Instagram vai dizer “já deu por hoje” para adolescentes nos EUA
Acordo obriga a Meta a limitar o tempo de uso e mudar recursos como rolagem infinita e autoplay; medidas dialogam com o ECA Digital no Brasil. Crédito: Edição: Jefferson Perleberg e Júlia Pereira
Gerando resumo
O TikTok removeu 7,96 milhões de vídeos no Brasil só no 1º semestre de 2026. Mais de 2 milhões deles tinham comportamentos sexualizados, 1 milhão continham abuso sexual e físico de jovens e outro 1 milhão, atividades e desafios perigosos.
Na plataforma de jogos Roblox, no mesmo período, foi aplicado um total de 1,25 milhão de medidas contra usuários brasileiros, a maioria por assédio, discriminação, golpes e conteúdo sexual. Desses, cerca de 490 mil tiveram suas contas suspensas ou encerradas.
Os números estão nos primeiros relatórios de transparência apresentados no dia 17 pelas plataformas, exigidos pelo ECA Digital, a nova lei de proteção de crianças e adolescentes online no País. A Meta, empresa dona do Facebook, Instagram, Messenger e Threads, também publicou o seu documento com dados sobre remoção de contas e conteúdos por inadequação.
Leia também
Testamos o Duolingo como se tivéssemos 10 anos - app descumpre lei para crianças e adolescentes?
Governo quer prazo de até 12h para redes acionarem polícia por risco grave a criança e adolescente
Considerando só dados sobre Instagram, de janeiro a junho a empresa diz ter removido 1.843.839 contas de usuários que teriam violado os padrões de comunidade. A imensa maioria das contas (1.813.982 delas) foram removidas por má conduta relacionada a exploração sexual, abuso e nudez infantil.
Outras banidas estavam relacionadas aos temas de bullying e assédio; exploração sexual de adultos; suicídio, automutilação e distúrbios alimentares. Jogos e jogos de azar online também foram motivos citados.
Já o Facebook removeu 596.120 contas de usuários no período. As temáticas seguem o mesmo padrão do Instagram, com banimentos causados por temas de exploração sexual, abuso e nudez infantil (525.571).
Os documentos, entregues à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), mostram estratégias e níveis de detalhamento bastante diferentes entre as plataformas. Procurada, a agência informou que analisa os relatórios.
Enquanto TikTok, Roblox e Meta apresentam dados objetivos de ações de moderação, o Google publicou um documento de duas páginas e informou que ainda irá complementar suas informações com métricas do período.
Procurado pela reportagem, o Google não passou mais informações. As demais plataformas também não fizeram comentários adicionais.

O ECA Digital passou a exigir relatórios semestrais de transparência das plataformas digitais com mais de um milhão de usuários menores de 18 anos registrados no Brasil.
Entre as informações exigidas pela nova lei que devem estar nos relatórios estão:
- canais de denúncia e os sistemas de investigação,
- número de reclamações e notificações recebidas,
- ações de moderação de conteúdos e contas,
- medidas para identificar contas de crianças e adolescentes,
- melhorias na proteção de dados e privacidade,
- mecanismos para verificar consentimento parental e,
- métodos e resultados das avaliações de impacto e de riscos à segurança e à saúde desse público.
Em caso de descumprimento de determinações do ECA Digital, incluindo a entrega dos relatórios de transparência com as obrigações previstas, a ANPD pode sancionar as plataformas com advertências ou multas que podem variar de 10% do faturamento das empresas no último ano de exercício até R$ 50 milhões por cada infração cometida.
O relatório do Tik Tok também informa que 2 milhões de contas foram removidas no Brasil por suspeita de pertencerem a usuários menores de 13 anos de janeiro a junho. Houve 322.297 recursos contra esses banimentos e cerca de 212 mil perfis foram restaurados depois de análise.
O Roblox retirou do ar 434,8 mil conteúdos no 1º semestre de 2026 - podem ser vídeos, áudios e imagens - por violações de suas regras, como compartilhamento de informações pessoais (30,9%), conteúdo romântico ou sexual (30,1%), palavrões (10,4%) e conteúdo violento ou com sangue (5,7%).
