Governo recua e adia norma sobre saúde mental no trabalho por um ano

Decisão foi publicada no Diário Oficial da União; há duas semanas, Ministério do Trabalho comunicara que a NR-1 entraria em vigor, mas sem aplicação de multas por um ano

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Foto do autor Jayanne Rodrigues
Atualização:

O Ministério do Trabalho e Emprego adiou por um ano o início da vigência da nova redação da NR-1, que trata do gerenciamento de riscos psicossociais, incluindo diretrizes sobre saúde mental no trabalho. A portaria nº 765 foi publicada na quinta-feira, 15, no Diário Oficial da União, e adia para 25 de maio de 2026 a aplicação das novas exigências previstas na norma.

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A decisão adia a vigência do novo capítulo “1.5 Gerenciamento de riscos ocupacionais”. O item 1.5.4 da nova redação trata da identificação, estratificação e elaboração da matriz de severidade dos riscos psicossociais.

No item 1.5.1.5.3, são abordadas questões do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), que agora passa a abranger explicitamente o risco psicossocial.

Outro ponto essencial é o item 1.5.5.5.2, que trata da investigação de nexo entre doenças e o risco psicossocial.

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O Estadão havia antecipado que o governo considerava adiar a norma, com base em relatos de centrais sindicais e confederações empresariais que participaram de uma reunião com o ministro Luiz Marinho.

Dias depois, em 24 de abril, a pasta divulgou uma nota informando que a nova redação da NR-1 entraria em vigor em 26 de maio conforme previsto, mas apenas em caráter educativo. Nesse primeiro ano, não haveria aplicação de multas às empresas.

Na ocasião, o ministro afirmou que o período inicial seria voltado à implantação pedagógica da norma, com as autuações da Inspeção do Trabalho previstas apenas a partir de 26 de maio de 2026.

Na quinta-feira passada, 15, a portaria definiu pelo adiamento da nova redação e não só da multa.

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Decisão do MTE é criticada

Para Glauco Callia, médico corporativo e CEO da Zenith, plataforma de governança em saúde mental, a decisão foi divulgada de forma inesperada, contrariando o posicionamento anterior do governo.

“Esse comunicado saiu de ‘sopetão’”, comenta. Ele diz que a decisão do MTE envia uma mensagem negativa ao mercado.

A impressão que fica é a de que as coisas não devem ser feitas, e o Ministério do Trabalho e Emprego nem sequer se manifestou claramente sobre o que está acontecendo.

Glauco Callia, médico corporativo e CEO da Zenith, plataforma de governança em saúde mental

Segundo ele, a única comunicação oficial disponível sobre a mudança é a publicada no Diário Oficial da União. “É a única pista que temos”, afirma.

Do ponto de vista prático, o médico observa que, na semana anterior ao anúncio, as auditorias já haviam começado, assim como a aplicação de multas e a implementação de Termos de Ajuste de Conduta (TACs).

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Para ele, o início das fiscalizações revela um descompasso entre o Ministério do Trabalho e o Ministério Público do Trabalho.

O médico aponta que, apesar da decisão, o Ministério Público não depende da atualização da NR-1 para agir, pois os riscos psicossociais e a organização do trabalho já são abordados por outra Norma Regulamentadora, a NR-17.

Médico avalia que decisão do MTE é contraditória.  Foto: Cizzy Studio/Adobe Stock

Além de questionar a insegurança jurídica gerada pelas decisões contraditórias do governo, outro ponto alvo de crítica do médico é a falta de transparência no processo. “Existe um comitê tripartite que deveria estar envolvido e repassando informações à sociedade, mas isso não tem acontecido”.

A NR-1 está em vigor desde 1978 e estabelece as diretrizes gerais de saúde e segurança no trabalho. Com a nova redação, passaria a incorporar informações sobre riscos psicossociais. Essas mudanças trariam obrigações específicas para identificar, avaliar e tratar esse tipo de risco nas organizações.

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A reportagem entrou em contato com o MTE para entender as razões do adiamento da NR-1, mesmo após o comunicado anterior sinalizando a manutenção do prazo, e questionou se a pasta considera que houve falha de comunicação ou mudança de entendimento interno sobre o tema.

Até a publicação desta reportagem, não houve resposta.

Especialistas já contestavam adiamento, enquanto empresas temiam riscos jurídicos

Especialistas em saúde mental e segurança do trabalho ouvidos pelo Estadão alertavam que a postergação poderia atrasar avanços em bem-estar, produtividade e prevenção de acidentes.

Além disso, reforçavam o risco de desmobilização das empresas, que poderiam deixar o tema de lado até a nova data de vigência da NR-1.

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Já juristas argumentavam que a maior preocupação do setor empresarial não era com eventuais multas, mas com o impacto jurídico de documentos internos que poderiam ser usados como prova em processos trabalhistas ou previdenciários.