‘Pix da confiança’: como meio de pagamento virou símbolo da nova economia popular brasileira

Ao completar 5 anos de operação, Pix desbanca o dinheiro vivo, resgata a ‘promessa do fio do bigode’ nos pagamentos e promove ganhos de produtividade na economia

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Como o Pix mudou a vida dos brasileiros

Do "Pix da confiança" na venda de produtos em farol de trânsito ao dízimo e contribuições dos fiéis nas igrejas pelo Pix com QR Code, o Pix desbancou o dinheiro. Crédito: Márcia de Chiara/ Daniel Teixeira/Isabel Lima/Estadão

Em operação há cinco anos, o Pix caiu no gosto popular de Norte a Sul do País e virou sinônimo de pagamento. Mais do que um novo meio de transação, que superou o dinheiro em espécie na preferência dos brasileiros, o Pix também resgatou a velha “promessa do fio do bigode”, que é o compromisso verbal de cumprir o combinado no mundo dos negócios. Foi assim que nasceu espontaneamente o “Pix da confiança”.

Nos semáforos das grandes cidades, por exemplo, vendedores ambulantes entregam seus produtos, acreditando no compromisso dos compradores de fazer o pagamento mais tarde. O mesmo ocorre em lugares distantes, onde o sinal de internet é ruim. O resultado tem sido o aumento nas vendas e no faturamento.

Luiz Carlos Coelho de Souza, de 46 anos, vendedor no farol há 29 anos, na Zona Oeste, viu o seu faturamento aumentar com o "Pix da confiança" Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Luiz Carlos Coelho de Souza, de 46 anos, há 29 anos vendendo produtos no semáforo da Praça Luiz Carlos Mesquita com o Viaduto Antártica, na zona Oeste de São Paulo, viu a sua venda aumentar nos últimos cinco anos por conta do Pix. Em novembro de 2020, o Pix entrou em funcionamento e logo Souza adotou o “Pix da confiança”. “Algumas pessoas passavam e nunca compravam de mim, mas, depois do Pix passaram a comprar”, conta.

A dificuldade é o tempo de parada dos veículos no semáforo. No abre e fecha do farol, que dura cerca de um minuto, não é possível, na maioria das vezes, conseguir o troco em dinheiro e concluir a venda. No momento, ele está vendendo amendoim e cobra R$ 3 pelo saquinho e quando o cliente leva dois, paga R$ 5

Hoje Souza tira cerca de R$ 120 por dia e 80% do seu faturamento vem do “Pix da confiança”. O ambulante encerra a sua jornada por volta de 19:30. Mas tem dias que até meia-noite o dinheiro continua caindo na sua conta bancária. “Sem o Pix a vida estaria mais difícil, adiantou muito.”

Welson, de 28 anos, chega tirar R$ 300 por dia no semáforo com a venda de paçoca e 90% da receita vem do "Pix da confiança" Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Do outro lado da praça, Welson, de 28 anos, que vende paçoca e que não quis revelar o sobrenome, é outro ambulante adepto do “Pix da confiança”. Conta que chega a tirar até R$ 300 por dia, sendo 90% dos produtos vendidos por meio do “Pix da confiança”. Cada pacote com nove paçocas custa R$ 10. “Já estava aqui antes do Pix, mas com uso dele deu uma melhorada no movimento.”

Apesar do risco de calote que os ambulantes correm, eles relatam que vale a pena vender no “Pix da confiança”. É que, embora existam compradores que não cumprem o combinado, a maioria paga e alguns deles até depositam muito mais que o valor devido. “Tem pessoas que mandam R$ 30 e deveriam depositar R$ 10, um cobre o outro”, diz Welson.

Revolução

Souza e Welson são exemplos da revolução que esse meio instantâneo de transferência de recursos, gratuito (no caso de pessoas físicas) e em funcionamento 24 horas ininterruptas tem provocado na economia brasileira. Desde quarta-feira, 12, o Estadão publica uma série de reportagens sobre os 5 anos do Pix.

Criado pelo Banco Central (BC) e disponível a pessoas físicas e jurídicas desde 16 novembro de 2020, o Pix acelerou a inclusão da população, especialmente de baixa renda, ao sistema financeiro e teve até impactos na macroeconomia.