Segundo a empresa, 99% dos conteúdos considerados “infratores” foram identificados por sistemas automatizados. A plataforma explicou que penalidades podem ocorrer não apenas por um conteúdo específico, mas também por comportamentos que acontecem nos chats.
Cerca de 100 milhões de pessoas usam o Roblox diariamente no mundo, e quase 40% delas têm menos de 13 anos, segundo dados da empresa de 2024.
Google publicou relatório com 2 páginas: ‘Escandaloso’
O documento publicado pelo Google é substancialmente diferente dos outros dois. Com só duas páginas, ele descreve principalmente as ferramentas da empresa para combater material de abuso sexual infantil, como inteligência artificial, revisão humana e denúncias.
Mas o próprio Google informa que “as métricas referentes ao período de 17 de março a 30 de junho ainda estavam passando por validação interna e seriam complementadas até 25 de setembro”.
Não há no documento número de denúncias recebidas, moderações por tipo, contas infantis identificadas, medidas de consentimento parental ou resultados de avaliações de impacto e riscos. Para Rafael Zanatta, codiretor da Data Privacy Brasil, o relatório do Google é “escandaloso”.
“A impressão que dá é que não querem criar uma precedência regulatória que pode influenciar outros países a exigir o mesmo”, afirma ele, que ajudou na elaboração do ECA Digital. “Mesmo assim, outras empresas também globais estão passando as suas métricas, como pede a lei no Brasil.”
Maria Mello, gerente de Digital do Instituto Alana, diz que esses relatórios são um começo, mas precisam ser aperfeiçoados. “Faltam dados relacionados à forma com que os algoritmos dessas plataformas estão sendo utilizados em relação a contas de adolescentes”, afirma.
Para Zanatta, TikTok e Roblox trazem dados “importantes para as famílias”, em especial a quantidade de conteúdos ligados a desafios perigosos e a abusos.

O TikTok afirma também no relatório que “não utiliza técnicas de perfilamento para direcionar publicidade comercial a usuários mais jovens”. A proibição, segundo a empresa, inclui o uso de análise emocional, realidade aumentada, realidade estendida e realidade virtual para fins de direcionamento publicitário envolvendo menores. No Brasil, a plataforma diz ainda veicular “apenas anúncios não personalizados para usuários menores de 18 anos”.
Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, do Cetic.br, entre usuários de internet de 9 a 17 anos, 57% disseram acessar o TikTok várias vezes ao dia ou todos os dias/quase todos os dias.
No relatório, a plataforma ainda reconhece nos riscos como “uso prolongado, comparação social e imagem corporal, bullying e assédio, comportamento predatório e desafios perigosos” e afirma que suas medidas “reduzem significativamente” esses riscos.
Entre os conteúdos removidos pelo TikTok, 82.706 foram classificados como relacionados a suicídio e automutilação. No Roblox, 36 das 1,25 milhão de medidas aplicadas a usuários brasileiros tiveram como motivo suicídio, automutilação ou comportamentos prejudiciais.
Os números representam categorias de moderação das plataformas e não permitem saber quantos casos envolveram efetivamente crianças ou adolescentes nem quantas situações reais de tentativa de suicídio ou automutilação estavam retratadas nos conteúdos.
A Meta também fez uma análise a respeito do risco residual verificado para crianças e adolescentes em suas plataformas mesmo após implementar salvaguardas para proteger o público infantojuvenil.
A empresa concluiu que nas plataformas Facebook e o Instagram, o risco relacionado a temas como Exploração e Abuso Sexual Infantil é médio. A mesma classificação foi atribuída a essas redes quando o tema é indução a danos a saúde, como suicídio e automutilação.
“O principal fator que contribui para esse resultado é a severidade do dano, mesmo em situações em que a probabilidade de ocorrência do risco é relativamente menor”, diz a empresa no documento.






