Agro descentraliza luxo e incorporadoras tentam fazer empresários trocar fazendas por condomínios

Projetos prometem exclusividade, arquitetura assinada, vagas espaçosas e até heliponto

PUBLICIDADE

Foto do autor Breno Damascena
Atualização:

Vozes do Agro: Integração com agricultura torna pecuária brasileira ainda mais sustentável

Victor Campanelli é um dos principais e mais tecnificados pecuaristas do Brasil. Crédito: Júlia Maciel | Estadão

Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

Gerando resumo

As cifras trilionárias do agronegócio estão movimentando o mercado imobiliário em diversas regiões do País. Incorporadoras atentas às mudanças no perfil dos empresários do setor desenvolvem empreendimentos de luxo para convencê-los a trocar as amplas fazendas por apartamentos em arranha-céus ou condomínios com heliponto, spa e piscina aquecida.

Em Sinop (MT), o condomínio Premier Aeronáutico Residencial aposta na construção de um aeroporto privativo com pista de 1,6 mil metros para atrair este público. Em um terreno de 1,3 milhão de metros quadrados, o loteamento prevê a venda de lotes com acesso à marina e ao píer do Rio Teles Pires, além de um restaurante com vista para a pista de voo.

PUBLICIDADE

Com 300 lotes disponíveis, as menores unidades têm 1.110 m² e custam cerca de R$ 1,5 milhão. Os terrenos maiores podem chegar a 2,5 mil metros quadrados. Lançado em 2022, o Premier deve ter as obras concluídas em 2029, o que inclui a construção de um complexo social de 57 mil m², academia, parques e quadras esportivas.

“É um projeto triple A, não é para qualquer casta da sociedade. A grande maioria dos compradores até o momento são empresários, proprietários de aeronaves e que pretendem ter um hangar em casa”, comenta André Paschoal, diretor da Dilceu Dal’Bosco Empreendimentos, empresa à frente do projeto. Segundo ele, cerca de 50% das unidades já foram vendidas.

Publicidade

Fundada pelo ex-deputado estadual Dilceu Dal’Bosco, a incorporadora se especializou em desenvolver empreendimentos na região, em resposta ao crescimento de Sinop, um polo estratégico do agronegócio brasileiro. Dados da consultoria Brain Inteligência Estratégica indicam que a cidade recebeu mais de 14 mil novos imóveis entre 2023 e 2025.

“Pela força do agro, está chegando gente aqui o tempo todo para trabalhar, o que impulsiona o capital intelectual e incentiva o desenvolvimento do mercado imobiliário”, analisa Rafaela Zanirato, diretora criativa da Truvian Arquitetura, empresa especializada em condomínios resort no centro-oeste do Brasil.

A nova arquitetura do centro-oeste

Um levantamento da Brain mostra que entre o primeiro trimestre de 2024 e o primeiro trimestre de 2025, o centro-oeste recebeu 27,4 mil novas unidades. O número é pequeno comparado ao sudeste, mas representa um crescimento de mais de 10% em relação ao período anterior. E os valores estão cada vez mais altos.

O Valor Geral de Vendas (VGV) na região alcançou R$ 4,9 bilhões no primeiro trimestre de 2025. O número representa uma alta de 15,2% em comparação ao VGV registrado no primeiro tri de 2024.

Publicidade

Na visão de Zanirato, porém, o crescimento ainda é marcado pela cautela. Os empregos criados por influência do agro são fundamentais para a formação da silhueta das cidades, analisa a arquiteta.

Um exemplo disso é que além de incorporar salão de beleza, serviços de massagem, spa e piscina, os novos condomínios trazem diferenciais que remetem à cultura sulista, como espaço para assar costela de chão e uma arena de bocha.

Outra característica é que, enquanto em São Paulo grande parte dos novos lançamentos não possuem vagas de garagem, nas cidades dominadas pelo agro, essas vagas são fundamentais. E precisam ser largas. “Todo mundo tem uma caminhonete”, comenta Zanirato.

