Elas trocam empregos em escritórios para trabalhar como assistente, babá e governanta de luxo com sa
Residências de alto padrão atraem profissionais em busca de falta remuneração. Crédito: Jayanne Rodrigues
Gerando resumo
A escassez de mão de obra enfrentada hoje por vários setores da economia brasileira, especialmente o comércio e os serviços, acionou a criatividade das empresas para atrair e reter trabalhadores. Esse quadro de aperto ganha ainda mais relevância no final de ano, quando crescem as contratações de temporários no varejo e aumenta a disputa por profissionais.
Existem companhias que começaram a oferecer prêmios a funcionários que indiquem candidatos a vagas em aberto. Outras chegam a colocar carros de som na rua para “laçar” a mão de obra.
Mas há também aquelas que optaram pelo roteiro tradicional: reajustar salário, oferecer bonificações em dinheiro e adotar a escala semanal de cinco dias de trabalho com duas folgas (5x2) no lugar da 6x1.
Em casos extremos, a saída para enfrentar o problema de falta de mão de obra passa por “economizar” trabalhadores em funções mais básicas, com o uso de robôs e automação.

A dificuldade de encontrar trabalhadores acontece num momento em que o País opera próximo do pleno emprego — algo raro na história recente. A taxa de desemprego de 5,4% no trimestre até outubro é a menor da série desde 2012, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Isso pressiona todos os setores que dependem de mão de obra intensiva.
Além do ciclo econômico, há um componente estrutural: baixa qualificação média, desinteresse dos jovens por setores tradicionais (como construção civil), e alta competição regional com indústrias e grandes centros de distribuição, que pagam mais e oferecem condições melhores. Esse descompasso entre oferta e demanda coloca pressão sobre RHs, eleva custos das empresas e força mudanças profundas.
Projeções da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) indicam que 112,6 mil trabalhadores temporários serão admitidos neste fim de ano. É um volume 5,2% maior do que em 2024 e o contingente mais elevado desde 2013.
O Magazine Luiza, por exemplo, contratou 2,9 mil temporários para o setor de logística neste fim ano, ante 2 mil em 2024. Logística é área da empresa que demanda volume maior de trabalhadores. “Com o pleno emprego, o RH está sendo muito desafiado para contratar”, afirma William Miguel dos Santos, diretor de gestão de pessoas da área de logística.
Além das plataformas tradicionais, o executivo conta que abriu o leque e tem acessado redes sociais, como TikTok, Instagram, WhatsApp, para ampliar a oferta de candidatos.
Em regiões onde a disponibilidade de trabalhadores está muito apertada, como Extrema (MG) e cidades portuárias como Itajaí (SC) e Vitória (ES), Santos conta que a empresa criou um desafio para atrair trabalhadores.
A partir do primeiro mês de admissão, se o contratado atingir as metas, ele concorre a sorteio de viagens com direito de levar a família. Também pode recebe até 15% a mais no salário a título de remuneração variável, se os objetivos forem atingidos.
Paralelamente, a empresa tem investido em automação, como esteiras inteligentes para a movimentação de produtos. “O objetivo é ter ganho de escala e não depender somente da mão de obra humana”, diz Santos.
No Mercado Livre, gigante do comércio eletrônico, que também tem a escassez de mão de obra como desafio, começou a usar robôs, a fim de liberar os empregados da companhia para outras atividades.
Fernando Yunes, CEO da companhia, disse ao Estadão na sexta-feira, 28 de novembro, dia da Black Friday, que o objetivo do uso de robôs é aumentar a produtividade da mão obra, mas não substitui-la, mesmo em um cenário de escassez de trabalhadores.

De toda forma, uma alternativa estudada pela companhia para escapar desse problema é instalar os futuros centros de distribuição em outras localidades, longe de Cajamar (SP) e Extrema (MG), onde a empresa está, e que hoje vivem o pleno emprego.
Alimentação
Intensivo em mão de obra, o setor de alimentação, especialmente no preparo de refeições, é um dos mais afetados pela falta de trabalhadores. Faz três meses que a unidade da padaria Villa Grano, que fica na Vila Clementino, Zona Sul de São Paulo, adotou três robôs para servir os clientes nas mesas, diante da falta de mão de obra. “Os robôs viraram atração turística da padaria, os clientes adoram e tem gente que vem à padaria só para ver os robôs”, conta o gerente Luís Ferreira.
Com quatro padarias e cerca de 50 vagas em aberto, Ferreira diz que a meta é comprar mais dois robôs para cada uma das unidades da empresa. “O ser humano é indispensável e o robô é um complemento.”

