Duquesa de Tax: ataques à independência do Fed mostram que EUA estão numa ‘season’ mais Brasil
A colunista destaca que a demissão de diretora da autoridade monetária expõe uma tensão pouco comum na política americana: a interferência direta no Fed. Crédito: Edição: Jefferson Perleberg/Estadão
Donald Trump nomeou Kevin M. Warsh como presidente do Federal Reserve, substituindo Jerome Powell. Warsh, ex-diretor do Fed, precisa de confirmação do Senado. A escolha ocorre em meio a tensões sobre taxas de juros, com Trump pressionando por cortes mais agressivos. Warsh, crítico do Fed, defende uma política monetária mais coordenada com o Tesouro. A nomeação levanta questões sobre a independência do Fed, essencial para a confiança pública e a estabilidade econômica.
O presidente americano Donald Trump escolheu Kevin M. Warsh para ser o próximo presidente do Federal Reserve (Fed), dando ao ex-diretor do banco central dos EUA um papel fundamental na direção de uma instituição que tem enfrentado uma enxurrada de ataques do governo por sua relutância em reduzir as taxas de juros de forma mais agressiva.
Em uma postagem na rede Truth Social, Trump elogiou Warsh, dizendo que “ele ficará na história como um dos GRANDES presidentes do Fed, talvez o melhor. Além de tudo isso, ele é ‘perfeito para o cargo’ e nunca irá decepcioná-los”.
O anúncio desta sexta-feira, 30, encerrou um longo processo de busca para substituir Jerome H. Powell, cujo mandato como presidente do banco central termina em maio. Warsh, que atuou como diretor do Fed entre 2006 e 2011, superou outros candidatos, incluindo Kevin A. Hassett, um dos principais assessores econômicos do presidente, e Christopher J. Waller, atual diretor do banco. Rick Rieder, um dos principais executivos da BlackRock, a maior gestora de ativos do mundo, também foi um dos finalistas.

Warsh, um economista conservador que era um dos favoritos para assumir a presidência do Fed durante o primeiro mandato de Trump, precisará ser confirmado pelo Senado.
A seleção ocorre em um momento crítico para o Fed, cujos funcionários enfrentam pressão implacável do governo Trump para oferecer alívio aos detentores de hipotecas imobiliárias, enquanto lidam com um mercado de trabalho enfraquecido e inflação persistente. Essa dinâmica colocou os principais objetivos do Fed, de preços estáveis e baixo desemprego, em tensão entre si, alimentando divisões internas sobre o que fazer com as taxas.
O principal critério de Trump para o cargo de presidente do Fed era alguém que apoiasse taxas de juros significativamente mais baixas, o que tem sido a maior fonte de tensão entre Trump e Powell, que agora é alvo de uma investigação criminal do Departamento de Justiça por acusações sobre sua gestão das reformas na sede do banco central em Washington.
Powell, que até a investigação havia ignorado os ataques do presidente, rebateu diretamente, acusando o governo de usar ameaças legais como retaliação contra a instituição por não reduzir as taxas tão rapidamente quanto Trump gostaria. Os republicanos do Senado apoiaram Powell, com alguns chegando a dizer que bloqueariam a confirmação de qualquer candidato ao Fed até que a questão fosse resolvida.
Como presidente do Fed, Warsh, de 55 anos, terá influência sobre as decisões políticas do banco central, mas longe de ter controle total. As taxas de juros são definidas por um comitê de 12 pessoas, que inclui todos os sete membros do conselho de diretores do Fed, bem como um grupo rotativo de quatro presidentes dos Feds regionais. O presidente do Federal Reserve Bank de Nova York tem voto permanente.
Na quarta-feira, 28, o comitê optou por manter as taxas estáveis em uma faixa de 3,5% a 3,75% em sua primeira reunião do ano. A pausa desta semana seguiu-se a três cortes de 0,25 ponto na segunda metade de 2025. Apesar dessas medidas, as taxas estão bem acima do nível de aproximadamente 1% que Trump havia solicitado no passado.
