Quem é a família mineira Coelho Diniz, que se tornou a maior acionista do Grupo Pão de Açúcar

A rede Coelho Diniz conta com 22 supermercados no interior de Minas, mas donos não costumam falar sobre seus negócios, para não dar ‘vantagem para a concorrência’

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A família Coelho Diniz, de Governador Valadares, tornou-se a maior acionista do Grupo Pão de Açúcar (GPA) com 24,6% das ações, superando o grupo Casino. Apesar de não ter controle, a família pode influenciar a governança do GPA, que enfrenta desafios financeiros. Hercílio Coelho Diniz, ex-líder da família, foi afastado após polêmicas políticas. A família busca maior participação no conselho do GPA, mas enfrenta limitações devido a cláusulas de proteção contra aquisições hostis.

Uma família com base em Governador Valadares, na região leste de Minas Gerais, ainda relativamente desconhecida dentro do setor varejista, tornou-se a maior acionista de uma das companhias mais icônicas do comércio brasileiro, o Grupo Pão de Açúcar (GPA). No último domingo, 24, um comunicado informou que os Coelho Diniz haviam alcançado uma fatia de 24,6% na companhia - superando o grupo francês Casino, que tem 22,5% dos papéis.

Chegar aos 24,6% não significa ter o controle, mas dá aos Coelho Diniz o poder de influenciar muito claramente os rumos do GPA. E mostra que esse grupo familiar, que veio avançando pelas beiradas no Pão de Açúcar, tem potencial para acabar se tornando um dos gigantes do varejo brasileiro - apesar da fase conturbada que o GPA atravessa, com prejuízo de mais de R$ 700 milhões no ano passado.

Loja da rede Coelho Diniz em Governador Valadares Foto: Coelho Diniz/Divulgação

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Os Coelho Diniz - que, coincidentemente, têm o mesmo sobrenome Diniz da família que fundou e comandou o Pão de Açúcar por décadas - costumam ser reservados em relação a seus negócios. Não divulgam seus números, preferem não participar dos rankings do setor de supermercados e raramente dão entrevistas. Mas têm um forte envolvimento com a política local e estadual.

A família começou no ramo de varejo de alimentos nos anos 1960, quando Hercílio Araújo Diniz e a esposa Luzia Coelho Diniz fundaram o Armazém Diniz, no centro de Governador Valadares. No fim dos anos 1970, o primogênito Hercílio Araújo Diniz Filho (que posteriormente adotou o nome de Hercílio Coelho Diniz), passou a trabalhar com o pai e, ainda adolescente, o ajudou a fazer a primeira aquisição, com a compra de outro armazém na cidade.

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Em 1988, ele assumiu o comando do negócio e seguiu fazendo aquisições. Quatro anos depois, a família decidiu separar as operações de atacado das de varejo. Hercílio (pai) e os seis filhos (Hercílio Filho, Alex Sandro, André Luiz, Fábio, Helton e Henrique) ficaram com a parte de varejo, junto com um tio, fundando, em 22 de maio de 1992, o primeiro Supermercado Coelho Diniz. A parte do atacado ficou com outro ramo da família.

Hoje, a rede conta com 22 unidades espalhadas em sete cidades do leste mineiro - Governador Valadares, Ipatinga, Timóteo, Coronel Fabriciano, Caratinga, Manhuaçu e Teófilo Otoni. Números que circulam em reportagens e nas redes sociais atribuem à rede um faturamento de cerca de R$ 3 bilhões, mas essa soma não é confirmada pela empresa.

“Quaisquer informações contábeis, se divulgadas para o mercado, são vistas pela família como uma vantagem para a concorrência”, informou, em nota para o Estadão, a Irmãos CD Participações - holding que controla o Coelho Diniz. Por isso mesmo, eles também não participam de rankings do setor, e não aparecem nem na lista das maiores varejistas de alimentos de Minas.

A rede conta com instalações variadas - de lojas mais simples a outras modernas e confortáveis. A loja principal do grupo, em Governador Valadares, tem 3,6 mil metros quadrados de área de vendas.

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Investimento

Seja qual for a receita do Coelho Diniz, com certeza será muito menor que a do GPA. Em 2024, as vendas da varejista paulista foram de R$ 20 bilhões, colocando-a como a quinta maior do setor, segundo a Associação Brasileira de Supermercados (Abras). O GPA tem um valor de mercado estimado em cerca de R$ 1,6 bilhão, com pelo menos 700 lojas (das marcas Pão de Açúcar, Extra, Mini Extra, Minuto Pão de Açúcar e Pão de Açúcar Fresh). No ano passado, porém, o grupo teve prejuízo líquido de R$ 737 milhões.

