As ações do Banco do Brasil caíram quase 30% após a reeleição de Lula, refletindo expectativas de juros altos e falta de ajuste fiscal. Analistas como Ruy Hungria e Gustavo Cruz destacam riscos de inadimplência no agronegócio. O BTG Pactual prevê queda de 50% no lucro do banco no 3º trimestre, devido à deterioração do crédito rural. A ação é negociada a múltiplos baixos, mas com dividendos reduzidos. O preço-alvo é R$ 19, com recomendação neutra.

As ações do Banco do Brasil (BBAS3) caíram quase 30% no primeiro pregão após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e continuam a registrar leve queda nesta terça-feira (27). Para analistas do mercado, o recuo refletiu principalmente a expectativa de juros elevados por mais tempo, diante da percepção de que Lula não promoverá um ajuste fiscal tão amplo quanto o esperado em uma eventual gestão do senador Flávio Bolsonaro (PL).
A queda superou a alta registrada após a vitória de Flávio no primeiro turno. Com isso, BBAS3 acumula perda de 24,49% em outubro e de 19% no ano. Uma retomada mais consistente da ação dependerá de sinalizações do governo sobre um possível ajuste fiscal, segundo Ruy Hungria, analista de ações da Empiricus.
Os resultados de curto prazo do banco não devem ajudar muito o humor com a ação, dado o ambiente atual mais delicado, com juros elevados, endividamento das famílias e alta inadimplência
Ruy Hungria, analista de ações da Empiricus
Na sessão de ontem, as taxas dos juros futuros com vencimento em 2028 subiram 2 pontos porcentuais, sinalizando uma expectativa de juros mais altos daqui a dois anos. Para Gustavo Cruz, estrategista-chefe do Sincra, escritório de assessoria de investimentos ligado ao BTG Pactual, a percepção de risco de ingerência política no Banco do Brasil, por ser controlado pelo governo, “ficou para trás”. Seu principal ponto de atenção é a inadimplência do agronegócio, agravada pela perspectiva de juros elevados por mais tempo.
O BB tem inadimplência batendo principalmente no agronegócio. É uma crise que não está se resolvendo.
Gustavo Cruz, estrategista chefe da Sincra, ligado ao BTG
O Banco do Brasil tem registrado o pior resultado entre os bancos, aponta Fernando Siqueira, diretor da casa de análises Eleven. Portanto, ele recomenda que os investidores evitem a ação agora. “Neste momento, é mais seguro investir no índice Ibovespa ou procurar empresas de primeira linha que caíram bastante nesta segunda, como Itaú.”
BTG prevê queda de até 50% no lucro líquido do banco no 3º trimestre
Às vésperas de divulgar seu balanço, o Banco do Brasil deve apresentar um resultado fraco no terceiro trimestre, pressionado principalmente pela deterioração da qualidade do crédito rural, segundo análise do BTG Pactual. A projeção é de lucro líquido próximo de R$ 1,9 bilhão, cerca de 50% inferior ao registrado no trimestre anterior e 50% abaixo do consenso do mercado.
O principal problema está na capacidade de pagamento dos produtores rurais, que representam mais de 30% da carteira de crédito do banco. De acordo com o BTG, a pontualidade dos pagamentos está próxima de 75%, bem abaixo dos cerca de 90% que estavam implícitos nas expectativas do banco para o segundo semestre de 2026. A diferença de 15 pontos porcentuais aumenta a pressão sobre as provisões para perdas de crédito e, consequentemente, sobre o resultado do banco.
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A situação também aparece nas renegociações de dívidas. O Banco do Brasil tem uma parcela de R$ 12,5 bilhões em recursos equalizados para alocar até 12 de novembro, mas, até o fim de setembro, menos de R$ 1 bilhão havia sido renegociado. Ou seja, menos de 8% desse montante havia sido renegociado até então. O banco começou priorizando clientes com empréstimos vencidos há mais de 90 dias, justamente os casos considerados mais críticos.
Apesar da queda nas estimativas de lucro e dividendos, a ação do Banco do Brasil ainda é negociada a múltiplos considerados baixos. O BTG estima que o investidor paga cerca de R$ 0,70 centavos para cada R$ 1 de patrimônio do banco. Já o preço da ação equivale a aproximadamente oito vezes o lucro projetado para 2026. O problema é que a remuneração esperada em dividendos diminuiu de 4,1% em 2025 para 3,2% em 2026.
O preço-alvo do banco para a ação é de R$ 19, com recomendação neutra (nem comprar, nem vender). Na cotação atual, o potencial de alta é de cerca de 6% em 12 meses.