Essa desconexão gerou outras tentativas do governo Trump de pressionar o Fed, além de apenas visar a Powell. O presidente está tentando demitir uma diretora, Lisa D. Cook, por alegações de que ela cometeu fraude hipotecária antes de ingressar no Fed. A Suprema Corte ouviu este mês os argumentos para esse caso e pareceu cética em relação ao argumento do presidente de que ele tinha motivos para demiti-la. Os juízes também expressaram inquietação com a invasão da independência do Fed e as perspectivas de um impacto econômico adverso.
Warsh, que anteriormente trabalhou como assessor do presidente republicano George W. Bush, apoiou publicamente a necessidade de cortes nas taxas, argumentando que as tarifas não levarão a uma inflação persistentemente mais alta.
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Em um sinal precoce de parte da resistência que Warsh pode enfrentar se buscar taxas substancialmente mais baixas do que a economia exige, a escolha de Trump para ingressar no banco central por um período temporário, Stephen I. Miran, tem se esforçado para persuadir outros diretores a apoiar as reduções agressivas pelas quais ele votou repetidamente desde que assumiu o cargo em setembro. Miran preencheu uma vaga deixada por Adriana D. Kugler, uma diretora que renunciou antecipadamente ao cargo e mais tarde foi considerada culpada por violar as regras de negociação do Fed.
Desde que deixou o Fed há quase 15 anos, Warsh, que atualmente trabalha com o investidor bilionário Stanley Druckenmiller e também é membro sênior da Hoover Institution da Universidade de Stanford, emergiu como um crítico ferrenho do banco central. No início deste ano, ele pediu uma “mudança de regime na condução da política”, dizendo à CNBC na época que “o déficit de credibilidade recai sobre os titulares que estão no Fed, na minha opinião”. Ele criticou repetidamente o Fed por não ter percebido o aumento da inflação após a pandemia e provavelmente apoiará a redução do quadro de funcionários do banco.
Enquanto esteve no Fed, Warsh se estabeleceu como um dos chamados “falcões da inflação”, preocupado com as pressões sobre os preços e defendendo taxas mais altas. Em vez disso, a inflação ficou abaixo da meta de 2% do Fed. Ele também se posicionou contra a decisão do banco central de comprar títulos do governo dos EUA após a crise financeira global, como parte do chamado programa de “flexibilização quantitativa”, que visava a fortalecer a economia por meio da redução dos custos dos empréstimos.
Warsh foi fundamental na formulação da resposta do Fed à crise de forma mais ampla, incluindo a ajuda na negociação da venda do Bear Stearns para o JPMorgan Chase e na organização do resgate do governo da American International Group, gigante do setor de seguros. De modo geral, ele apoiou a manutenção de um balanço patrimonial pequeno pelo Fed.
Desde então, Warsh tem associado taxas de juros mais baixas a um balanço patrimonial menor para o Fed, argumentando que reduzir a presença do banco central nos mercados financeiros - uma medida que provavelmente aumentaria os custos dos empréstimos de longo prazo - daria às autoridades mais espaço para reduzir os custos dos financiamentos de curto prazo.
Como parte desse plano, Warsh pediu uma reformulação do acordo de 1951 que estabeleceu a independência da política monetária do Fed, ao mesmo tempo em que deu ao Tesouro o controle dos gastos e da tributação do governo. O que ele quer é uma coordenação mais estreita entre o Fed em termos de como ele gerencia seu balanço patrimonial e a dívida que o Departamento do Tesouro emite para cobrir as obrigações do governo.
Se confirmado pelo Senado, Warsh será forçado a superar as dúvidas sobre como cumprirá suas responsabilidades à frente do Fed e até que ponto cederá à pressão de Trump.
Em risco está a confiança do público de que o Fed opera livre de interferências políticas, uma independência que economistas e investidores há muito consideram crucial para o bom funcionamento dos mercados financeiros e a solidez geral da economia.
No passado, Warsh descreveu a independência do Fed como “preciosa” e “essencial”, mas também sugeriu que ele não deveria operar de forma totalmente autônoma.
“A história nos mostra que a independência na condução da política monetária é essencial”, disse ele à CNBC recentemente. “Mas isso não significa que o Fed seja independente em tudo o mais que faz.”
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