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Conversar com bebê faz diferença? Professora de Harvard explica o impacto disso na adolescência

Compreensão de textos aos 12 anos é impactada pelas interações entre pais e filhos até os 2 anos de idade, mostra pesquisa

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Foto do autor Renata Cafardo

Conversar sobre as nuvens no céu ou sobre as ideias para presentes de Natal com bebês de 2 anos pode ajudar na compreensão que eles terão de textos tempos depois, na adolescência. Uma pesquisa de professores da universidades de Harvard e de Chicago (EUA), que acompanhou 42 famílias durante dez anos, mostra como é importante pais e mães instigarem e também ouvirem as ideias das crianças pequenas.

Os estudiosos visitaram as casas dessas famílias para presenciar as interações que mães tinham com seus filhos de até 30 meses. Um década depois, testaram os já adolescentes. E concluíram que aqueles que participaram de mais conversas chamadas de “descontextualizadas” foram os que tiveram melhor desempenho em linguagem aos 12 anos, independentemente da situação socioeconômica.

Essas conversas, como o próprio nome diz, não envolvem o contexto físico em que o bebê está inserido. São sobre coisas que ele não consegue apontar ou mostrar e precisa mesmo da linguagem para se comunicar.

Interações sobre passado e futuro são importantes para o desenvolvimento da linguagem Foto: Adobe Stock

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Podem ser papos sobre algo que passou, como brincadeiras que fez na escola, ou que vai acontecer no futuro, como a festa de aniversário. Ou ainda explicações e ideias sobre coisas curiosas, como nuvens e animais selvagens, e histórias imaginadas durante brincadeiras.

Uma das pesquisadoras, a professora de educação de Harvard Paola Uccelli, que esteve no Brasil na semana passada a convite do Laboratório de Educação (Labedu), reforça que são diálogos simples. Mas que precisam ser em mão dupla, ou seja, com adultos e crianças falando, ouvindo as ideias uns dos outros e construindo juntos aquele conhecimento.

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A explicação é que essas interações exigem vocabulário e estrutura de linguagem mais complexos, habilidades narrativas, abstração, acesso a emoções e reflexões - elementos cruciais mais pra frente na compreensão de texto.

É claro que os pais pesquisados não conversaram com seus filhos até os 30 meses e depois ficaram mudos até que eles completassem 12 anos. Apesar de terem analisado um período específico, os pesquisadores entendem que são famílias que continuaram seguindo esse padrão de diálogo com os filhos, que os beneficiou na adolescência.

Paola também mostra em suas pesquisas como a compreensão da linguagem nas escolas diminui ao longo dos anos em vários países. Mesmo crianças que aprenderam a decodificar as letras e entendiam textos apropriados para o 3º ano, depois não compreendem o que lêem no 5º ano, quando os materiais ficam mais complexos.

O que a pesquisadora deixa claro é que a alfabetização e principalmente a compreensão de textos é um processo construído durante toda a vida. E que não só a linguagem falada, mas a leitura e a escrita dependem muito de conversas, discussões, debates, tanto em casa quanto na escola.

“Compreensão não é uma habilidade técnica. É uma mistura do que a pessoa já sabe com o que ela vai aprendendo”, diz Paola.

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Só cerca de 30% dos adolescentes chegam ao 9º ano ou ao 3º ano do ensino médio no Brasil com desempenho adequado em leitura. O que Paola e seus colegas ensinam é que se queremos ter jovens que entendem o que leem, é preciso que as famílias conversem com seus filhos desde cedo. E que as escolas acabem de vez com aulas que silenciam crianças e adolescentes em nome de uma suposta disciplina.