o IPCA de novembro foi menor do que o do mês anterior.

Para este ano, Romão projeta para o IPCA de novembro alta de 0,27%, depois do resultado muito baixo de outubro de 0,09%. Em outubro pesou no índice a queda da tarifa da energia elétrica residencial.

Ainda assim, a inflação de novembro deste ano deverá ser modesta, comparada com a do ano anterior (0,39%). O efeito da Black Friday deve mitigar a alta do IPCA de novembro de 2025, diz Romão. “Não fosse isso, estaríamos projetando mais que 0,27%.”