Foto: AS/COACORRESPONDENTE EM NOVA YORK - O vice-presidente executivo da Americas Society e do Conselho das Américas (AS/COA), Brian Winter, considera a relação entre os Estados Unidos e o Brasil singular tanto na política quanto na economia. Ele chama a atenção para fatores não vistos nas negociações comerciais da Casa Branca com outros países.
Sob a visão política, Donald Trump demonstra interesse em impedir que o ex-presidente Jair Bolsonaro tenha um destino semelhante ao que ele próprio quase enfrentou. Na economia, como o Brasil “representa apenas cerca de 1% das importações dos EUA”, o efeito das tarifas na inflação é pequeno para conter o republicano.
Por isso, a expectativa de repetição do comportamento apelidado de “TACO”, de que “Trump sempre amarela” (na tradução em português) pode gerar frustração.
Em entrevista exclusiva ao Estadão/Broadcast, o brasilianista, que viveu por cinco anos no Brasil e hoje se dedica a explicar o País para os norte-americanos e ao redor do globo, compara o contexto entre Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como um jogo de pôquer em que “parece que todo mundo acha que vai ganhar”.
“E o problema é que pode ser um jogo em que todos perdem”, alerta Winter na entrevista. A seguir, os principais trechos:
Há expectativa de negociação entre Brasil e EUA. Mas, na prática, ainda não vimos avanços. Qual sua visão?
É como se os dois lados estivessem em um jogo de pôquer, empurrando suas fichas para o centro da mesa. Vejo pouca tentativa de desescalada. Parece que todo mundo acha que vai ganhar. E o problema é que pode ser um jogo em que todos perdem. Essa confrontação com o Brasil é, na minha visão, algo pessoal para Trump e, portanto, as regras do jogo são diferentes de outras conversas tarifárias.
Que tipos de sanções os EUA podem impor ao Brasil?
O caso da Colômbia é roteiro para a administração Trump, caso queira aplicar pressão máxima sobre o Brasil — e essa é uma possibilidade muito perigosa. Por quê? Bem, por coincidência, eu estava na Colômbia no dia da confrontação entre o presidente Gustavo Petro e Trump. Isso aconteceu em um domingo, o que foi muita sorte para a Colômbia, que teve tempo para convencer o presidente a recuar. Por que foi tão perigoso? Porque incluía não apenas tarifas, mas também o fim do processamento de vistos para todos os colombianos, e sanções financeiras pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros do Tesouro americano (OFAC), que poderiam ter dificultado o acesso da Colômbia ao sistema financeiro internacional.
Trump pode fazer o mesmo com o Brasil?
Sim. Esse é um manual que os EUA têm para cenários extremos, e que não usaram contra nenhum outro país. Mas aqui volto à natureza pessoal deste conflito. O presidente Trump está sendo informado pela família Bolsonaro e outros de que a democracia brasileira está em risco, que é sua responsabilidade salvá-la e impedir que Bolsonaro tenha um destino semelhante ao que ele mesmo quase enfrentou. Se Trump tivesse perdido a eleição em novembro, ele poderia estar na prisão, e o presidente americano sabe disso, e é por essa razão que esse conflito com o Brasil é tão pessoal para ele. E, então, na sua visão, é concebível usar esse conjunto mais extremo de medidas para salvar uma democracia importante.
A tarifa contra o Brasil já é alvo de ação na Justiça dos EUA. O setor privado americano pode pressionar Trump a recuar?
O período agora é para o diálogo. Não há diálogo suficiente. Quando Trump confrontou o México, uma delegação mexicana imediatamente pegou um avião para Washington e estava lá no dia seguinte. No caso do Panamá, as conversas começaram instantaneamente. Em ambos os casos, foram conversas extremamente difíceis. Para o Panamá, era uma questão de soberania territorial, e foi importante ‘engolir o sapo’ para iniciar as conversas. Os quatro anos e meio de Trump mostram que é importante engolir o orgulho e ir negociar, pelo menos a curto prazo. Se os governos desejam retaliar de alguma forma, tentando, a médio prazo, depender menos dos EUA e diversificar suas relações com outros países e concluir que os americanos não são mais um parceiro tão confiável, cabe a eles. Mas, a curto prazo, a melhor saída é negociar.