Hamoa Resort Residencial é um condomínio resort de alto padrão em construção na cidade de Sorriso, no Mato Grosso. Foto: Divulgação / Truvian Arquitetura

“Como não tem tantos restaurantes grandes aqui, os imóveis também devem ser projetados com espaço suficiente para os moradores receberem seus convidados”, acrescenta. O Hamoa Resort Residencial, projetado pela arquiteta e incorporado pela JMD URBANISMO, é fruto deste novo cenário.

Publicidade

Localizado em Sorriso (MT), cidade conhecida como a capital do agronegócio e maior produtora de soja do País, o condomínio tem 485 lotes de 420 m² a 1,5 mil metros quadrados. O empreendimento conta com piscinas aquecidas, uma academia com 300 m², campo de futebol, quadra de tênis e até um parque aquático.

De acordo com Zanirato, o preço médio do metro quadrado de um terreno durante o lançamento do projeto foi de R$ 1,9 mil a R$ 2 mil. “O VGV foi de R$ 500 milhões e a maior parte dos lotes foi vendida em minutos”, conta.

Novos centros do agronegócio

A pujança do agronegócio também é o combustível da São Benedito, construtora fundada em 1983 que se consolidou como uma das mais relevantes do centro-oeste. A empresa tem 55 empreendimentos e 5 mil unidades entregues ou em construção no Mato Grosso, englobando cidades como Cuiabá, Sinop e Chapada dos Guimarães.

Amir Maluf, diretor da incorporadora, acredita que o público do agro é mais exigente na hora de escolher um imóvel. “Eles gostam de coisas luxuosas e modernas. Isso provoca a necessidade de nos reinventar”, comenta. Para atendê-los, a empresa aposta em imóveis amplos, espaços de lazer e, claro, vagas de garagem maiores.

Um dos lançamentos mais notáveis é o Vale dos Guimarães, um loteamento com 331 lotes de 300 m² a 430 m². Localizado às margens da rodovia MT-251, na Chapada dos Guimarães, o empreendimento tem área exclusiva para consumo de vinho, piscina aquecida, vaga para carro elétrico, quadra de tênis e 20 mil m² de área verde.

Com previsão de entrega para 2027, o projeto tem um VGV previsto de R$ 200 milhões, com o metro quadrado negociado a cerca de R$ 1,8 mil. Ou seja, um lote pode custar de R$ 540 mil a R$ 774 mil. “Como os terrenos variam de tamanho, dá para englobar pessoas com uma renda de R$ 10 mil até uma renda de mais de R$ 100 mil”, afirma Maluf.

A São Benedito anunciou um VGV de R$ 2 bilhões só em lançamentos neste ano, o que ajuda a ilustrar a força do centro-oeste, que se consolida como a região mais prolífica do agronegócio no País.

“Sinop (MT), Rio Verde (GO) e Sorriso (MT) despontam como três principais destaques de lançamentos imobiliários em regiões marcadas pelo agro. O impacto do agro claramente é mais forte é no arco de expansão do mercado agropecuário do Mato Grosso”, analisa Fábio Tadeu Araújo, CEO na Brain.

Publicidade

No entanto, em um País que movimentou mais de R$ 2,7 trilhões em 2024, é natural que outros cantos também chamem atenção pelo avanço de empreendimentos imobiliários ligados ao setor.

Em Barreiras, cidade da Bahia que se destaca na exportação de soja, algodão e milho, os ricos começam a olhar a paisagem de cima. Ainda que grande parte dos moradores residam em fazendas e mansões, a incorporadora Construvale aposta no luxo e na segurança dos apartamentos para atrair seus clientes.

Fundada por jovens sulistas que migraram para para trabalhar com obras agrícolas no estado, a empresa atualmente desenvolve projetos verticais de alto padrão.

O Residencial Villa Lobos foi o primeiro grande projeto da construtora, desenvolvido a partir de um consórcio entre grandes agricultores da região.

Publicidade

Com apenas 10 apartamentos de mais de 310 m², sendo um por andar, o empreendimento se consolidou como um dos mais nobres da cidade. “Por muito tempo, o prédio foi considerado o ‘G10′ da cidade, sendo habitado pelo grupo dos 10 mais ricos de Barreiras”, disse um porta-voz da empresa.

