Reflexões sobre desenvolvimento econômico e meio ambiente na Amazônia

Reflexões sobre desenvolvimento econômico e meio ambiente na Amazônia

Do garimpo ao cacau, com boi no caminho

Na Amazônia, famílias como os Faes-Brogni mostram que as mesmas pessoas que hoje desmatam podem restaurar a floresta se mudarmos as condições em que operam

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Foto do autor Salo Coslovsky

O cacau é uma espécie nativa da Amazônia e peça-chave para esforços de restauração produtiva em escala. Em contraste, o garimpo é uma das atividades mais nocivas ao meio-ambiente e às comunidades que vivem em harmonia com a floresta. Para muitos, a cacauicultura e o garimpo ocupam extremos opostos no espectro da sustentabilidade. No entanto, aos olhos de quem vive nas regiões rurais da Amazônia, essas atividades estão muito mais próximas do que pode parecer.

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Em dezembro de 2021, conheci Robson Brogni, produtor de cacau na área rural de Medicilândia, no Pará. Praticamente todo ano suas amêndoas ganham prêmios nos concursos de qualidade no Brasil e no exterior. Sua esposa, Sara, transforma uma parte da produção em chocolates deliciosos lá mesmo na propriedade. Sempre que posso, encomendo um pacote de barras de chocolate 70%. Os nibs de cacau fino que eles produzem são superiores a qualquer produto semelhante que já encontrei aqui nos EUA.

Foi durante minha visita que conheci a história da família, que começa em 1979, quando Belmiro e Denilze Faes, futuros sogros do Robson, deixaram Ascurra, em Santa Catarina, para se estabelecer em Medicilândia. Para ganhar a vida, o sr. Belmiro usava seu Ford 77 para transportar bananas até Belém. Enquanto isso, a sra. Denilze lecionava na escola local. Não demorou para que adquirissem um pequeno lote a prazo, onde cultivaram arroz, feijão e milho. Após alguns anos, com duas filhas pequenas para criar, o sr. Belmiro resolveu se dedicar ao garimpo. Sua intenção era óbvia: buscava conforto material, trabalho digno, respeito e ascensão social. Seguindo o costume regional, o casal fazia sua poupança comprando bois, e acumulou um rebanho considerável.

Produção de cacau na propriedade de Robson Brogni, em Medicilândia (PA) Foto: Salo Coslovsky

Essa trajetória é bastante típica. Em suas diferentes variações, ela ajuda a explicar como desmatamos quase 20% da vegetação nativa na Amazônia. Mas, após 17 anos trabalhando no garimpo, o sr. Belmiro resolveu mudar de ramo. Com a esposa, decidiu se desfazer gradualmente do rebanho para investir em cacau. Hoje, a família cuida de cerca de 300 mil pés de cacau, distribuídos em quatro pequenas propriedades.

Os benefícios econômicos e ambientais dessa escolha são claros. Eles cultivam cacau híbrido, que preserva mais variação genética do que o cacau clonal. Na média, cada uma de suas árvores produz entre dois e quatro quilos de amêndoas, uma produtividade superior a média paraense, que não alcança um quilo por planta. Durante minha visita, um caminhão da Belterra Agroflorestas estava trazendo mudas de açaí que seriam plantadas em uma clareira antiga, um pouco íngreme, que não servia para cacau. Uns dias antes, um dos trabalhadores tinha avistado uma onça com seus filhotes, adormecidos na sombra de uma árvore.

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Claro, nem todos têm a garra, o talento, a visão (e a sorte) dessa família. Empreender é arriscado, e sei de vários empreendedores talentosos, dedicados e com acesso a capital que apostaram em iniciativas compatíveis com a floresta – beneficiamento de castanha, criação e abate de peixes, produção de madeira via manejo florestal –, mas se decepcionaram com os resultados e não conseguiram avançar.

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Perguntei ao Robson porque o sr. Belmiro decidiu largar o garimpo. A resposta foi inequívoca: ele tinha entrado no garimpo por falta de opções. E decidiu sair não só porque já tinha condição financeira razoável, mas também porque estava cansando das condições brutais do trabalho. Era muita doença e muita malária. Para mim, a conclusão é evidente: nem os próprios garimpeiros gostam do garimpo.

Aí, perguntei porque a família não permaneceu na pecuária. Robson explicou que as áreas eram longe da cidade, onde a sra. Denilze trabalhava e suas filhas queriam morar. Ainda mais: o sr. Belmiro não sabia mexer com gado, não tinha bons meios para aprender e não conseguia achar trabalhadores suficientes com o conhecimento necessário. Com base nessa resposta, percebo que diversas atividades podem sustentar uma família na Amazônia. De fato, quando os mercados são competitivos, os diferentes setores dão retornos semelhantes. Sendo assim, outras variáveis, como o conhecimento técnico disponível, acabam tendo peso desproporcional na decisão.

Mas porque o cacau, quando poderiam ter investido em tantos outros setores, como fazem os empreśarios de Belém e Manaus? Porque não um pet shop, uma distribuidora de gás ou uma incorporadora imobiliária? Entendo que um sítio mais perto de Medicilândia custaria mais caro que em locais distantes, mas o cacau é mais rentável que a pecuária, então a troca poderia valer a pena. Naquela época, a CEPLAC, órgão federal que inspirou a criação da Embrapa, ainda era uma potência que apoiava a cacauicultura no Brasil. Seus técnicos faziam pesquisas em campo, ensinavam os produtores como produzir cacau, treinavam a mão de obra, tiravam dúvidas e ofereciam conselhos. Com base nessa promessa, o sr. Belmiro foi mudando de rumo. Robson chegou durante esse processo. Antes disso, tinha trabalhado num comércio de roupas em Santa Catarina e tinha sido dono de uma lanchonete. Seu último emprego antes de ir para o interior do Pará foi em uma tecelagem de malhas. Aprendeu com o sogro e outros mentores e hoje é um dos mais premiados produtores de cacau fino do planeta.

A história da família Faes-Brogni nos mostra que o compromisso com um setor ou atividade econômica na Amazônia são mais fluidos do que podem parecer. Garimpeiros podem se tornar cacauicultores, pecuaristas podem restaurar florestas. Dinheiro sempre ajuda nessas transições, mas, para converter os ambivalentes, recursos financeiros não são suficientes. Conhecimento técnico - sobre o que produzir, onde produzir, como produzir, para quem vender, quais os obstáculos que impedem os avanços e como eles podem ser removidos - é um fator ainda mais difícil de obter. Complicando ainda mais, o que funciona em uma microrregião, ou mesmo em uma propriedade, pode não funcionar na área vizinha. Isso significa que a geração e a disseminação de conhecimento técnico aplicado é uma chave poderosa para acelerar essa transformação.

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Opinião por Salo Coslovsky

Professor da Universidade de Nova York e pesquisador do Amazônia 2030

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