Nova política habitacional deve elevar valor de imóvel financiado e injetar R$ 20 bi em crédito

Lula lançará novo modelo em São Paulo na sexta-feira, 10; bancos poderão usar parte de depósitos compulsórios, desde que ampliem a concessão de crédito para a compra da casa própria

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Foto do autor Luiz Araújo
Foto do autor Gabriel Hirabahasi
Atualização:

BRASÍLIA - A nova política de crédito habitacional do governo federal prevê a liberação imediata de R$ 20 bilhões em recursos da poupança e a criação de um novo modelo de financiamento com regras mais flexíveis para os bancos. O lançamento do programa, uma das principais apostas na busca de reeleição, será na próxima sexta-feira, 10, com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em São Paulo, sede do governo do seu provável principal adversário nas urnas em 2026.

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Os bancos poderão usar parte dos depósitos compulsórios, desde que ampliem a concessão de crédito para a compra da casa própria. O detalhamento foi obtido pelo Estadão/Broadcast com pessoas a par do assunto.

Essa liberação imediata acontece porque a nova política de crédito habitacional não depende de uma lei aprovada no Congresso, seja por meio de um projeto de lei, seja via medida provisória. A mudança será feita a partir de regulações internas do governo.

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Como vai funcionar na prática o novo modelo

A proposta, desenvolvida em conjunto por Banco Central (BC), Ministério da Fazenda, Ministério das Cidades e Caixa Econômica Federal, busca corrigir o esgotamento da poupança como fonte de funding (fonte de recursos) e criar uma transição para um modelo mais flexível e sustentável.

O novo sistema permitirá que, a cada real emprestado em crédito habitacional, o banco libere o mesmo valor em recursos da poupança para uso livre por até cinco anos, prazo prorrogável mediante a concessão de novos financiamentos.

Na fase inicial, o Banco Central deve liberar 5 pontos porcentuais do compulsório, hoje fixado em 20% sobre os depósitos da poupança, reduzindo-o para 15% no caso das instituições que aderirem ao modelo. O impacto imediato dessa liberação é estimado entre R$ 20 bilhões e R$ 25 bilhões, com potencial de chegar a R$ 37,5 bilhões, a depender da adesão dos bancos. A Caixa, principal agente do setor, será a primeira a adotar o novo sistema.

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O novo modelo de crédito imobiliário prevê maior flexibilidade para o uso dos recursos da poupança dentro do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo Foto: Tiago Queiroz/Estadão

O governo também deve elevar o valor máximo dos imóveis financiados pelo Sistema Financeiro da Habitação (SFH), que atualmente é de R$ 1,5 milhão, para cerca de R$ 2 milhões. O ajuste atualiza o limite estabelecido em 2019 e busca adequar o modelo à valorização do mercado imobiliário e à inflação acumulada no período.

O novo modelo prevê maior flexibilidade para o uso dos recursos da poupança dentro do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE). Hoje, os bancos precisam direcionar 65% dos depósitos para o crédito imobiliário e manter 20% no Banco Central. Com a mudança, o dinheiro da caderneta deixará de ter “carimbo”, podendo ser utilizado livremente, desde que o banco mantenha o mesmo volume em novas concessões de financiamento.

Os prazos de uso flexível dos recursos variam conforme o valor do imóvel financiado, com o objetivo de privilegiar operações no SFH. Para imóveis de até R$ 1 milhão, o prazo será de sete anos; entre R$ 1 milhão e R$ 2 milhões, de seis anos; e de cinco anos para valores acima de R$ 2 milhões. Ao final desse período, os bancos precisarão conceder novos financiamentos para manter o acesso aos recursos livres.

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A lógica do modelo é permitir que os ganhos obtidos com aplicações mais rentáveis sejam usados para manter juros menores nos financiamentos habitacionais, preservando a atratividade do crédito mesmo em um cenário de juros altos. Simulações internas apontam que essa equalização é suficiente para manter estável o custo dos empréstimos.

Outra mudança importante será a redistribuição do uso dos recursos liberados: 80% deverão ser aplicados no SFH, com taxa de juros máxima de 12% ao ano, e os 20% restantes no Sistema Financeiro Imobiliário (SFI), que opera a taxas de mercado. A divisão valerá inclusive para os valores liberados do compulsório.

Segundo o ministro das Cidades, Jader Filho, a medida é essencial para atender a faixa de renda média, hoje sem acesso ao crédito. “As famílias com renda de até R$ 12 mil estão cobertas pelo Minha Casa, Minha Vida. As de alta renda têm alternativas. Mas quem ganha R$ 16 mil não consegue financiamento porque a poupança secou. Essa política vem para corrigir essa lacuna”, afirmou.

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O novo modelo será implementado gradualmente até o fim de 2026, em fase de testes, e deve entrar em pleno funcionamento em 2027. O período de transição foi um pedido do setor da construção civil, que alertou para o risco de rupturas bruscas no sistema de crédito.

Com o funcionamento integral do novo desenho, as estimativas técnicas indicam que o volume de recursos disponíveis para o crédito imobiliário poderá saltar dos atuais R$ 90 bilhões para cerca de R$ 200 bilhões em dois anos.