Engenheiro de alimentos, professor e diretor do FDC Agroambiental

Engenheiro de alimentos, professor e diretor do FDC Agroambiental

O Brasil tem instrumentos; não tem estratégia

O agro é uma ilha de produtividade numa economia que há décadas não consegue difundi-la; a próxima revolução brasileira não será produzir mais, mas transformar terra, recursos naturais e tecnologia em mais valor, com menos risco

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Foto do autor Marcello Brito
Por Marcello Brito e Marcelo Furtado

Nenhum país tem mais a ganhar do que o Brasil com o alinhamento entre produtividade e sustentabilidade — e nenhum tem mais a perder se insistir em tratá-las como escolhas rivais. O País cresceu décadas sem ficar mais eficiente e terá de financiar previdência, saúde, adaptação climática e redução de desigualdades com uma economia que mal ganha produtividade.

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Ao mesmo tempo, poucos reúnem matriz energética tão limpa e tanto capital natural. Sustentabilidade, aqui, não é custo compensado pelo crescimento: é o motor do valor que o País gera por hectare, por metro cúbico de água e por tonelada de carbono.

E há uma prova viva de que isso funciona: o agronegócio brasileiro. Em cinco décadas, ciência tropical, genética, correção de solos, plantio direto e fixação biológica de nitrogênio multiplicaram a produção sobretudo por ganhos de produtividade.

O agro não é a exceção que confirma o dilema: é a demonstração de que ele é falso Foto: Epitácio Pessoa/Estadão

É o maior exemplo já dado ao mundo de que produzir mais e cuidar melhor dos recursos naturais podem ser o mesmo movimento, e não uma escolha entre o boi e a mata. O agro não é a exceção que confirma o dilema: é a demonstração de que ele é falso. A pergunta é por que essa demonstração segue confinada a ilhas.

Porque há uma contradição desconfortável no próprio sucesso do setor. O País caminha para mais uma safra recorde, próxima de 360 milhões de toneladas de grãos, e 2025 terminou com quase 2 mil pedidos de recuperação judicial no agronegócio, 56% acima do ano anterior. Produção recorde e estresse financeiro convivem no mesmo campo.

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Por trás desses números existe um problema maior e mais antigo. O mais recente Compêndio de Indicadores de Produtividade da OCDE confirma o que há anos limita o crescimento brasileiro: investimento baixo, produtividade estagnada e enorme heterogeneidade entre empresas.

O diagnóstico é mais amplo que o agro. O crescimento das últimas décadas veio principalmente do aumento populacional, da elevação da renda e de políticas redistributivas – quase nada de produtividade. A revolução digital e a inteligência artificial são promessas reais, mas não viram riqueza enquanto o País não revisar seu paradigma produtivo e sua pegada ambiental.

O agro é a exceção importante, mas produziu também um paradoxo: ilhas de produtividade de classe mundial convivem com um oceano de baixa produtividade. Ao redor de produtores que competem com qualquer americano, europeu ou chinês permanecem pastagens degradadas, empresas pouco capitalizadas, logística cara e baixa digitalização.

Essa heterogeneidade não é acidente recente. O padrão de ocupação territorial extensiva marcou a formação do País, e instituições desenhadas para a extração de recursos produziram efeitos duradouros sobre a alocação de recursos e sobre a desigualdade. Esse legado ainda molda o campo e a cidade.

Foi essa contradição que apareceu no Fórum de Produtividade e Sustentabilidade realizado em São Paulo, por iniciativa do Instituto Itaúsa. O debate desembocou numa questão maior: o desafio deixou de ser aumentar a produtividade agrícola. É aumentar a produtividade de todo o sistema de uso da terra.

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A métrica tradicional é toneladas por hectare. Uma métrica adequada ao século 21 precisa incorporar valor econômico por hectare, eficiência no uso de água, fertilizantes e energia, conservação do capital natural, exposição ao risco climático e renda do produtor.

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Há uma razão econômica precisa para essa mudança de régua: ativos naturais como solos, água, biodiversidade e estabilidade climática são fatores essenciais de produção, e sua deterioração compromete a capacidade produtiva no longo prazo.

Os grandes concorrentes já se movem nessa direção. A China, limitada pela escassez de terra, transformou produtividade territorial em segurança nacional. Os Estados Unidos perseguem produtividade total dos fatores. A Europa tentou internalizar custos ambientais pela regulação e descobriu, com protestos e perda de competitividade, que sustentabilidade sem viabilidade econômica não se sustenta. A competição migra da produtividade física para a produtividade dos recursos.

O Brasil deveria ser um dos maiores beneficiários dessa mudança. Poucos países combinam terra, água, sol, agricultura tropical, energia renovável, biomassa e capital natural em escala comparável, e há milhões de hectares degradados ou subutilizados.

O próprio padrão histórico de ocupação abre uma possibilidade rara: expandir a produção de alimentos, prover energia renovável e restaurar parte significativa das florestas ao mesmo tempo, bastando usar melhor as áreas já abertas, hoje em sua vasta maioria a serviço de uma pecuária de baixa produtividade. Trata-se de catalisar um processo já em curso.