Atualmente, o grande projeto encabeçado pela Construvale é a Torre Brennand, um edifício com 17 apartamentos e uma cobertura duplex. Com três a quatro vagas de garagem por morador e unidades de 255 m² a 512 m², ele é descrito como o lançamento mais arrojado da companhia. As unidades custam cerca de R$ 2,5 milhões e todas já foram vendidas.

Em Barreiras (BA), a Construvale aposta em prédios de alto padrão com apartamentos amplos para atrair empresários do agronegócio instalados na região. Foto: Reprodução/Construvale

A fonte ouvida pelo Estadão acredita que “se o Torre Brennand fosse construído em São Paulo ou em Balneário Camboriú, os apartamentos seriam vendidos por R$ 4 milhões”.

Agro além do agro

À medida que o entorno das terras férteis exploradas pelo agronegócio dão lugar a empreendimentos imobiliários de alto padrão, o dinheiro do setor também faz morada em outras regiões do País. Apartamentos de luxo em cidades como Goiânia e Balneário Camboriú se consolidaram como destinos importantes para incorporadoras interessadas neste público.

Publicidade

A construtora City Soluções Urbanas, atuante em Goiânia, desenvolveu estratégias de venda para atender o crescimento pujante da região.

“Quando o agro impulsiona a economia local, outras atividades também prosperam e esses profissionais passam a ter maior poder aquisitivo e presença em negócios”, comenta João Gabriel Tomé, sócio-fundador da empresa.

Atualmente, o público ligado ao agro representa cerca de 20% da carteira de clientes da City. A companhia entende que o segmento impulsionou o avanço da cidade também em outros aspectos, como indústria, área médica e serviços.

Um fruto deste movimento foi o lançamento do City 23 by Pininfarina, assinado pela marca de design italiano. O empreendimento tem apartamentos de 308 m² a 550m² e quatro suítes, com quatro a seis vagas de garagem.

Publicidade

O metro quadrado no Apartamentos no City 23 Design By Pininfarina está sendo negociado a R$ 17 mil. O preço médio de uma unidade ultrapassa os R$ 9 milhões. Foto: Divulgação/City Soluções Urbanas

Em construção no bairro Setor Bueno, o projeto tem aproximadamente 1,4 mil metros quadrados de terreno, 41 pavimentos e 33 unidades, sendo uma por andar.

Com previsão de entrega para março de 2028, o preço do metro quadrado é R$ 17 mil e o ticket médio das unidades é de R$ 9 milhões.

Enquanto Goiânia se tornou uma base central para as famílias que moram no interior do centro-oeste, Balneário Camboriú conquista este público por conta de aspectos emocionais. Clóvis de Albuquerque Filho, diretor comercial da Construtora Procave, sugere que a alta participação do agronegócio é justificada pela grande presença de migrantes sulistas.

“O agronegócio brasileiro foi desenvolvido, em grande parte, por famílias sulistas. Muitos produtores do Rio Grande do Sul e do Paraná migraram para o então inexplorado Planalto Central. Essas famílias, que já tinham Balneário Camboriú como destino de férias, mantiveram a ligação com o litoral catarinense”, argumenta Clóvis.

Publicidade

Cerca de 30% dos compradores de imóveis da Procave são do setor agrícola. E a empresa tem, inclusive, estratégias comerciais para atender esse perfil específico, como eventos de venda e encontros de relacionamento com empresários para divulgar novos lançamentos.

“Nossas tabelas já contempla a possibilidade de pagamentos com reforços semestrais, especialmente para acompanhar os períodos de safra e safrinha”, comenta.

O Fischer Dreams, projeto desenvolvido pela PROCAVE em uma propriedade que abrigou um hotel de luxo na década de 1950, ilustra este ambiente lucrativo. Os 119 apartamentos de 186 a 491 m² distribuídos em duas torres vai ter piscina com borda infinita, restaurante e uma estrutura de lazer com mais de 7 mil metros quadrados.

Fischer Dreams, projeto desenvolvido pela Procave em Balneário Camboriú, terá 119 apartamentos e uma área de lazer com mais de 7 mil m². Foto: Divulgação/Procave

A entrega está prevista para abril de 2026 e o metro quadrado está sendo negociado entre R$ 60 mil a R$ 70 mil.

Publicidade