O arcabouço fiscal é uma nova versão do teto de gastos e ambos fracassaram, diz Marcos Mendes
O economista disse em painel do Brasil Adiante que se o próximo governo basear a nova política fiscal em uma reforma do arcabouço, será “uma perda de tempo”. Crédito: Estadão
Há semanas em que o mercado financeiro responde a todas as perguntas que vinha fazendo e, mesmo assim, termina mais inquieto do que começou.
A Superquarta de 17 de junho foi uma delas. O Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Selic em 0,25 ponto, para 14,25% ao ano, no terceiro corte consecutivo do ano.
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Do outro lado do equador, o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) manteve os juros da maior economia do mundo na faixa de 3,50% a 3,75%, pela quarta reunião seguida.
E, ao fundo, o noticiário trouxe o esboço de um acordo entre Estados Unidos e Irã para encerrar o conflito e reabrir o Estreito de Ormuz.
Três respostas — corte, manutenção e trégua — para um único dia. O incômodo é que os números que a empresa de análise de dados DataBay levantou ao longo de maio sugerem que a pergunta de fundo continua sem resposta.
O dinheiro trocou de passaporte
O movimento mais eloquente de maio não está na magnitude dos fluxos, e, sim, na sua direção. Pela primeira vez em 2026, o investidor estrangeiro — que sustentou praticamente sozinho a Bolsa brasileira no primeiro quadrimestre — virou vendedor líquido, com saída de R$ 14,9 bilhões.
É a reversão brusca de uma trajetória que já vinha perdendo fôlego mês a mês: R$ 26,3 bilhões em janeiro, R$ 15,4 bilhões em fevereiro, R$ 11,7 bilhões em março e apenas R$ 3,2 bilhões em abril.
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No espelho exato desse gesto, o institucional doméstico — vendedor desde o início do ano — comprou R$ 13,3 bilhões, e a pessoa física somou outros R$ 5,8 bilhões. Em trinta dias, a renda variável brasileira trocou de mãos.
Há duas formas de ler isso, e elas se contradizem. A construtiva diz que o capital local, com informação superior sobre o próprio País, está recolhendo barato aquilo que o estrangeiro descarta por medo geopolítico — o Ibovespa abaixo dos 170 mil pontos embute desconto evidente sobre os fundamentos.
A pessimista lembra que o estrangeiro costuma ser o fluxo que antecipa os pontos de virada, e que sua saída em plena guerra e reprecificação dos juros lá fora seria o alarme, não o ruído.
O histórico recomenda humildade: em 2016 e 2020, quem acertou foi o doméstico; em 2013 e 2021, foi o estrangeiro. O que os dados de maio permitem afirmar sem margem é apenas que a convicção mudou de endereço — e que o comprador marginal da Bolsa, hoje, fala português.
| Período | Estrangeiro | Institucional | Pessoa Física | Inst. Financeiras | Outros |
| Janeiro | 26.314 | -17.538 | -3.571 | -4.686 | -518 |
| Fevereiro | 15.396 | -12.788 | -2.735 | 1.649 | -1.522 |
| Março | 11.656 | -9.949 | 277 | -4.768 | 2.785 |
| Abril | 3.179 | -9.445 | 33 | 4.988 | 1.197 |
| Maio | -14.910 | 13.329 | 5.821 | -1.529 | -2.711 |
| No ano | 41.634 | -36.391 | -176 | -4.346 | -768 |
Fluxo de Investimentos na B3 — YTD maio/2026 (em R$ milhões). Fonte: Dados da B3 elaborados pela equipe DataBay.
A renda fixa piscou

Por quatro meses seguidos, a renda fixa foi o destino quase automático do dinheiro brasileiro — incluindo os R$ 57,3 bilhões de fevereiro, um número fora da curva. Em maio, pela primeira vez no ano, a classe devolveu recursos: R$ 9,4 bilhões em resgates líquidos.
O acumulado de 2026 recuou para R$ 118,2 bilhões, ainda robusto, mas o sinal qualitativo pesa mais do que o saldo. O investidor que havia corrido em bloco para o pós-fixado começou, na margem, a sacar.
As explicações não se excluem: pode ser sazonalidade de liquidez, pode ser realocação tática para uma Bolsa deprimida — os fundos de ações captaram R$ 1,5 bilhão no mês, terceiro resultado positivo seguido — ou pode ser algo mais incômodo: a percepção de que o prêmio do pós-fixado, por mais gordo que pareça, deixa de compensar quando a inflação corrente roda acima de 5% e o início do ciclo de cortes corrói o carrego à frente.
Os multimercados seguem órfãos de narrativa. Saíram outros R$ 2,4 bilhões em maio, levando o ano a R$ 2,9 bilhões negativos. Num ambiente de inversões abruptas de fluxo e de geopolítica de liga-desliga, a indústria que se propõe a navegar cenários acaba punida justamente pela impossibilidade de prevê-los.
