Azul pede recuperação judicial nos Estados Unidos

Companhia relutava em recorrer ao chamado Chapter 11, mas acabou decidindo pela medida que já era aguardada pelo mercado diante das dificuldades recentes da empresa para levantar capital e renegociar dívidas

PUBLICIDADE

Foto do autor Luciana Dyniewicz
Foto do autor Elisa Calmon
Atualização:

A Azul Linhas Aéreas informou nesta quarta-feira, 28, que protocolou um pedido de Chapter 11 (equivalente à recuperação judicial) nos Estados Unidos. A medida já era aguardada pelo mercado diante das dificuldades recentes da companhia para levantar capital e renegociar dívidas.

PUBLICIDADE

A recuperação contempla aproximadamente US$ 1,6 bilhão em financiamento durante o processo, eliminação de mais de US$ 2 bilhões em dívidas e previsão de até US$ 950 milhões em novos aportes de capital no momento da saída, segundo documento divulgado pela Azul nesta quarta-feira.

A aérea destaca que garantiu um financiamento DIP (do inglês “debtor in possession”, que consiste num tipo de financiamento usado por empresas em recuperação judicial para suprir a falta de fluxo de caixa) de aproximadamente US$ 1,6 bilhão de parceiros financeiros após celebrar “acordos de Apoio à reestruturação” com as principais partes interessadas (stakeholders).

Publicidade

Isso inclui detentores de títulos da companhia, sua maior arrendadora, a AerCap — que representa a maior parte das obrigações da companhia com leasing —, e os parceiros estratégicos United Airlines e American Airlines.

Azul entrou com pedido de recuperação judicial nos Estados Unidos Foto: Erica Dezonne/Estadão

“Esses acordos marcam um passo significativo na transformação do nosso negócio, pois nos permitirá emergir como líderes do setor nos principais aspectos da nossa atividade”, afirma o CEO da Azul, John Rodgerson.

Ao final do processo, está prevista a amortização do DIP com os recursos de uma oferta de subscrição de ações de até US$ 650 milhões, com garantia firme dos referidos investidores, além de um possível investimento adicional de até US$ 300 milhões por parte da United Airlines e American Airlines, sujeito a determinadas condições.

Publicidade

A Azul informou ainda a descontinuação de todas as projeções (guidances) para 2025 diante do início do Chapter 11.

Companhia relutava

Diferentemente da Gol, a empresa vinha relutando em recorrer ao Chapter 11. Em 28 de outubro passado, a Azul havia anunciado um plano de recuperação fora dos tribunais. Na ocasião, em entrevista ao Estadão/Broadcast, o CEO da companhia, John Rodgerson, declarou: “Não temos outros problemas que normalmente levam as empresas para recuperação judicial”.

Desde então, o cenário mudou. Ha uma semana, em fato relevante, a companhia informou que a classificadora de crédito S&P Global Ratings havia rebaixado a nota da Azul de CCC+ para CCC-.

Publicidade

Na segunda-feira, 26, conforme o E-Investidor, a Ágora Investimentos e o Bradesco BBI haviam mudado a recomendação para as ações da Azul (AZUL4) de compra para neutra temendo que a empresa precisasse de uma nova reestruturação de sua dívida, o que poderia levá-la a uma recuperação judicial.

Entre as três principais companhias que operam no Brasil, a Azul era a única que ainda não tinha recorrido ao Chapter 11. A Latam entrou no processo durante a pandemia e encerrou a recuperação judicial em 2022. Já a Gol entrou com o pedido no início de 2024 e deve sair do processo em junho.

O mecanismo voltou a ser uma possibilidade para a Azul após a piora da situação financeira da companhia. No balanço do primeiro trimestre, o indicador de alavancagem da empresa subiu para 5,2 vezes, de 4,9 vezes no final de 2024 e bem acima do que estava há um ano, em 3,7 vezes. A dívida bruta da companhia aérea encerrou março em R$ 34,6 bilhões, crescimento de 42% em 12 meses.

Publicidade

PUBLICIDADE

A Azul buscou várias formas nos últimos meses para tentar evitar essa medida e tem a intenção de fazer uma nova oferta de ações (follow-on). Mas a avaliação é que só vai conseguir fazer quando o operacional da empresa melhorar. Em um follow-on feito em abril para a troca obrigatória de dívida em dólar por ações da companhia, do lote extra reservado ao mercado, de R$ 1,6 bilhão, só R$ 48 milhões foram colocados.

Enquanto isso, o cenário põe em xeque a potencial fusão entre Azul e Gol. A previsão era que as negociações, em andamento desde janeiro deste ano, andassem após o fim do Chapter 11 da Gol. Contudo, a expectativa é que os esforços da Azul se concentrem agora no processo de recuperação financeira.

Como foi a recuperação judicial da Gol

O caminho que a Azul tende agora a adotar é o mesmo que a Gol está terminando de percorrer. No dia 20, a Justiça dos EUA aprovou o plano da Gol para deixar o Chapter 11.

Publicidade

A audiência que avaliou o pedido da companhia aérea brasileira foi realizada naquela terça-feira, em Nova York, e durou cerca de três horas. Mais de cem pessoas participaram da reunião, sendo mais de 60 participantes de forma presencial, incluindo assessores da empresa e representantes de credores.