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Capital natural como uma classe de ativos

Taxonomias e metodologias de monitoramento e valoração da biodiversidade estão sendo formatadas, assim como mecanismos de gestão de risco

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Foto do autor Roberto Waack

A conservação e a regeneração da natureza dependem de um fluxo regular e volumoso de recursos financeiros. Para ganho de escala e consolidação como uma classe de ativos, ainda há bom caminho a ser percorrido. Não bastará a pressão de ambientalistas sobre o setor financeiro, como se este fosse detentor dos instrumentos necessários para garantir retornos financeiros, sua principal razão de existir, investindo na natureza. Gestores de capital têm responsabilidades fiduciárias que limitam intenções ambientalistas. Para que haja esse fluxo, os atores do mainstream econômico dependem de um ambiente com funcionamento conhecido e regras claras.

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Classes de ativos são conjuntos de instrumentos financeiros que têm características semelhantes e se comportam de maneira similar no mercado. Ativos de uma mesma classe se inserem em ambientes institucionais semelhantes. Operam com regras do jogo equivalentes, especialmente os legais, de regulamentação ou mesmo práticas informais e culturais próprias. Em geral, têm riscos e retornos com previsibilidades convergentes. Seus custos e preços são influenciados pelos mesmos fatores e temporalidades.

A caracterização do que são serviços ecossistêmicos, o principal produto do capital natural, não é trivial. Boa parte dos serviços ecossistêmicos que provê ainda são pouco conhecidos. O carbono e os recursos hídricos e minerais são relativamente mensuráveis, embora ainda faltem padrões globais. No entanto, a biodiversidade apresenta grande desafio. É extremamente sofisticada e complexa, com diversas hierarquias e níveis de abordagem. Ela engloba o submicroscópico mundo dos genes, passa pelo amplo universo das espécies resultantes de suas expressões e seus agrupamentos em reinos (vegetal, animal e de forma simplificada, microbiológico), até a abordagem da paisagem, ou seja, o modo como interage com o meio e com os humanos que se imiscuem em suas vidas.

A tecnologia é de grande importância para transformar o capital natural em classe de ativos, na medida em que contribui para processos de caracterização de produtos e serviços ecossistêmicos. As tecnologias voltadas para o sequenciamento genético de todas as espécies vivas do planeta já são acessíveis. A diversidade biológica é fruto da expressão de materiais genéticos e o seu sequenciamento permite acessar uma biblioteca de dados que, correlacionado a bases de dados sobre o ambiente onde vivem, abre um campo complexo e fascinante. O volume de dados, memórias e padrões “artificialmente” processados é avassalador. Com a junção entre biotecnologia, big data e inteligência artificial, é possível conhecer melhor o objeto do investimento.

Vista aérea da Amazônia em Parauapebas (PA); biodiversidade é sofisticada e complexa, com diversas hierarquias e níveis de abordagem Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Instrumentos de monitoramento se multiplicam, de sensores no solo, plantas e animais a satélites. No entanto, ainda há grande fragmentação metodológica, resultando em uma profusão de dados não-comparáveis e grande desequilíbrio entre os parâmetros usados em países com ecossistemas temperados em contraposição às regiões tropicais.

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A migração de incertezas biológicas para o mundo da gestão de riscos é essencial para que o capital natural se transforme em uma classe de ativos. Há ainda grandes desafios (e riscos) no desenho de modelos de como manter ou reconstruir operacionalmente este capital. Pouco se conhece sobre métricas de produtividade e monitoramento, e menos ainda sobre como a construção de valor pode se dar em cadeias de produtos e serviços derivados.

Apesar de a maior parte dos mecanismos de remoção de carbono da atmosfera estar ligada a soluções baseadas na natureza, ainda falta o reconhecimento formal da sua relação com a agenda climática. Os mercados de carbono que transacionam toneladas de CO2 na forma de créditos, ainda guardam pouca correlação com os demais derivativos do capital natural, como a proteção da biodiversidade O mercado de carbono, apenas um dos derivativos do capital natural, tem alta volatilidade e dispersão de preços (ou seja, apresenta mesmos tipos de projetos com preços diferentes e projetos diferentes com preços iguais). As dificuldades na convergência entre regulamentações são ainda muito grandes.

O mercado regulado convive de forma confusa com o mercado voluntário. Projetos empresariais ou de comunidades competem com programas jurisdicionais (regionais). Há uma grande proliferação e competição entre esquemas de certificações e trilhas de auditorias independentes ainda não estão consolidadas. Os debates sobre papel de esquemas de compensação (offsetting) gera incertezas mercadológicas relevantes. No campo comercial, contratos são pouco definidos, com mecanismos de rupturas contratuais imprecisos, modelos de garantias, mecanismos de mitigação e de seguros incipientes e riscos de performance e entregas comerciais significativos.

O fato de o capital natural e as soluções baseadas na natureza serem intrinsicamente dependentes do uso da terra oferece riscos associados à segurança fundiária, uma vez que está sujeito a risco de invasão, depredação e conversão ilegal. Além disso, o uso da terra é o mais exposto aos efeitos da mudança climática, como secas, intempéries e incêndios, representando riscos importantes à permanência desses ativos em prazos longos. Ainda, quando as atividades de conservação ou regeneração ambiental em uma região acarretam a destruição em outra (conceito conhecido como vazamento) configuram um tipo de risco bastante imponderável. Por fim, ao serem ainda de difícil valoração, as atividades relacionadas à conservação ou (re)construção do capital natural com frequência implicam em desvalorização do valor fundiário no curto prazo, com difícil previsão de reconstrução deste valor.

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O esforço do ativismo ambientalista, associado ao conceito de que a natureza é um patrimônio vital para a humanidade, intocável e não-transacionável, elevou o capital natural à posição atual de destaque. No entanto, também alimentou o campo dos riscos reputacionais associados às soluções baseadas na natureza, provocando um embate entre quem vê as finanças como um instrumento capaz de proteger a natureza e aqueles que entendem qualquer intervenção de ordem econômica e financeira como moralmente questionável.

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O desdobramento desse processo de ordem reputacional migrou para o campo legal (passivos morais migrando para legais), com um conjunto legal e regulatório mais voltado para o impedimento de atividades do que para seu acolhimento, em um processo compreensível de proteção, impondo riscos jurídicos significativos para os que se aventuram em atividades empresariais voltadas para este campo.

A valoração e os instrumentos de mercado aos poucos aparecem. As taxonomias e metodologias de caracterização, mensuração, monitoramento e valoração da biodiversidade estão sendo formatadas, assim como os mecanismos de gestão de riscos. Com a crescente massa crítica de aprendizados, os custos de transação do capital financeiro associado à complexidade e aos riscos devem ser reduzidos. O debate sobre a necessidade de se buscar novo equilíbrio entre subsídios, incentivos fiscais e financeiros para combustíveis fosseis e alternativas mais intensas nas soluções baseadas na natureza evidencia-se, indicando um caminho mais favorável para estas últimas. A consolidação da natureza como infraestrutura vital para o bem estar da humanidade é o caminho para sua transformação em uma classe de ativos.