Silenciosamente, em um comunicado repleto de jargões no site do Banco Central da Argentina, o presidente Javier Milei fez uma mudança crucial. A partir de janeiro, o peso argentino — duramente atingido pelos mercados e sustentado por Donald Trump neste ano — poderá flutuar com mais liberdade.
Desde abril, a moeda tem oscilado dentro de uma faixa, cujos limites se ampliam em 1% a cada mês. Agora, essa faixa se ampliará acompanhando a inflação, atualmente em 2,5% ao mês. Isso permitirá que o peso, que muitos consideram sobrevalorizado, se desvalorize mais rapidamente.
Também contribuirá para um novo plano de compra de cerca de US$ 10 bilhões em reservas internacionais no próximo ano. Tudo isso representa um passo bem-vindo, ainda que cauteloso, para lidar com a principal fragilidade do programa de reformas liberalizantes de Milei.

Seu governo há muito tempo busca manter o peso forte. Isso ajudou a reduzir a inflação, mas prejudicou as exportações e dificultou muito o acúmulo de reservas internacionais. Isso preocupou o Fundo Monetário Internacional (FMI) e os investidores, que têm dólares a receber.
Com a aproximação das eleições de meio de mandato em outubro, todos começaram a vender pesos, forçando o banco central a vender bilhões de dólares para defender o limite da banda cambial. O peso corria o risco de desvalorizar drasticamente, o que poderia comprometer as chances eleitorais de Milei e seu projeto de reformas mais amplo.
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Então, de forma extraordinária, o Tesouro dos EUA apoiou o peso. Isso aliviou a pressão e ajudou Milei a vencer. Ele ainda insistia que não alteraria o regime cambial, mas os investidores permaneceram preocupados.
O FMI saudou imediatamente a mais recente mudança. O mesmo aconteceu com os mercados: as ações argentinas e os títulos denominados em dólares dispararam, sugerindo que o governo poderá em breve voltar a captar recursos nos mercados de capitais globais. O peso se desvalorizou. A ampliação das bandas de desvalorização monetária acarreta o risco de um aumento moderado da inflação, mas isso representa um problema menor para o governo agora que as eleições de meio de mandato já passaram.
Ainda assim, isso está longe de ser um regime de câmbio flutuante pleno. Em termos reais, a banda cambial estava, na prática, forçando o peso a se valorizar ao longo do tempo. Agora, permitirá que ele se desvalorize, mas apenas marginalmente. Isso ainda deixará o peso sobrevalorizado, afirma a consultoria Capital Economics, de Londres.
Além disso, o Banco Central afirma que as compras de reservas cambiais dependerão da taxa de crescimento econômico e do tamanho do mercado de câmbio. Ainda não anunciou um programa para controlar a inflação por meio das taxas de juros. A jornada monetária de Milei ainda não terminou.
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