Como dinheiro fácil foi parar nas contas de influenciadores para bajular o Banco Master
Cabe à PF encontrar as provas da origem dos recursos depositados para uns e outros. Crédito: Edição: Laís Nagayama
A liquidação do Banco Master pelo Banco Central gerou uma campanha difamatória nas redes sociais, revelada pelo Estadão. O vereador Rony Gabriel e influenciadores foram contatados para defender o banco, com propostas de contratos de confidencialidade. A ação do Tribunal de Contas da União, que pediu explicações ao BC, foi criticada. Influenciadores publicaram conteúdo questionando a rapidez da liquidação, mas negam envolvimento conjunto. Agências como Unltd Network Brazil e Portal Group estão envolvidas.
BRASÍLIA — A campanha difamatória contra o Banco Central (BC), que decretou a liquidação do Banco Master no ano passado, trouxe à tona acusações, defesas e uma variedade de agências e comunicadores envolvidos no escândalo.
O caso começou a ser exposto a partir de um vídeo publicado pelo vereador Rony Gabriel (PL-RS), de Erechim, que diz ter recebido uma proposta intitulada “projeto DV”, as iniciais de Daniel Vorcaro, dono do Master, para publicar conteúdo em defesa da instituição.

O Estadão/Broadcast revelou instituições e autoridades envolvidas com a liquidação do Banco Master sofreram uma série de ataques nas redes sociais pouco antes da virada do ano, segundo monitoramento da Federação Brasileira de Bancos (Febraban).
O contato com o gabinete de Rony Gabriel (que tem 1,7 milhão de seguidores no Instagram) foi feito em 20 de dezembro por André Salvador, que consta na Receita Federal como um dos sócios da Unltd Network Brazil, uma empresa que presta serviços de marketing. Procurado, ele não se manifestou.
A Unltd tem outros dois sócios, Gabriel Silva e Anderson Nunes da Rosa. Seu endereço fica em Águas Claras, cidade vizinha de Brasília, no Distrito Federal.
“Estamos fazendo um trabalho de gerenciamento de reputação e gestão de crise para um executivo grande. E temos contratado perfis que se posicionaram para nos ajudar nessa disputa política em que estamos travando contra o sistema. Posso te explicar melhor por telefone se tiver interesse em abrir conversa”, escreveu Salvador ao assessor do vereador naquele dia.
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No contrato de confidencialidade oferecido por Salvador a Rony Gabriel constava também a previsão de multa de R$ 800 mil por quebra de sigilo, como revelou o Estadão. Nem o Banco Master nem Daniel Vorcaro são citados nominalmente no documento. O nome do projeto, no entanto, tem as iniciais do banqueiro (DV).
Outra comunicadora a recusar uma oferta do tipo foi Juliana Moreira Leite (1,5 milhão de seguidores). Ela diz ter recebido contato de Júnior Favoreto no Instagram.
Trata-se de Osvaldo Júnior Barreiros Favoreto, filho da dona da agência Portal Group, Maria Isabel Barreiros Favoreto. A empresa tem sede em Perobal (PR), segundo a Receita Federal.
O portal g1 conversou sob reserva com um comunicador de São Paulo que também disse ao veículo ter sido procurado por Favoreto. Ele teria aceitado a proposta para publicar conteúdo pró-Master, mas depois recusado e devolvido o dinheiro.
O comprovante de transação entre Favoreto e o comunicador anônimo mostra que o dinheiro saiu da conta de Thiago Miranda, dono da Miranda Comunicação, conhecida como Agência MiThi, segundo a reportagem. Miranda é sócio da Léo Dias Comunicação e Jornalismo Ltda, empresa do jornalista Léo Dias, dono de um site homólogo.
Léo Dias publicou uma nota na tarde desta sexta-feira, 9, em que diz que seu grupo não tem “qualquer relação” com Miranda e afirma ter compromisso com a transparência, a ética jornalística e a correta prestação de informações ao público.