Há comitivas do Brasil planejando viagens aos EUA. O setor privado pode fazer a diferença nas conversas?
É bom ver os setores privados tanto do Brasil quanto dos EUA conversando com membros do governo, enfatizando as conexões entre nossos países, a importância da relação entre os EUA e o Brasil. Acho que o governo brasileiro tem sido um pouco tardio na condução do diálogo.
Por que o Brasil não quer engolir esse sapo?
Por uma série de razões. O Brasil nunca teve uma relação de dependência com os EUA. Mesmo antes da tensão, havia pouco diálogo, e já era sabido que esse embate era inevitável. Agora, o foco está no diálogo. Considerando as sinalizações recentes, vejo um padrão perigoso de escalada e retórica de confronto vindo de todas as partes.
O quadro pode se agravar se Bolsonaro for preso?
Há muitos fatores complicadores. Um deles é quase certeza de que vai piorar antes de melhorar. Estive no Brasil na última semana de junho e ouvi a expectativa quase universal em todas as minhas reuniões de que Bolsonaro seria preso ou colocado em prisão domiciliar antes do fim do ano. Agora, olhando para as manchetes, isso parece ainda mais iminente e ativaria qualquer opção nuclear de Trump. Essa é uma das razões pelas quais acho que a tensão vai continuar a escalar no curto prazo.
Trump consegue colocar mais pressão no Brasil sem o aval do Congresso dos EUA?
Na prática, eu acho que o Trump vai fazer o que ele quiser. Ele vê o Brasil como um alvo fácil porque o País representa apenas cerca de 1% das importações dos EUA, e assim o efeito da inflação provavelmente existe, mas é pequeno. Três meses após o Dia da Libertação, houve pouca inflação adicional, e Trump está se sentindo fortalecido, com sua popularidade estável.
O presidente Lula também tem tido um melhor desempenho nas pesquisas...
Estou cético em relação a essa narrativa. As pesquisas que vi mostram apenas uma recuperação muito pequena. E o pleito no Brasil não é em outubro de 2025, é em outubro de 2026.

Essa guerra comercial pode se transformar em uma batalha judicial?
No início, eu estava mais esperançoso de uma saída judicial. Mas há dois problemas. Um é que o presidente Trump tende a ser muito persistente, e se seu objetivo é prejudicar o Brasil, então ele provavelmente encontrará uma maneira de alcançá-lo. Embora o julgamento de Bolsonaro possa ser legalmente questionável como base para as tarifas, algumas das outras razões citadas, incluindo a suposta censura a big techs, podem ter mais chances de sobreviver a um questionamento legal. A única saída é a política. É importante que os setores privados de ambos os países se envolvam, para falar sobre a importância desse relacionamento. Mas suspeito de que apenas uma pessoa possa convencer Trump a recuar, e é Bolsonaro.
O deputado Eduardo Bolsonaro mencionou a possibilidade de os EUA retirarem o Brasil do sistema SWIFT (rede global para transferências financeiras). Há esse risco?
É uma forma parecida de punição que a Colômbia temia em janeiro. Seria uma medida extremamente drástica que poderia até gerar algum tipo de reação de outros países, mas está claro que Trump, quando pressionado, escalará ao máximo possível. É assim que ele operou nos negócios, e é assim que ele tem feito como presidente. Não sei se o SWIFT está na mesa, mas estou certo de que Trump buscará mecanismos que tenham o máximo efeito.
Mas não é uma medida fácil, certo?
Não é fácil. Isso é verdade. E, para ser claro, não ouvi ninguém além de Eduardo Bolsonaro falar sobre isso. Existe algum tipo de limite para os EUA, mas eu realmente acho que, quando pressionado, Trump sempre escala, e ele tem muitas ferramentas à disposição que seriam destrutivas para o Brasil.
