Chama o "VAR" na economia e discute como tornar o Brasil melhor

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Há algo em comum entre as pessoas envolvidas no escândalo do INSS: eram defensoras dos aposentados

Acusados do desvio no INSS criticavam inflamadamente as tentativas de reforma do sistema previdenciário

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Foto do autor Pedro Fernando Nery

Esta é nossa coluna de Natal. O Natal é época de perdão e reconciliação. E a nossa coluna está toda trabalhada no ódio e ressentimento. A coluna é sobre os desvios no INSS.

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Há algo em comum entre várias pessoas envolvidas no escândalo. Elas eram ardorosas defensoras dos aposentados, e criticavam inflamadamente as tentativas de reforma do sistema. Conquistaram poder, não desfizeram a reforma, e agora são acusadas de fazer exatamente aquilo que a reforma não fez: tirar dinheiro dos aposentados. Eu me lembro bem, e essa coluna é sobre isso: como dizem os mais jovens, eu guardei os recibos.

Vamos começar com a advogada Tonia Galleti. Eu me lembro bem de Tonia Galleti, primeiro porque sempre errava seu sobrenome e escrevia Tonia Galleto. Segundo, porque ela fez uma interessante réplica ao meu primeiro artigo no Estadão, há dez anos.

Ex-integrantes do INSS criticavam a reforma da Previdência, mas não a desfizeram  Foto: Wilton Junior/Estadão

“É preciso muito cuidado para não se tornar cruel”, disse Tonia. Meu texto era sobre o déficit da Previdência. Disse também que “idosos são pessoas humanas que merecem respeito e dignidade”. E reclamou que em tempos de crise “valem mais os números que as pessoas”. Tonia e seus familiares receberam R$ 20 milhões do Sindnapi, segundo o relator da CPMI. “Vocês podem falar que houve uma certa imoralidade, mas a minha família trabalhou”, ela respondeu.

Tonia era crítica da reforma da Previdência. Falou sobre lógica do capital, retirada de direitos, conjecturou sobre os idosos que morreriam nas ruas: “Os veremos mendigando, sem dentes, fétidos”. A sua casa, por sua vez, foi visitada pela PF.

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O ex-presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, meses antes de ser preso, ainda batia na reforma que não desfez. “As pessoas perderam direitos.”

“Foi um engodo”. A reforma seria até culpada pelo atual quadro fiscal, uma afirmação que, pelo menos, é criativa em meio a tanta ladainha. A Contag, a entidade líder em descontos, chamava a reforma de machista. O nº 2 da Previdência falava até pouco em “linguagem neoliberal do mercado” (para o uso da palavra déficit).

O ex-secretário inclusive fez um alerta: o mercado quer agora uma nova reforma e dessa vez para aumentar a idade mínima para 70 anos. Ele foi preso na semana passada.

Todos são inocentes até que se prove o contrário, certo. Mas me intriga que as acusações sejam verdadeiras. As preocupações nunca foram genuínas? Eles sempre foram oportunistas? Eram decentes, mas foram tentados? Ou nas suas cabeças achavam justo receber um bônus por serem tão bondosos? Qual a psicologia dessas pessoas? Se algum livro explica, vai ser o meu pedido para o Papai Noel. Espero que ele não tenha sofrido descontos.

Opinião por Pedro Fernando Nery

Professor de economia do IDP. Autor do livro "Extremos - Um Mapa para Entender as Desigualdades no Brasil"