“Thiago Miranda atuou como CEO do Grupo LeoDias, cargo do qual se desligou em junho de 2025, não mantendo, desde então, qualquer função de gestão, decisão ou representação em nome da empresa. Além disso, o processo de transferência de sua participação societária minoritária encontra-se em andamento desde o final do ano passado”, escreveu.
No contato que fez com o gabinete de Rony Gabriel, Salvador enviou uma série de vídeos que poderiam servir de modelo para o conteúdo a ser publicado na parceria.
Os links são de publicações dos comunicadores Carol Dias (7,4 milhões de seguidores no Instagram), Paulo Cardoso (4,3 milhões de seguidores), Marcelo Rennó (625 mil seguidores) e André Dias (118 mil seguidores), e também o perfil de humor Alfinetei (25,3 milhões de seguidores).
Os comunicadores citados criticaram a liquidação do Master e repercutiram a notícia de que o Tribunal de Contas da União (TCU) havia pedido explicações ao BC sobre a operação. A ação do TCU, relatada por Jhonatan de Jesus, um indicado político ao órgão, foi coberta de críticas por especialistas e autoridades.
“Um banco foi liquidado em um prazo considerado incomum. Diante da rapidez do processo, o órgão de controle solicitou esclarecimentos ao Banco Central. O prazo para resposta terminou sem que as explicações fossem apresentadas, o que levantou questionamentos”, escreveu o @alfinetei, levantando suspeição sobre o processo.
Outros perfis, como Firmino Cortada (2,1 milhões de seguidores), Babadeira (2,7 milhões de seguidores) e Diferentona (3,3 milhões de seguidores), também publicaram conteúdo na mesma linha.
O Estadão analisou o conteúdo, os horários das publicações e os pontos em comum entre os materiais publicados.
Apesar de diferenças na maneira do pronunciamento nos vídeos, as postagens apresentam elementos em comum. Todos os influenciadores publicaram conteúdos no final de dezembro, tendo como referência o mesmo conteúdo, que seria uma possível revisão da liquidação do Master.
Outra semelhança é que, embora adaptado ao estilo de cada perfil, o discurso compartilhado nas redes sociais sugere desconfiança sobre a atuação dos órgãos reguladores e questiona a “rapidez” da decisão - que, na verdade, durou mais de cinco meses. Em nenhum dos casos, as publicações foram identificadas como publicidade.
Os influenciadores que fizeram as postagens negam qualquer envolvimento ou articulação conjunta.
Com exceção da influenciadora Carol Dias e de seu irmão André Dias, que comandam o Irmãos Dias Podcast, voltado a investimentos, os demais influenciadores citados não têm atuação no mercado financeiro. A maioria alimenta a conta com publicações de entretenimento, principalmente comentários sobre a vida pessoal de celebridades.
Agências mencionadas ou envolvidas
Portal Group. Sócia: Maria Isabel Barreiros Favoreto. Júnior Favoreto, filho da dona da agência, fez contato com Juliana Moreira Leite e um influenciador de São Paulo, segundo matéria do g1.
Unltd Network Brazil. Sócios: Gabriel Silva, Anderson Nunes da Rosa e André Silva Salvador. Este último fez contato com um assessor do vereador Rony Miranda (PL-RS), oferecendo o contrato de confidencialidade do Projeto DV.
Miranda Comunicação. Sócio: Thiago Miranda Silva. O comprovante de transação entre Júnior Favoreto e um influenciador anônimo de São Paulo mostra que o dinheiro saiu da conta de Thiago Miranda, dono da Miranda Comunicação. Ele é um dos sócios de uma empresa do jornalista e empresário Léo Dias, que nega relação com o caso.
Perfis que publicaram conteúdo pró-Master
- Alfinetei (25,3 milhões de seguidores)
- Carol Dias (7,4 milhões de seguidores no Instagram)
- Paulo Cardoso (4,3 milhões de seguidores)
- Diferentona (3,3 milhões de seguidores)
- Babadeira (2,7 milhões de seguidores)
- Firmino Cortada (2,1 milhões de seguidores)
- Marcelo Rennó (625 mil seguidores)
- André Dias (118 mil seguidores)



