The Economist: O alto custo de demitir trava a inovação na Europa

As regras trabalhistas concebidas no século XX na Europa estão prejudicando o continente no século XXI

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Por The Economist

Existem duas formas de empresas ocidentais demitirem muitas pessoas. A americana envolve o chefe convidar centenas de funcionários desavisados para uma chamada no Zoom, oferecer alguns meses de salário como indenização e desejar, de forma pouco sincera, boa sorte em seus futuros empreendimentos (ah, e que esvaziem suas mesas até a hora do almoço).

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O método europeu é mais demorado. Empresas que desejam realizar demissões em massa normalmente começam com consultas a sindicatos, cujos representantes têm assento nos conselhos de empresas na Alemanha. Um plano social é elaborado. Greves inevitavelmente acontecem. Políticos se envolvem e pressionam o empregador a demitir menos pessoas do que havia planejado originalmente, ou a pagar para que seus futuros ex-funcionários sejam requalificados.

O custo total da reestruturação só é conhecido quando os tribunais trabalhistas são chamados a decidir a questão, anos depois. Enquanto isso, a empresa em questão muitas vezes não pode contratar mais funcionários, sob o risco de ser obrigada a recontratar aqueles que acabou de dispensar.

O sistema europeu pode parecer mais humano. Na verdade, o processo complicado para demitir trabalhadores traz custos ocultos. Não é apenas o fato de que a despesa e a dor de cabeça de demitir funcionários de vez em quando pesam na rentabilidade de longo prazo das empresas.

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Regras trabalhistas de EUA e Europa são bem diferentes; no mercado europeu dificuldade para demitir trabalhadores atrapalha no avanço da inovação Foto: Adobe Stock

O problema maior é que a dificuldade de reduzir pessoal em massa — uma realidade da vida corporativa — afasta as maiores empresas europeias de apostas arriscadas em campos inovadores. Em particular, investimentos em inovações disruptivas (pense nos tipos de produtos arrojados que normalmente vêm do Vale do Silício, de modelos de inteligência artificial a carros autônomos) exigem a capacidade de contratar muitos funcionários e depois demitir a maioria deles caso os projetos não deem certo. Os altos custos de reestruturação na Europa tornam tais investimentos inviáveis — com um impacto devastador na economia do continente.

“Quando demitir é caro, como ocorre na maior parte da Europa, os empregadores relutam em investir em empreendimentos arriscados”, afirma Olivier Coste, ex-funcionário da União Europeia que se tornou empreendedor de tecnologia. Ao lado de Yann Coatanlem, também empreendedor e economista, ele acompanha os custos (muitas vezes opacos) das reestruturações corporativas.

Uma empresa americana que demite trabalhadores terá custos equivalentes a sete meses de salário para cada funcionário dispensado e pronto. Na Alemanha, o custo equivale a 31 meses de salário; na França, 38 meses. Além das indenizações e das concessões para manter os sindicatos satisfeitos, a maior despesa é manter trabalhadores improdutivos na folha que a empresa preferiria já ter dispensado.

Novos investimentos são adiados por anos enquanto os empregados demitidos são gradualmente substituídos. As empresas americanas rapidamente migram para novas oportunidades ousadas; as europeias ficam atoladas em disputas com sindicatos, frequentemente devido a leis criadas há quase um século.

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Os altos custos de reestruturação distorcem o tipo de investimento que executivos nos Estados Unidos e na Europa podem fazer. Imagine uma grande empresa financiando dez projetos arriscados. Mesmo em companhias bem administradas, tipicamente oito deles fracassam, diz Coste, resultando em demissões em massa (a Apple, por exemplo, tentou por anos desenvolver um carro autônomo, mas demitiu 600 funcionários quando desistiu do projeto no ano passado).

Os dois projetos restantes geram lucros muitas vezes superiores às somas investidas. Quando o custo do fracasso é baixo, como nos EUA, trata-se de uma aposta atraente para qualquer empresa. Se demitir funcionários é caro, como na Europa, simplesmente não compensa. O efeito é visível no cenário corporativo do continente. Muitas das grandes empresas europeias vendem produtos que são, essencialmente, versões aprimoradas do que já vendiam no século XX, sejam turbinas, xampus, vacinas ou aviões. Já as empresas de ponta americanas vendem chatbots de IA, computadores em nuvem e foguetes reutilizáveis.

Por décadas, a Europa se saiu bem com seu modelo de inovação incremental, mas quase sempre lucrativo. Empresas centenárias mostram que ainda há dinheiro a ser ganho desenvolvendo um pneu um pouco melhor ou um trem mais rápido. Mas, nos últimos anos, as recompensas para empresas que fizeram apostas ousadas aumentaram muito.

Empresas de tecnologia que buscaram inovação disruptiva se tornaram gigantes avaliados em trilhões de dólares. Nenhuma delas está na Europa. A Nvidia, uma fabricante americana de chips, vale mais do que as 20 maiores empresas listadas da União Europeia juntas. Parte disso pode ser uma bolha cujo estouro respingará nos negócios americanos. Mas a ausência de companhias nesses setores de destaque é uma das razões pelas quais a produtividade por hora trabalhada na Europa caiu em comparação com os EUA nas últimas décadas.

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Não contrate e não demita

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As empresas europeias enfrentam uma série de problemas. Regulamentações sufocantes, energia cara, altos impostos e um mercado único fragmentado são obstáculos conhecidos. Ainda assim, poucos consideram a legislação trabalhista um grande problema. Afinal, por que empresas de sucesso, se conseguissem se desenvolver na Europa, precisariam reduzir seu quadro de funcionários? Mas a verdade é que elas precisam.

Microsoft, Google e Meta já demitiram mais de 10 mil funcionários de uma só vez nos últimos anos, apesar de estarem com negócios em alta. Satya Nadella, CEO da Microsoft, disse que demitir pessoas mesmo quando sua empresa estava prosperando era o “enigma do sucesso”. Tente dizer isso aos políticos europeus.

Quando Bosch e Volkswagen, dois gigantes industriais alemães, anunciaram recentemente suas próprias demissões, os prazos se estenderam até 2030.

Os europeus são apegados à sua forma mais “acolhedora” de capitalismo. Ser um pouco mais pobre do que os americanos, mas com menos horas de trabalho e maior segurança no emprego, faz parte do pacto social continental. Mas ajustes nas regras trabalhistas europeias poderiam estimular a inovação ao mesmo tempo em que preservam direitos valiosos.

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Coste e Coatanlem sugerem que os trabalhadores mais bem pagos da Europa — muitas vezes profissionais de tecnologia que precisam de pouca proteção social — deveriam ser tão fáceis de demitir quanto nos EUA. Países escandinavos já tornaram mais fácil para as empresas demitir funcionários, ao mesmo tempo em que garantem benefícios generosos de desemprego.

O segredo está em equilibrar a necessidade de bem-estar social com a imperativa necessidade de inovação. A segurança no emprego já foi uma espécie de cobertor de conforto para a Europa. Hoje, parece mais uma camisa de força.

Este conteúdo foi traduzido com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial e revisado por nossa equipe editorial.Saiba mais em nossa Política de IA.