Na rede nacional de restaurantes empresariais Premium Essencial Kitchen, com 230 restaurantes em dez Estados, a falta de mão de obra virou um problema constante, porém varia de região para região. É mais crítico em municípios como Extrema (MG), Jundiaí (SP), Cabreúva (SP) e a região do ABC Paulista.
Caroline Nogueira, CEO da empresa, diz que nesses municípios há forte competição de mão de obra com as indústrias, onde tradicionalmente a remuneração é maior, os benefícios são diferenciados e as condições de trabalho são mais favoráveis. Das 55 vagas hoje em aberto na empresa, 54 estão no interior de São Paulo e na capital paulista.
“Evoluímos nos benefícios nos últimos anos, mas a minha atividade é manual e artesanal, não é uma linha de produção. Trabalha-se todos os dias, muitas vezes sábado e domingo”, diz a executiva. Ela observa que nem sempre consegue pagar um salário muito superior porque no seu setor a competição entre as empresas é acirrada.
Esporadicamente, a empresa usa o “carro da vaga”. Inspirado no famoso “carro da pamonha”, três dias antes do evento de seleção um carro equipado com alto-falante percorre as ruas da localidade do restaurante, avisando as vagas disponíveis, data e local onde serão recebidos os currículos. Além disso, faz dois meses que a empresa criou bonificações para atrair e reter funcionários em regiões mais críticas de admissão, como Extrema (MG), Cabreúva (SP) e Jundiaí (SP).
Caroline explica que se o funcionário é assíduo, chega no horário, é cordial, por exemplo, pode receber um adicional de R$ 200 no salário mensal. Se a equipe toda cumpre esses quesitos, o benefício dobra. A empresa também oferece cursos para os cozinheiros e sorteia prêmios de valor, como motocicleta, para os alunos.
Prêmio por indicação
Na construção civil, o quadro não é diferente. A construtora Libercon, por exemplo, criou um programa para os funcionários indicarem candidatos às vagas em aberto. Caso o indicado seja admitido, quem o indicou recebe um prêmio, de R$ 300 para vagas administrativas e de engenharia e de R$ 150 para vagas operacionais. “20% das contratações deste ano vieram pelo programa de indicações”, conta Silvia Marinho, gerente de RH da construtora.
A empresa também firmou parceria com os Centros de Apoio ao Trabalhador (CATs) para admitir refugiados. Silva ressalta que a falta de mão de obra é um problema generalizado na construção civil. O desinteresse dos jovens pelo setor é tanto para cargos de engenharia como para ocupações básicas. “O filho do mestre de obras não quer ser mestre de obras, pois há o estigma que a carreira não é valorizada.”
Na contramão do mercado, a construtora Benx informa que não enfrenta hoje falta de mão de obra. No passado, no entanto, chegou a ter paralisações e atrasos nas obras por esse motivo.

Para não ter dor de cabeça com a falta mão de obra básica, como pedreiros, serventes de obra, em 2024, a empresa fechou parcerias de longo prazo com empreiteiras, pagando mais pelos serviços.
“Os fornecedores têm dificuldade de contratar funcionários”, diz Luciano do Amaral, sócio e diretor de Engenharia. Ele observa que apesar de a mão de obra básica ter sido terceirizada, a construtora fomenta a sua formação dos profissionais por meio de cursos gratuitos oferecidos pelo Instituto Bueno Neto, ligado à empresa, em parceria com o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial).
Já em relação aos profissionais de nível superior e médio, como engenheiros, arquitetos, mestre de obras, encarregados administrativos, por exemplo, Amaral conta que faz oito meses que a empresa não enfrenta mais problemas de vagas em aberto.
Em relação aos profissionais contratados diretamente pela companhia, a saída encontrada para driblar a falta de mão de obra foi mudar a política de remuneração. Foi concedido um aumento salarial, em média, de 15% para os profissionais, e mantida a política de bônus por metas. Além disso, a empresa passou a dividir com os profissionais a economia obtida no desempenho de cada canteiro de obra. “Consegui virar a chave”, diz o executivo.
Jornada de trabalho
Outro diferencial competitivo usado pelas companhias para atrair e reter trabalhadores tem sido a adoção da escala semanal de cinco dias de trabalho com duas folgas (5x2), no lugar da 6x1.
O hotel de luxo Palácio Tangará adotou essa escala para 350 funcionários a partir de outubro deste ano. Na mesma época, as Drogarias São Paulo e Pacheco, do Grupo DPSP mudaram a escala de 24 mil funcionários.
Essas iniciativas ocorreram depois que a rede sueca de artigos de vestuário H&M abriu a primeira loja neste ano no País com esse novo formato de escala.

Na época da inauguração, Joaquim Pereira, country manager e responsável pela implementação da rede no Brasil, disse ao Estadão, na abertura da primeira loja no Shopping Iguatemi, em São Paulo, que a decisão de adotar essa escala era por conta dos valores da empresa, para manter o equilíbrio entre vida pessoal e profissional dos empregados.
Já o gerente geral do hotel Palácio Tangará, Celso do Valle, disse, na ocasião da mudança da escala, que era uma estratégia para atrair e reter mão de obra qualificada.








