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Pensar dá pouco like: Imaginário de dinheiro e fama fáceis na internet atrai cada vez mais os jovens

Não é difícil entender por que o modelo tradicional de ensino e emprego perdeu apelo; sociedades que passam a valorizar menos a capacidade analítica e o pensamento crítico podem acabar alocando de forma pior seus talentos

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Foto do autor Laura Karpuska
Atualização:

“Qual faculdade você pensa em fazer no futuro?”

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“Faculdade? Eu já ganho mais que cinco médicos no mês.”

Esta é a frase de um jovem influencer no Instagram ou TikTok. Assim como ele, muitos outros têm milhares ou milhões de seguidores – e ganham, de fato, mais que cinco médicos, vendendo cursos e fazendo publicidade. “Quer saber a receita do meu sucesso? Escreve ‘quero’ aqui que eu te mando um DM.” O DM, ou mensagem pessoal, costuma acompanhar um link patrocinado para um curso que promete ensinar a ficar rico com facilidade.

Ser CLT virou xingamento entre os jovens. As mazelas de ser CLT – pouca flexibilidade, trabalhos monótonos e muitas vezes mal pagos – parecem insuportáveis para jovens que encontram validação, audiência e dinheiro com rapidez e, arrisco dizer, com pouco esforço intelectual.

O que fará essa geração que está sendo desincentivada a pensar? Foto: Alice Labate/Estadão

As salas de aula pelo mundo são outro reflexo dessa ansiedade pelo retorno com baixo esforço. Jovens adultos com os olhos vidrados no laptop, tablet ou celular. Muitos, claro, usam os dispositivos para tomar notas. Ao longo da aula, nota-se quem acompanha e quem solta um riso discreto – provavelmente ao ver algo mais engraçado que o exercício proposto na lousa.

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Professores notam também que, ao longo da aula, há um misto entre desinteresse e ansiedade. Perguntas surgem, às vezes fora de hora, como se o conteúdo precisasse vir pronto, rápido. É o reflexo de um desconforto com o processo de aprendizado que pode levar minutos, dias, às vezes anos.

Parte disso pode ser sintoma de um fascínio cada vez maior por um imaginário de dinheiro e fama fáceis. Mas há algo mais profundo: a dificuldade de aceitar que a vida real é, para a maioria de nós, menos espetacular do que as redes sociais sugerem. Não seremos todos Beyoncés ou Bill Gates. Além disso, esses indivíduos colocaram muito esforço e dedicação em suas trajetórias – e contaram com alguma sorte também.

A existência humana tem hiatos, repetições, dias cinzentos, tarefas chatas, mas necessárias. Como mostrar que o tédio, o processo, o esforço não rendem aplausos imediatos? A vida vai exigir presença, paciência e capacidade crítica.

Sociedades que passam a valorizar menos a capacidade analítica e o pensamento crítico podem acabar alocando de forma pior seus talentos. A redução do estímulo à formação técnica e científica já se reflete em alguns indicadores como queda do QI médio e o desinteresse crescente por carreiras ligadas à ciência e engenharia. Se o pensamento analítico deixar de ser valorizado, será que a inovação desacelera, a produtividade sofre e os custos – sociais e econômicos – se acumulam no longo prazo?

Não é difícil entender por que o modelo tradicional de ensino e emprego perdeu apelo. O que fará essa geração que está sendo desincentivada a pensar?

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Opinião por Laura Karpuska

Professora do Insper, Ph.D. em Economia pela Universidade de Nova York em Stony Brook