Risco de calote no "Pix da confiança" existe, mas é pequeno, porque muitos compradores depositam um valor maior do que o combinado pelo produto Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Entre 2018 e 2023, praticamente dobrou o número de brasileiros que fez um pagamento digital ou uma operação de crédito nos últimos três meses, segundo dados mais recentes do BC. Em junho de 2018, eram 77 milhões de clientes ativos do sistema financeiro e essa marca chegou a 152 milhões, em dezembro de 2023.

“Isso é inclusão financeira na veia”, diz Renato Dias de Brito Gomes, diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do BC. Ele observa que o dado relevante para medir a bancarização não é o número de contas abertas, mas o de clientes ativos. Isto é, aqueles que realizaram, de fato, alguma transação no sistema financeiro.

Vários fatores jogaram a favor do aumento da bancarização nesse período, como o auxílio emergencial pago durante a pandemia e as novas instituições financeiras que começaram a operar no mercado. Mas, segundo o diretor do BC, o uso do Pix foi essencialmente o mais importante.

E o aumento da bancarização foi ainda maior entre as empresas. O número de clientes ativos, incluindo os Microempreendedores Individuais (MEIs), passou de 3,4 milhões em junho 2018 para 11,6 milhões em dezembro de 2023.

Impacto no PIB

Outro efeito do Pix, apontado pelo diretor do BC, foi o aumento da produtividade da economia, que é, em última instância, a alavanca do crescimento. Nos últimos cinco anos, o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB), que mede toda a geração de riqueza na economia, tem superado as projeções.

“Não existe nenhum estudo que comprove cientificamente, mas eu acredito que parte dessa história (de as projeções para o PIB terem sido superadas) é por conta de o Pix ter gerado ganhos de produtividade na economia, tem negócios novos ocorrendo, as pessoas conseguem produzir mais com menos”, diz.

Com adoção do Pix por meio do QRcode, cofre cai em desuso nas igrejas para receber as contribuições dos fiéis Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Esse ganho de produtividade, na análise do diretor do BC, pode estar ocorrendo por meio de empreendedores, como Souza e Welson, sobretudo da baixa renda. São pessoas incorporadas ao sistema financeiro por causa do Pix e que representam as novas contas ativas. Um exemplo, diz ele, são aqueles que vendem bolo pelo WhatsApp. “É um modelo de negócio novo.”

Se antes esses empreendedores depositavam o dinheiro da venda em lotéricas ou agências bancárias, agora recebem e fazem pagamentos digitalmente, economizando tempo e podendo focar na atividade principal do seu negócio.

Menor desgaste das cédulas

O crescimento exponencial do Pix surpreendeu até mesmo os dirigentes do BC. Na prática, esse novo meio de pagamento começou a funcionar em 2021, ano em que totalizou 9,5 bilhões de transações. Em 2024, esse total tinha subido para 63,5 bilhões e atingido R$ 26 trilhões.

No último ano, houve um aumento de 52% no número de transações em relação a 2023. Nesse período, o Pix foi o meio de pagamento que mais avançou, comparado aos demais, excluindo dinheiro.

No primeiro semestre de 2025, o Pix respondeu por 51,3% dos pagamentos feitos na economia, sem considerar as transações em dinheiro e cheques, seguido pelos cartões de débito e pré-pagos (20%), cartões de crédito (14,6%), débito automático (6,4%) e boleto e convênios (5,8%), de acordo com o BC.

“A facilidade de se receber e enviar recursos foi ampliada de uma maneira incrível e esse é o grande motivo de sucesso do Pix”, diz Ivo Mósca, diretor de Inovação, Produtos, Serviços e Segurança da Febraban, que reúne os bancos.

QR Code de Pix colado em pontos estratégicos em igreja da Paróquia São Luis Gonzaga, Zona Norte de São Paulo, que adotou o Pix na pandemia Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Pela facilidade e o imediatismo, acredita-se que Pix já tenha ultrapassado o dinheiro vivo em número total das transações.