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O problema não é falta de instrumentos. Temos ABC+, Caminho Verde Brasil, Plano Nacional de Fertilizantes, Plano Safra, RenovAgro e programas de bioinsumos, bioeconomia e clima. Individualmente, vários são sofisticados. Coletivamente, formam um arquipélago de boas iniciativas, não um sistema coerente. O Brasil é bom em produzir pilotos e ineficiente em escalá-los.

Aqui o diagnóstico da OCDE encontra o debate agroambiental: não basta fazer os melhores avançarem, é preciso difundir produtividade.

Há crescimento disponível mesmo sem saltos de inovação, desde que se usem melhor os fatores de produção e se disseminem boas práticas. O Brasil não depende de um milagre tecnológico; depende de parar de desperdiçar terra, água, capital e talento.

Não adianta ter produtores de classe mundial se grande parte deles, das agroindústrias e dos prestadores de serviços segue distante da fronteira. Tecnologia sem capacidade de absorção não gera produtividade; pode gerar apenas dívida.

Difundir produtividade depende de capitais que raramente entram na conta do agro: o humano, em educação, saúde e capacidades produtivas; o social, que reduz custos de transação e viabiliza a ação coletiva; e o institucional, que molda incentivos e determina a eficiência dos mercados. Os determinantes da produtividade operam em três níveis: empresarial, estrutural e sistêmico.

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Daí outro ponto central do fórum: não basta adicionar práticas sustentáveis, é preciso fazer a transição de sistemas produtivos. Bioinsumos, plantio direto, integração lavoura-pecuária-floresta e agricultura regenerativa geram ganhos, mas isoladamente não constituem um novo modelo. A transição exige capital e fluxo de caixa: os benefícios aparecem depois, o custo vem antes, e grande parte do risco fica com o produtor.

O problema já não é convencer o produtor. É financiar a transição. Nosso sistema financeiro é melhor em financiar quem já apresenta baixo risco do que em remunerar quem investe para reduzi-lo. Como sintetizou uma frase do debate: “Hoje não financiamos gestão de risco; financiamos risco adiado, com juros”. Solo melhor, retenção de água e menor exposição climática reduzem risco econômico – e isso deveria aparecer no custo do capital.

O dinheiro existe, no mercado privado e em instrumentos públicos. O gargalo já não é onde está o capital, mas como estruturar projetos, organizar garantias e coordenar agentes. É nesse vão que o alinhamento dos fluxos financeiros públicos e privados, a filantropia e o investimento de impacto podem destravar agendas, ancorados em dados e evidências.

O mesmo vale para fertilizantes: a pergunta não é apenas quanto o Brasil produz internamente, mas quanto nutriente precisa usar para gerar cada real de valor agrícola. Cama de frango, dejetos suínos e vinhaça deixam de ser passivos e viram energia, biometano e fertilizante. Toneladas por hectare já não descrevem tudo o que a terra produz: a métrica precisa ser valor sustentável por hectare por ano.

É aí que falta estratégia. O Brasil precisa de um Roadmap Nacional de Produtividade e Transição do Uso da Terra – não outro plano, mas uma arquitetura para organizar os existentes. Política agrícola e industrial, ciência, financiamento, infraestrutura, bioeconomia, comércio exterior e clima deveriam responder a objetivos comuns. O Plano Safra seria avaliado pela produtividade gerada, não apenas pelo crédito distribuído.

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Duas alavancas completam o desenho: infraestrutura que reduza o custo logístico sendo ela própria resiliente e de baixo carbono, e abertura comercial com regulação adequada, que integre o País às cadeias globais de valor.

O risco é o Brasil vencer a competição da produtividade agrícola do século 20 e perder a da produtividade econômica do século 21: liderar a soja capturando fração do valor da cadeia e produzir biomassa barata para importar as moléculas dela derivadas. Por isso é preciso gerar dados, métricas adequadas aos trópicos e influência sobre padrões internacionais. Se outros definirem o que significa sustentável ou baixo carbono, seguiremos compradores de padrões.

Essa régua tem consequência prática: sem incorporar o capital natural nas contas nacionais, a avaliação do desenvolvimento permanece incompleta, porque não reflete a base biofísica que sustenta a economia. E ignorá-la tem preço macroeconômico: a perda de capital natural reduz o PIB potencial, eleva o risco e encarece o custo de capital.

E o relógio não espera. A transição demográfica pressiona previdência e saúde e torna cada ponto de produtividade mais decisivo: o Brasil corre o risco de ficar mais velho antes de ficar mais rico.

A primeira revolução agrícola brasileira mostrou que conseguimos empurrar a fronteira tecnológica. A próxima terá de provar algo mais difícil: difundir produtividade, financiar a transição e transformar o território numa plataforma de geração de valor.

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A China planeja sua terra porque quase não tem. O Brasil evita planejar a sua porque ainda se comporta como se terra, água e capital natural fossem infinitos. Pequim sabe exatamente o ativo que está tentando defender. Nós ainda estamos discutindo quem é responsável por defendê-lo.

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Opinião por Marcello Brito

Engenheiro de alimentos, professor e diretor do FDC Agroambiental

Marcelo Furtado

Head de Sustentabilidade da Itaúsa e Diretor Executivo do Instituto Itaúsa