Comportamento Adolescente e Educação

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Entre o corte e o grito: o que a adolescência tenta dizer e o mundo insiste em não ouvir

Autolesão entre adolescentes cresce no Brasil; entenda como reconhecer sinais, agir sem julgamentos e ativar a rede de cuidado

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Foto do autor Carolina  Delboni
Atualização:

Autolesão entre adolescentes cresce no Brasil: entenda como reconhecer sinais, agir sem julgamentos e ativar a rede de cuidado

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ESSE TEXTO PODE CONTER GATILHOS A TEMAS SENSÍVEIS.

Conhece a série Ginny & Georgia, da Netflix? Já assistiu? Entre os diversos assuntos que ela aborda sobre adolescência, um deles chama atenção: o uso do corpo como válvula de escape para dores invisíveis. Na trama, a protagonista Ginny (Antonia Gentry) recorre à automutilação com um isqueiro como forma de lidar com emoções e pressões que a sufocam. O comportamento se agrava até ser descoberto pelos pais, quando ela inicia acompanhamento terapêutico e passa a desenvolver estratégias de enfrentamento mais saudáveis.

Longe de ser apenas um recurso dramático, a cena espelha uma realidade crescente nas escolas e nos serviços de saúde do país: cada vez mais adolescentes recorrem à autolesão como suporte de um sofrimento emocional difícil de nomear. A autolesão é um ato de cortar, queimar, bater ou ferir o próprio corpo sem intenção imediata de morrer, não é “chamar atenção” nem sinônimo automático de tentativa de suicídio. Muitas vezes é um esforço para tornar a dor emocional tolerável, controlar a ansiedade ou provocar alívio temporário.

O tema, ainda envolto em tabu, deixou de ser exceção e virou alerta público. Nos últimos anos, o número de casos de autolesão entre adolescentes disparou no país. Estudos recentes da Fiocruz apontam que, no Brasil, as notificações de autolesão entre pessoas de 10 a 24 anos aumentaram 29% ao ano. E o que mais preocupa especialistas é que muitos adultos -- pais, professores, colegas -- ainda não sabem como reconhecer os sinais nem o que fazer diante deles.

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Profissionais relatam frases recorrentes nos atendimentos tais como ‘é o único jeito de sentir que estou viva" ou “dói menos cortar a pele do que sentir o que eu sinto por dentro”. Essa complexidade exige escuta informada, não julgamentos rápidos. As bases públicas seguem sendo atualizadas até 2025, permitindo acompanhar a evolução recente e orientar protocolos locais. A automutilação costuma vir com sinais invisíveis aos olhos distraídos: mangas compridas em dias quentes, isolamento, faltas ou queda abrupta no rendimento escolar, frases como “não aguento” em cadernos ou redes. A leitura como “drama” ou “escândalo” afasta e retarda a intervenção, ampliando riscos.

Entre os diversos assuntos que a série Ginny & Georgia aborda sobre adolescência, um deles chama atenção: o uso do corpo como válvula de escape para dores invisíveis. Foto divulgação/ Netflix  

Segundo a psiquiatra Maria Carolina Pinheiro, não é uma fase. A autolesão, principalmente entre adolescentes, nem sempre está diretamente ligada ao desejo de morrer", explica. “Muitas vezes, ela funciona como uma forma de lidar com emoções muito intensas como tristeza, raiva ou vazio, e aparece como um recurso, geralmente temporário, para aliviar a dor psíquica.”

Segundo a médica, nesses casos, o objetivo não é tirar a vida, mas encontrar uma saída para o sofrimento quando ainda não se tem estratégias mais saudáveis de enfrentamento. “Ao mesmo tempo, a presença de autolesões já indica um sofrimento significativo e aumenta o risco de pensamentos suicidas no futuro. Por isso, não podemos minimizar ou ignorar esse comportamento. Cada episódio de autolesão deve ser visto como um pedido de ajuda, e não como uma ‘fase’ ou um ‘drama’."

Ela reforça que o papel dos adultos é inequívoco: acolher, conversar sem julgamentos e buscar acompanhamento especializado o quanto antes. Quanto mais cedo o adolescente tiver acesso a tratamento e suporte emocional, menores são os riscos de agravamento e, portanto, maiores as chances de recuperação.

Maria Carolina alerta que se trata de um fenômeno multifatorial: “a incidência de autolesão entre jovens aumentou tanto nos últimos anos que já se tornou um grave problema de saúde pública. É preciso atenção conjunta de famílias, escolas, profissionais de saúde e sociedade para que não se perpetue nem evolua para desfechos ainda mais graves.”