Loja do Pão de Açúcar em São Paulo Foto: Pão de Açúcar

Segundo cálculos da Economática, 24,6% das ações do GPA - a fatia na mão dos Coelho Diniz - equivaleria hoje a R$ 389 milhões.

A Irmãos CD diz que todo dinheiro investido no aumento da fatia no GPA (em fevereiro, a participação era de cerca de 5%) veio da própria família. “A compra foi feita com capital próprio da família. Além dos supermercados, os Coelho Diniz têm atuação no agronegócio, logística, importação, distribuição e empreendimentos imobiliários”, diz.

Uma das empresas do grupo, a HAF, é distribuidora de marcas como Nike, Levi’s, Lacoste e Huggies, entre outras. No total, 6 mil pessoas trabalham para as empresas dos Coelho Diniz, conforme informações do grupo.

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Envolvimento político

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Hercílio Coelho Diniz, que comandou a empresa desde os anos 90, também é deputado federal pelo MDB de Minas. Está atualmente no segundo mandato (foi eleito pela primeira vez em 2018 e novamente em 2022). Ele escapou de um acidente de helicóptero em setembro de 2022, quando a aeronave caiu já perto do pouso em Engenheiro Caldas (MG), sem nenhuma vítima fatal.

O envolvimento político de Hercílio, porém, acabou fazendo com que fosse afastado do quadro societário da empresa. No ano passado, foram vazados áudios de mensagens em que o deputado fazia denúncias sobre corrupção na prefeitura de Governador Valadares.

O deputado federal Hercílio Coelho Diniz Foto: Agência Câmara

O caso foi parar no Supremo Tribunal Federal (STF), pelas mãos do vereador Jamir Calili Ribeiro, do PP, para quem era dirigido um dos áudios vazados de Hercílio. No áudio, o deputado dizia que Jamir, “de certa forma, está sendo beneficiado pela corrupção em Valadares”. O processo terminou em um acordo extrajudicial, em novembro, com Hercílio tendo pedido desculpas publicamente e pago indenização de R$ 50 mil ao vereador.

Por conta desses episódios, os cinco irmãos de Hercílio o destituíram do comando e do quadro societário da Irmãos CD Participações. Na convocação para a reunião de sócios que discutiria o tema, citam o “cometimento de falta grave consubstanciada pela prática de injúria e difamação”. Os irmãos compraram a participação de Hercílio nos negócios e o cargo foi assumido por Alex Sandro Coelho Diniz. Nem a família nem Hercílio quiseram comentar esses assuntos.

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Mas Alex Coelho Diniz também é envolvido até o pescoço com a política. Ele é o primeiro suplente do senador mineiro Cleiton Gontijo de Azevedo, o Cleitinho, do Republicanos. Além disso, o atual presidente da Irmãos CD também vem sendo cogitado como eventual candidato a vice-governador em uma chapa encabeçada por Mateus Simões (Novo), o atual vice do governador Romeu Zema.

Governança do GPA

Com o aumento da participação acionária no GPA, os Coelho Diniz pediram uma reformulação no conselho de administração do grupo, para poderem ter uma participação maior. “A entrada de uma família que conhece o varejo brasileiro e que aumenta sua participação pode ser vista como um movimento positivo”, diz o analista Gustavo Bertotti, responsável pela área de renda variável da Fami Capital. Segundo ele, a governança do grupo vem sendo alvo de muitos questionamentos do mercado nos últimos tempos.

Ao mesmo tempo, Bertotti alerta para os desafios financeiros ainda pesados do grupo. “O curto prazo da companhia hoje é um problema. Ela tem um capital de giro líquido extremamente comprometido e uma despesa financeira muito alta em um cenário de juros elevados”, disse.

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Na visão de Hugo Queiroz, sócio da L4 Capital, a estratégia da família Coelho Diniz deve ser entendida como um exemplo de ativismo acionário aberto, quando o investidor amplia sua participação de forma pública para influenciar a governança. “Com isso, pode contribuir não apenas na estratégia, mas principalmente na execução da operação, trazendo sua experiência no setor para dentro do dia a dia da companhia”, diz.

Para Vitor Miziara, sócio da Performa Ideias, o movimento mostra que a aposta da família vai além de retorno financeiro. “Eles não estão apenas colocando dinheiro como investimento, mas buscando participação na gestão da empresa, com conselheiros mais alinhados aos seus interesses”, diz.

Apesar da nova força acionária, a família Coelho Diniz enfrenta restrições para aumentar ainda mais seu poder dentro do grupo. O estatuto do GPA prevê cláusula de poison pill (mecanismo de proteção contra aquisição hostil) que obriga qualquer investidor que ultrapasse 25% do capital votante a lançar uma oferta pública de aquisição das ações em circulação (OPA), pagando um prêmio aos minoritários. Isso deve limitar, pelo menos por enquanto, novas compras de ações. / Colaborou Júlia Pestana