Chama o "VAR" na economia e discute como tornar o Brasil melhor

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Pobreza ou riqueza pegam? Só uma dessas noções permite sonhar um país

Aprendemos que a prosperidade teria certa capacidade de contágio; mas não são apenas as coisas boas que se espalham

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Foto do autor Pedro Fernando Nery
Atualização:

Me pego pensando na fala de uma personagem de Fernanda Montenegro: “Pobreza pega”. Ela aparece às vezes no feed. É de uma novela de 20 anos atrás, Belíssima. Bia Falcão era o nome da vilã. “Pega como sarna. Pega como vírus. Pega!”.

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Nunca tinha pensado nisso, embora tenhamos aprendido que riqueza pega. A prosperidade teria certa capacidade de contágio. É importante se aproximar do rico, do que deu certo, ou, à distância, copiá-lo.

É por isso que falamos em abertura comercial (para importar as máquinas usadas nos países mais desenvolvidos) ou em liberdade de capitais (para que eles instalem empresas aqui). Possibilitam o aprendizado, a imitação, das melhores práticas.

Edifício Penthouse ilustrava capas de livros de geografia como símbolo de desigualdade Foto: Nilton Fukuda/Estadão

Mais recentemente se fala muito de aproximar ricos e pobres também pelo capital social. Ter crianças pobres e crianças ricas estudando juntas, vizinhos pobres e vizinhos ricos morando perto. Facilitaria a absorção de referências, cópia de comportamentos, a construção de relacionamentos. Matthew Jackson, de Stanford, e Raj Chetty, de Harvard, são os expoentes dessa literatura.

Prescrições: ações afirmativas, adensamento dos bairros desenvolvidos. É como se a exposição à prosperidade do rico ajudasse a vida do pobre. Por isso, riqueza pega, pensei.

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Mas o contágio também pode ser negativo. Não são apenas as coisas boas que se espalham, vide o exemplo das drogas. Há alguns anos pobres não tinham acesso a celular, mas nem ao Jogo do Tigrinho.

Pode até ser que aproximar o pobre do rico gere frustração, ou conflito. Um bolsista negro que estuda em escola de elite pode sofrer bullying - e se o trauma for tal que sua trajetória seria melhor como um bom estudante de uma escola ruim?

De outra parte, a visão de que o contato entre pobre e rico será negativo para o rico. “Pobreza pega” seria uma descrição para o destino do Penthouse, o edifício que ilustrava capas de livros de geografia como símbolo de desigualdade. De um lado seus opulentes apartamentos, de outro Paraisópolis. Hoje o prédio está abandonado, decrépito - moradores teriam saído com medo da violência ou fugido do barulho insuportável de pancadões na favela que cresceu.

Migração é outro lócus da disputa entre essas duas diferentes noções. Vale para o mexicano ou o nordestino. Se pobreza pega, o migrante é visto como um peso, uma ameaça, que vem para roubar recursos ou contaminar a cultura com seus valores ruins. Se riqueza pega, ele vem para aproveitar oportunidades, aprender e empreender.

Só uma das noções permite sonhar um país. Riqueza pega - como podemos fazer ela pegar mais?

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Opinião por Pedro Fernando Nery

Professor de economia do IDP. Autor do livro "Extremos - Um Mapa para Entender as Desigualdades no Brasil"