O caso envolvendo o Brasil está chamando atenção nos EUA?
O Brasil é proeminente, mas também está sendo ignorado. As pessoas que acompanham política, engajadas nas redes, especialmente da direita, têm algum conhecimento desse caso. O público americano em geral não tem ideia do que está acontecendo. Houve uma decisão coletiva de esquecer as tarifas. Depois de abril, quando houve um verdadeiro pânico, nada aconteceu na mente do consumidor e do eleitor americano, e as pessoas têm ignorado isso, até os mercados financeiros decidiram que não é relevante, essa ideia de ‘TACO’ (em inglês, ‘Trump Always Chickens Out’), de que ‘Trump sempre amarela’.
O Brasil pode ser outro ‘TACO’?
Eu ficaria muito surpreso se Trump recuasse neste caso, por causa não apenas de sua amizade com a família Bolsonaro, que acho que é real e sincera, mas principalmente porque isso reflete na mente de Trump seu próprio trauma, seu encontro com a prisão e a desgraça. Trump vê Bolsonaro como um espelho do que aconteceu com ele. E, às vezes, os paralelos são muito bizarros. Os EUA tiveram o 6 de Janeiro, o Brasil teve o 8 de Janeiro. Há diferenças importantes, é claro, mas há outro elemento que eu acho que não está ajudando que são as ações do Supremo Tribunal Federal e, especificamente do ministro Alexandre de Moraes. Pessoas razoáveis fora da direita brasileira levantaram preocupações e objeções a algumas de suas decisões. Sou um americano que tenta explicar o Brasil para outros americanos e para pessoas em todo o mundo, e algumas das medidas que ele tomou são quase impossíveis de explicar para o público externo.
Mas também não é difícil explicar um país tentando interferir no outro?
Eu entendo esse argumento, e concordo que há uma questão separada que é o espetáculo de um presidente dos EUA tentando influenciar o sistema judicial no Brasil. Se a narrativa da família Bolsonaro é de que a democracia está sob ataque, é difícil para pessoas nos EUA entenderem as decisões dos últimos dias em que Bolsonaro está proibido de usar suas contas de rede social ou de contatar seu filho. Tive conversas com observadores na Argentina, na Colômbia e no Chile. O sistema judicial brasileiro tem suas peculiaridades, com decisões sempre monocráticas, e o imperativo histórico de combater o autoritarismo que leva o Brasil a impor mais restrições à liberdade política. Não é o único país no mundo que faz isso, mas também a Alemanha e a Inglaterra. Mas, na batalha pela opinião pública, isso definitivamente complicou o caso para o governo Lula e outros que estão tentando argumentar que a família Bolsonaro está errada e que o Brasil é, de fato, uma democracia forte.
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O conflito pode impactar a visão dos investidores estrangeiros sobre o Brasil?
Os investidores entendem que tarifas de 50% são ruins para a economia brasileira, mas toleráveis. As agências de risco não mudaram suas previsões, ratings ou mesmo suas perspectivas para o Brasil. A economia brasileira tem sido mais resiliente nos últimos anos do que a maioria esperava. Isso ajuda. Mas, se essas tarifas entrarem em vigor, podem ter um efeito inibidor sobre os investidores, que, por natureza, são conservadores. A maioria ainda ficará de braços cruzados porque entende que um país em uma situação como essa se torna um pouco radioativo e, se as sanções se expandirem, também pode ter um impacto no sistema financeiro, tornando o crédito mais difícil para todos.
É possível ver uma luz no fim do túnel?
Temos pessoas muito inteligentes em São Paulo, Nova York, Washington, Brasília, juntando suas cabeças e dizendo que precisamos entender que isso pode ser ruim para todos. É possível que ninguém realmente se beneficie disso, nem Lula, nem Bolsonaro, nem os brasileiros, nem os americanos. É preciso construir o diálogo.