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Entre os fatores de risco, ela destaca o uso de redes sociais como peso bem significativo. “O fenômeno do contágio social digital facilita a disseminação e normalização da autolesão, além da exposição ao cyberbullying e aos padrões de comparação realísticos. Some-se a isso o contexto familiar adverso, marcado por conflitos, ausência de diálogo e negligência emocional, bem como a pressão escolar e o ambiente competitivo, associados ao bullying e à falta de suporte institucional. O resultado é uma tempestade perfeita para o agravamento dos casos de autolesão em adolescentes brasileiros, ainda somada a fatores como traumas, abusos, transtornos psiquiátricos ou a convivência com pessoas que também se automutilam."

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Para Pinheiro, também é fundamental propor alternativas seguras para a expressão da dor emocional. “Comunicação verbal, atividades artísticas, esportivas ou técnicas de relaxamento, sempre com envolvimento da família e acionamento da rede protetiva quando houver risco elevado”, conclui.

“É preciso olhar para sinais físicos e comportamentais”: fala da psicóloga Ana Carolina D’Agostini, especialista em pedagogia e saúde mental do Instituto Ame sua Mente. “A identificação da autolesão nem sempre é simples de ser feita. Exige atenção tanto a sinais físicos como comportamentais desses estudantes.”

Ela explica que, no desempenho, “isso pode aparecer com queda nas notas, uma postura mais apática em sala de aula, menos participação, e também no convívio social, como querer passar os intervalos mais sozinho, não participar da educação física, mesmo sendo uma atividade de que gostava antes.”

Sobre sinais físicos, ela aponta: “cortes pelo corpo, nos braços e nas coxas, queimaduras na pele, arranhões, retirada de crostas ou até mesmo arrancar cabelo e outros pelos do corpo. Muitas vezes, esses machucados são escondidos por roupas de manga comprida ou acessórios, até mesmo em dias quentes.”

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Para identificar, Ana Carolina recomenda comparar o jovem com ele mesmo. “Como era antes e como está agora. Ficar atento a falas como ‘isso nunca vai mudar’, ‘minha vida vai ser sempre assim’, e também a sinais como isolamento, comportamento impulsivo e uso abusivo de substâncias.”

Ela reforça: “é muito importante não rotular o jovem. O registro desses sinais deve ser feito de forma cuidadosa e objetiva, limitado à descrição do que foi observado, sem interpretações ou rótulos.” Quanto à atuação da escola, ressalta: "É essencial que haja protocolos claros: como é feito o encaminhamento, qual a linguagem no registro, quem deve ser acionado, sempre garantindo dignidade e confidencialidade."

No acolhimento inicial, recomenda. “O primeiro passo é garantir um espaço reservado para essa escuta inicial, transmitindo sensação de segurança e de acolhimento genuíno, sem reações de choque ou julgamentos. É importante que exista um adulto de referência e que a gestão escolar seja comunicada imediatamente, pois já possui protocolos institucionais."

Ela lembra que a família deve ser envolvida obrigatoriamente, mas com o jovem participando dessa decisão, para não fragilizar o vínculo. Sobre a rede de apoio, Ana Carolina aponta: “é fundamental articular com a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).

Dentro dela, fazem parte os CAPS, que oferecem atendimento comunitário em saúde mental. Também podem ser acionadas as unidades básicas de saúde e os hospitais, e em situações de urgência, os prontos atendimentos. Como recurso complementar, temos o CVV, pelo telefone 188, que funciona 24 horas. E materiais formativos, como o caderno de saúde mental sobre autolesão elaborado pelo Ame Sua Mente para gestores escolares.

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Na prevenção, defende inserir a saúde mental na rotina escolar: “Isso inclui projetos com arte, música, esporte, maneiras de vínculo, práticas de escuta ativa e rodas de conversa sobre temas pertinentes à vida, como projeto de vida. Um bom caminho é a aprendizagem socioemocional guiada pelo acrônimo SAFE: sequenciada, ativa, focada e explícita. Feito assim, conseguimos fortalecer competências como empatia, modulação emocional, resolução de conflitos e assertividade, que são muito protetivas para a saúde mental."

Para encerrar, ela lembra: “Somos todos responsáveis, escola, família e serviços de saúde mental. Quando pensamos sobre esses temas de forma contínua, a escola tem mais chance de se tornar um espaço emocionalmente seguro.”

Guia rápido: como agir

1. Escute sem julgamento: valide o sofrimento, evite minimizar. 2. Ative protocolos escolares: identificação, registro e encaminhamento claros. 3. Encaminhe e acompanhe: CAPSij, UBS ou pronto-atendimento quando houver risco. 4. Fortaleça redes de apoio: projetos de arte, música, esporte e grupos terapêuticos. 5. Cuide da comunicação digital: evite glamourização da autolesão e promova letramento emocional.

Onde buscar ajuda

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CAPSij e Unidades Básicas de Saúde (UBS): atendimento gratuito pelo SUS. RAPS (Rede de Atenção Psicossocial): serviços especializados em saúde mental. CVV - 188: apoio emocional gratuito e sigiloso, 24 horas por telefone, chat ou e-mail.

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