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| Estratégia | Janeiro | Fevereiro | Março | Abril | Maio | No ano |
| Ações | -3.949 | -4.030 | 1.394 | 1.143 | 1.456 | -3.987 |
| Cambial | 253 | -208 | -129 | 712 | 100 | 729 |
| Multimercado | 12.820 | -5.542 | -2.142 | -5.599 | -2.389 | -2.851 |
| Renda Fixa | 44.340 | 57.290 | 11.797 | 14.240 | -9.434 | 118.234 |
Captação Líquida — Indústria de Fundos — YTD maio/2026 (em R$ milhões). Fonte: Plataforma DataBay
A parte longa não comprou o corte
Se os fluxos contam o mês, a curva de juros conta o ano — e o que ela diz é desconfortável. Tomando como referência o que o mercado precificava em março, quando ainda se discutia um ciclo de flexibilização ordenado, a estrutura virou outra.
A ponta curta mal se moveu: 4 pontos-base de diferença, condizente com uma Selic que o Copom administra reunião a reunião. Mas a barriga e a cauda da curva escancararam: o vértice de janeiro de 2028 saltou de 13,85% para 14,91% (+106 pontos); o de janeiro de 2029 foi de 13,82% para 14,97% (+115 pontos); e até o vencimento de 2036 subiu 70 pontos, a 14,69%.
A conta é cruel para o discurso oficial. Com a Selic agora em 14,25% e toda a curva negociando entre 14,4% e 15,0% até 2036, o mercado financeiro não está precificando um ciclo lento de cortes — está precificando, na prática, a ausência de ciclo. Quem trava juro para 2029 a 14,97% está dizendo que não acredita que a taxa básica passe tempo relevante abaixo do patamar de hoje.
É a distância entre discutir a velocidade da queda e duvidar de que haja queda. E é justamente por isso que o corte desta última quarta-feira tem efeito ótico limitado: cada ponto-base que o Copom entrega na ponta curta, o mercado desfaz na ponta longa.
| Vértice | Curva atual (%) | Curva em mar/26 (%) | Variação (bps) |
| Curto prazo (jun/26) | 14,38 | 14,34 | +4 |
| Jan/2027 | 14,48 | 14,06 | +42 |
| Jan/2028 | 14,91 | 13,85 | +106 |
| Jan/2029 | 14,97 | 13,82 | +115 |
| Jan/2030 | 14,92 | 13,88 | +104 |
| Jan/2032 | 14,82 | 13,98 | +85 |
| Jan/2036 | 14,69 | 13,99 | +70 |
Curva de Juros Futuros — DI | Curva atual vs. precificação de março/2026. Fonte: Dados de mercado compilados pela equipe DataBay
O desenho reforça o diagnóstico. O pico de abertura mora em 2028 e 2029 — exatamente o horizonte que abraça o próximo mandato presidencial e a janela em que o ajuste fiscal terá, ou não, de acontecer. Com déficit nominal perto de 9% do Produto Interno Bruto (PIB) e dívida bruta rumando a 84% ao fim de 2026, o prêmio de risco migrou para onde habita a incerteza política.
A parte longa da curva brasileira deixou de ser instrumento de política monetária e virou uma espécie de plebiscito antecipado sobre o regime fiscal.
Lá fora, o aperto que não veio
Aqui está a novidade mais relevante do cenário externo — e é uma boa notícia parcial. O fantasma que rondava o mercado nas últimas semanas era o de um aperto pelos dois lados: corte doméstico e alta norte-americana, estreitando o diferencial de juros que protege o real no pior momento possível. Pois o lado dos EUA não veio.
O Fed, na primeira decisão sob o comando de Kevin Warsh, optou por manter a faixa de 3,50% a 3,75% — e de forma unânime, ainda que com um quadro de projeções que se inclina mais para uma eventual alta no segundo semestre do que para novos cortes.
A trégua entre Estados Unidos e Irã, por sua vez, reabriu a possibilidade de alívio no petróleo do tipo Brent e, com ele, na inflação importada que vinha contaminando combustíveis e alimentos. Nada está selado: os termos do acordo seguem vagos e Warsh sinaliza tolerância menor com a inflação corrente. Mas, por ora, a pinça que o mercado temia afrouxou de um dos lados.
O real, que havia devolvido parte do ganho do ano e rondado a faixa de R$ 5,15 a R$ 5,18 no auge do estresse, encontra algum fôlego nesse arranjo — diferencial de juros ainda alto, Fed parado e petróleo com viés de baixa. É alívio tático, não mudança de regime.
O que a Superquarta não resolveu
No fim, o resgate da renda fixa, a venda do estrangeiro e a abertura de 115 pontos no vértice de 2029 são três manifestações do mesmo fenômeno: a percepção de que o Brasil perdeu, ao menos por enquanto, a âncora que tornava seus ativos previsíveis. O Copom pode administrar a Selic — e administrou, levando-a a 14,25%. O Fed pode segurar os seus juros — e segurou. Até o petróleo pode dar uma trégua.
Mas a curva, os fundos e os fluxos cobram aquilo que nenhuma taxa básica alcança: a credibilidade do regime fiscal. O mercado vinha dizendo, desde março, que o Banco Central conseguiria cortar a Selic, mas não o risco. A Superquarta de junho confirmou a primeira metade da frase. A segunda continua de pé — e, enquanto o risco fiscal não ceder, a parte longa da curva vai desfazer, ponto a ponto, cada corte que a ponta curta entregar.