Não há dados diretos que confirmem esse movimento. No entanto, existem evidências que sinalizam o recuo do uso do dinheiro vivo no dia a dia dos brasileiros. Desde o lançamento do Pix, por exemplo, a quantidade de saques caiu 59%, de acordo com BC.

Com a pandemia, porém, houve um aumento do volume de notas de real em circulação e agora o que se vê é uma estabilização.

No entanto, Gomes, do BC, observa que o desgaste das notas de real em circulação diminuiu e houve uma redução na velocidade de renovação das cédulas. Indiretamente, isso pode ser uma evidência do avanço do Pix. “As notas estão mais conservadas”, diz o diretor do BC.

Pix em igrejas

Até pouco tempo atrás, as cédulas, especialmente as de baixo valor, tinham endereço certo. A grande circulação ficava concentrada em igrejas, seja para pagamento do dízimo ou de outras contribuições durante a missa. Mas até nisso o Pix mexeu. Hoje, na maioria das paróquias, o cofre para arrecadar as contribuições virou item de decoração.

Na Paróquia Nossa Senhora da Lapa, na Zona Oeste da cidade de São Paulo, por exemplo, 70% da coleta da missa e do dízimo ocorrem por meio do Pix e a maior parte dos 30% restantes é em dinheiro, levando em conta nessa parcela também cartões de débito e crédito.

Denise Tavares, responsável pela administração da Paróquia Nossa Senhora da Lapa, conta que o Pix com QRCode para as contribuições foi adotado desde a pandemia. “Hoje todo mundo que chega à igreja pergunta: tem Pix? Ele facilita, pois a gente não precisa mexer com dinheiro. E os bancos não têm mais caixa para depósitos.”

Outro exemplo de uso do Pix no meio religioso é na Paróquia de São Luís Gonzaga, em Pirituba, Zona Norte de São Paulo. Faz quatro anos que a paróquia adotou o Pix para receber o dízimo. A decisão foi tomada na pandemia para evitar o contato entre as pessoas.

Lucilene Costa Botássio, de 43 anos, frequentadora da paróquia, diz que a maioria dos fiéis hoje faz a contribuição por meio do Pix. “É mais prático, não tem de pegar o envelope para colocar o dinheiro.”

Além da igreja, Lucilene conta que usa o Pix como meio de pagamento para tudo: mercado, farmácia e até na feira. O uso que faz do cartão é bem menor, comparado ao do Pix. “Também faz muito tempo que não saco dinheiro no banco.”

Competição de ponta-cabeça

Além de mudar a forma como o brasileiro lida com o dinheiro vivo, a chegada do Pix chacoalhou a competição bancária por causa da aceleração da digitalização dos bancos.

“Antes do nascimento do Pix, nós tínhamos cerca de 60% das transações ocorrendo em canais digitais e com a chegada do Pix, a gente viu esse número saltar para 82%”, diz Ivo Mósca, da Febraban.

Gomes, do BC, lembra que no começo os bancos eram reticentes em relação ao Pix. No passado, ter uma grande malha de agências era uma vantagem comparativa para os grandes bancos, especialmente em cidades menores, onde as pessoas dependiam das agências para acessar dinheiro.

No entanto, com o Pix, a necessidade de ir à agência caiu muito. Isso fez com que os bancos digitais ficassem mais competitivos por causa do custo menor. E a rede de agências físicas passou a ser uma desvantagem comparativa em relação ao custo de serviço. “Com o Pix, a competição bancária virou de ponta-cabeça”, observa o diretor do BC.

Havia também os ganhos com as tarifas para os grandes bancos, que caíram muito com o Pix. Mas as instituições financeiras tradicionais se adaptaram e viram uma grande redução de custos com o avanço do uso dos canais digitais.

Mósca, da Febraban, refuta a ideia de que o Pix aplainou o terreno para os bancos fecharem agências por conta da digitalização. “Apesar de haver esse sentimento de que ele (Pix) pode incentivar o encerramento da agência, na verdade, ele está aumentando a rentabilidade daquele ponto físico.” O diretor da Febraban argumenta que, com o Pix, o escopo da agência mudou para escritório de negócios, com a venda produtos, gestão financeira, por exemplo.